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Hedeson Alves/Gazeta do Povo / “Cada boneco é único”, diz Kobachuk, explicando que suas “crias” representam cada qual um personagem e nunca são reaproveitados em outros; vários deles estão em exposição na sede da companhia, em Curitiba “Cada boneco é único”, diz Kobachuk, explicando que suas “crias” representam cada qual um personagem e nunca são reaproveitados em outros; vários deles estão em exposição na sede da companhia, em Curitiba
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A vida por alguns fios

O paranaense Manoel Kobachuk é um dos mestres mais respeitados do Brasil na arte do teatro de bonecos e se prepara para novas aventuras

Publicado em 26/10/2009 | Irinêo Baptista Netto

Na entrada do teatro Dr. Botica, um senhor com seus 60 anos, cabelos brancos bem curtos e roupas pre­­­tas – o nome dele é Manoel Ko­­ba­­chuk –, aparece para abrir as por­tas e coletar os ingressos, destacando metade para si e metade pa­­­ra o espectador. “Qual delas você quer?”, pergunta para um menino de 4 anos, que leva um tempo para es­­colher entre os dois pedaços de papel.

Dentro do teatro, que é pequeno e aconchegante, pais e crianças vão se abancando. Não demora muito e o porteiro entra e diz que está todo mundo ali e que o espetáculo deve começar. Mas nada acontece. Ele grita o nome de alguém que não aparece, se desculpa, grita de novo e então diz que não há o que fazer. A peça precisa ser cancelada e ele deve recolher as caixas espalhadas sobre o palco.

Priscila Forone/Gazeta do Povo

Priscila Forone/Gazeta do Povo / Para Kobachuk, é preciso “sangue jovem” para manter a arte bonequeira em destaque Ampliar imagem

Para Kobachuk, é preciso “sangue jovem” para manter a arte bonequeira em destaque

Assim começa Surpresa, peça vencedora do Troféu Gralha Azul 1997 nas categorias espetáculo, texto e direção. Ela é uma das 13 montagens do grupo que leva o nome do senhor de cabelos brancos bem curtos. Manoel Kobachuk é um dos maiores mes­­tres bonequeiros do Brasil, daqueles que são chamados para se apresentar em festivais europeus. E o porteiro do teatro Dr. Botica é só mais uma das sacadas de um profissional com mais de quatro décadas de experiência.

O tempo ensinou ao ator e diretor que, muitas vezes, as crianças só vão gostar da peça se elas confiarem nos personagens (os bonecos têm a vantagem de serem criaturas simpáticas sem fazer esforço). Recebendo as crianças na porta do teatro, Kobachuk tem a chance de mexer com elas, elogiando o tênis de uma ou perguntando sobre a metade do ingresso.

Quando ele entra no teatro, to­­dos o conhecem e lembram dele. Tão divertido quanto assistir a uma peça de Kobachuk é ver a habilidade que tem de conquistar o público e conduzi-lo, sem perder o ritmo, por mais de uma hora. Quem convive com crianças, sabe o tamanho da proeza.

Nascido em União da Vitória, no interior do estado, veio para Curitiba na adolescência. Aqui, em 1961, decidiu se tornar ator e estudou com Helena Barcelos. Terminou o curso e começou a se envolver com a arte dos bonecos dentro de um Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional do Estudantes (UNE).

Por causa do golpe militar, teve de se afastar do palcos entre 1964 e 1971. Ficar sem o teatro já era bastante difícil para Kobachuk, mas pior foi passar o 1971 no presídio do Ahú. A situação melhorou em 1984, quando pôde fundar o grupo Bonecandeiros, mais tarde chamado de Centro Animações e, por fim, Cia. Manoel Kobachuk em 2001, data em que passou a administrar o teatro Dr. Botica, dentro do Shopping Estação.

“Jamais vou ser um especialista”, diz Kobachuk. Ao contrário de bonequeiros que dedicam a vida inteiro a uma técnica – luvas, fios ou varas –, o paranaense prefere transitar por várias e procura pensar numa técnica a partir da ideia da peça. Às vezes, usa duas ou três para narrar uma história, como em Boti e o Planeta Água.

Hoje, a Cia. Manoel Kobachuk tem 17 integrantes entre atores e outros profissionais do teatro e, além de trabalhar no grupo, são incentivados a criar projetos paralelos e atuam na associação Chico Lua, criada para formar, capacitar e assessorar todos os interessados na arte bonequeira.

A sede da companhia, num casarão da Avenida Iguaçu, abriga uma exposição de cartazes, um acervo de vídeos e livros sobre a arte bonequeira, e dois ateliês para a confecção de bonecos. Toda a estrutura está à disposição de quem quiser se envolver mais com o assunto.

Foi no casarão que Kobachuk conversou com a reportagem. Ele é extremamente claro em suas ideias e no modo de apresentá-las. Com uma fala tranquila, organiza as explicações em tópicos – como quando fala sobre as etapas a se­­rem enfrentadas por um ator que deseja manipular bonecos.

Habilidade, malabarismo e e­­­mo­­ção. Primeiro, o ator descobre que leva jeito para mexer com os bonecos, tem interesse em saber mais. Depois, começa a treinar e precisa mover os personagens tal qual um malabarista. Muitos não conseguem passar dessa etapa. Aqueles que conseguem, se tornam capazes de transmitir emoções através dos bonecos e dão vida a eles.

Neiva Figueiredo, produtora da companhia há oito anos, considera Kobachuk “um mestre generoso”, mas “um péssimo administrador”, diz, para provocá-lo. Ele não se abala, sorri e conta quais as mudanças que deve enfrentar nos próximos meses. Depois de oito anos, o grupo vai deixar de administrar o teatro Dr. Botica no dia 30 de dezembro. Com a aprovação em um edital do Ministério da Cultura, a associação Chico Lua passa a funcionar como um Ponto de Cultura a partir de 2010, trocando informações e experiências com outras entidades se­­melhantes do país inteiro, mantidas pelo governo federal e abertas ao público.

Kobachuk, hoje com 64 anos, diz não estar triste por deixar o Dr. Botica. Ele sempre encarou as mudanças com disposição e procurou se preparar para elas com antecedência. E também gosta de passar seu conhecimento para os mais novos. “É preciso uma insuflada de sangue jovem”, diz, “porque eu não deixo de me interessar, mas a energia vai baqueando”.

Serviço

Cia. Manoel Kobachuk (Av. Iguaçu, 339), (41) 3322-2775.

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