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G Ideias

Ilustração: Ricardo Humberto

Ilustração: Ricardo Humberto /
Vida sobre rodas

O desejo de ser livre no país do abismo social

Um dos vilões da atualidade, o automóvel é personagem importante no cinema americano e, hoje, protagoniza um paradoxo nacional

Publicado em 27/02/2010 | Irinêo Baptista Netto

Se você quiser descarregar em alguém, culpe Karl Benz (1844-1929), dono do nome depois do hífen em Mercedes-Benz. Também dá para maldizer Henry Ford (1863-1947), o ídolo de Bill Gates. Embora o alemão e o americano não devessem desconfiar aonde o automóvel levaria a humanidade.

O carro é um dos vilões da atualidade. Poluição e trânsito são palavrões que as pessoas evitam mencionar. Como a maior potência mundial se define, em parte, pelo automóvel, é coerente que parte do planeta siga atrás. O carro está de tal forma ligado à cultura dos Estados Unidos que sobre ele existem filmes, músicas e livros. É provável que haja versos também.

História

Saiba mais sobre a história do automóvel no Brasil

- O primeiro carro chegou ao Brasil no dia 25 de novembro de 1891. Um Peugeot, com motor Daimler de 3,5 cv, desembarcou no porto de Santos e foi adquirido por Alberto Santos Dumont, o inventor do avião.

- O Fusca, o Volskwagen (carro do povo, em alemão) é o modelo de carro mais popular de todos os tempos. Foi projetado por Ferdinand Porsche e aprovado por Adolf Hitler, que utilizou variações do modelo para fins militares, inclusive durante a Segunda Guerra Mundial. Sua fabricação no Brasil começou em 1959 e parou em 1986. A pedido do então presidente da República Itamar Franco, o Fusca voltou a ser produzido em 1994. Parou novamente de ser fabricado em 1996.

- O primeiro carro fabricado em território brasileiro foi o Romi-Isetta, produzido pelas indústrias Romi na cidade de Santa Bárbara d’Oeste, em São Paulo.

- O primeiro acidente de trânsito que se tem notícia no Brasil aconteceu em 1897, quando o poeta Olavo Bilac colidiu com um árvore.

- O cinto de segurança foi considerado item obrigatório em automóveis em 1969.

- O primeiro carro nacional a ser vendido com injeção eletrônica no Brasil foi o Volkswagen Gol GTI, fabricado a partir de 1989.

Há 20 anos, João Moreira Salles argumentou, no documentário América, que o ideal americano de mobilidade já estava em crise. Era a visão de um estrangeiro sobre os Estados Unidos e, agora, a afirmação soa profética.

A liberdade – outra palavra para “mobilidade” – existe no ato de pegar seu carro e dirigir para onde quiser. Basta pensar quantas vezes, em filmes de Hollywood, um personagem diz ao outro: “Eu tenho o tanque cheio de gasolina. Vamos embora para o México!”. Podia ser um bandido, um amante, ou alguém encarnando pela enésima vez o papel do viajante, essencial para os americanos. Quando não eram os carros, eram os cavalos. A ideia de errância permanece.

Faz sentido os EUA terem criado um gênero para definir os filmes de estrada – o road movie. Apesar de ter protagonistas em motocicletas, Sem Destino (1969) é um dos exemplos mais emblemáticos. Em 1999, David Lynch conseguiu fazer um filme de estrada com um velhinho dirigindo um trator de cortar grama. Era Uma História Real, fazendo um comentário sobre o gênero.

Mas a fissura por carros transcende as viagens e aparece em filmes policiais. As cenas de perseguição se tornaram uma forma de arte no cinema – lembre Bullitt, de 1969, com Steve McQueen, e Operação França, de 1971, com Gene Hackman, entre outros vários. Há casos em que a relação homem-carro move até desejos sexuais bizarros – é o que se vê em Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg, sobre pessoas que sentem prazer com batidas de carro.

Em entrevista à Gazeta do Povo, por e-mail, o escritor e professor de Filosofia Pablo Capistrano comenta o fato de o Brasil ter assumido a cultura do automóvel elaborada pelos americanos. “O Marshall Berman, em Tudo Que É Sólido Desmancha no Ar (Companhia das Letras), fala sobre a influência dessa cultura do automóvel na configuração das cidades norte-americanas, mas isso vai além, passa pela própria autoimagem daquele povo. O Brasil seguiu um pouco esse caminho, mas acho que aqui há um elemento de poder que envolva o carro e que ganha conotações mais intensas porque existe o tal do abismo social que separa ricos e pobres. Então o carro, como o diploma de nível superior, passa a ser um código de ascensão social, um sinal de que você passou de fase no videogame das classes sociais”, diz.

Em partes da Europa e dos EUA, o culto ao carro está perdendo terreno para formas alternativas de transporte, como skate, patins e bicicleta.

A máquina desenvolvida por Karl Benz em 1885 (mais ou menos como a conhecemos agora) e produzida em escala por Henry Ford a partir da primeira década do século 20 vive um momento de crise.

“Acho que essa ideia do carro como um instrumento de poder tende a mudar, especialmente nas grandes cidades porque o carro vai acabar se tornando inviável”, diz Capistrano, sempre se referindo ao Brasil. Ele argumenta que não é possível criar uma estrutura urbana que dê conta da quantidade de automóveis. Trata-se de um paradoxo.

“Para que o trânsito flua, é preciso que existam poucos carros na rua e isso cria o código da exclusão e os mecanismos psicológicos de status e ascensão social. O problema é que a indústria não tem compromisso com a mobilidade, ela se interessa em produzir e vender carros, então a promessa da liberdade esbarra na democratização do acesso ao automóvel, que é resultado da pressão da indústria”, diz o escritor.

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