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Domingo, 05/09/2010

Antonio Costa/Gazeta do Povo

Antonio Costa/Gazeta do Povo / Figurinos criados por 
Fernando Garanhani Figurinos criados por Fernando Garanhani
Teatro

A tragédia de uma mulher transgressora

Claudete Pereira Jorge e Helena Portela ensaiam para o espetáculo Medeia, que estreia no Guairinha dia 6 de maio. Será o retorno do diretor Marcelo Marchioro aos palcos, cinco anos depois de Pico na Veia

Publicado em 25/04/2010 | Luciana Romagnolli

O diretor Marcelo Marchioro e a atriz Claudete Pereira Jorge estão prestes a realizar o desejo antigo de montar Medeia, a tragédia infanticida. Chegaram a pensar em fazer um solo, mas acabaram alterando o plano para incluir em cena a filha de Claudete, a também atriz Helena Portela. À jovem coube o papel da ama, uma espécie de extensão da protagonista: sua cúmplice e a indutora de seus crimes.

Pela voz da ama ecoam as falas dos outros personagens que habitariam a tragédia escrita por Eurípedes em 431 a.C, mas foram suprimidos nesta versão. As únicas figuras masculinas preservadas viraram imagens estáticas: não passam de uma sombra (provável solução para a presença de Jasão, o marido que abandona Medeia) ou um estandarte (o rei Creonte) ao fundo do palco. Nessa operação, perto de metade do texto original foi subtraído.

Antonio Costa/Gazeta do Povo

Antonio Costa/Gazeta do Povo / Helena Portela, filha de Claudete, interpreta a ama que induz Medeia ao infanticídio Ampliar imagem

Helena Portela, filha de Claudete, interpreta a ama que induz Medeia ao infanticídio

Bastidores

Saiba mais sobre a montagem

Cenário

A maquete do cenário, feita pelo figurinista e cenógrafo Ricardo Garanhani, fica à espreita durante os ensaios, num canto da sala. O palco do Guairinha será coberto de tons terrosos e ganhará nichos de alturas variadas, por onde Medeia sobe e desce, conforme os níveis de seu discurso, com picos de ódio e frieza. Haverá também um fio de água vermelha escorrendo, até que forme um alagadiço em torno de uma pequena ilha. O berço das crianças é desvelado ao fundo, quando se afastam algumas tiras de juta pendentes.

Intuitiva

Para descobrir como deveria compor o corpo e a voz de Medeia, Claudete Pereira Jorge diz ter ouvido sua intuição. Também se submeteu aos olhares alheios, que lhe ajudaram a perceber, por exemplo, que Medeia é uma mulher que não se deixa abater, sempre altiva.

Trágica

Claudete já havia atuado em Medeamaterial, a versão de Heiner Mueller, dirigida por Mariana Percovich. Antes, fez À Grega, de Marcelo Marchioro, inspirado no Édipo Rei, e ainda Ilíada – Canto 1, dirigida por Otávio Camargo.

Serviço: Medeia. Guairinha (R. XV de Novembro, s/n.º), (41) 3315-0979. Texto de Eurípedes. Direção de Marcelo Marchioro. Com Claudete Pereira Jorge e Helena Portela. Estreia dia 6 de maio, às 21 horas. Sexta e sáb. às 21h e dom. às 19h. Ingressos a confirmar.

Cinco anos se passaram desde que Marcelo Marchioro dirigiu suas últimas montagens, a peça Pico na Veia e a ópera Gianni Schicchi, de Puccini. De volta à ativa, o diretor se dedica a um texto clássico, identificando nele atualidade e proximidade: “Nossa vida é uma tragédia”, diz justificando por que montar a peça agora. E completa: “A Medeia é nossa vida. Na semana passada, um homem matou dois filhos e se jogou de um prédio.”

Os ensaios para o espetáculo que estreia dia 6 de maio, no Guairinha, acontecem na ampla sala da casa de Otávio Camargo, sede da Fundação Ilíada Homero. O momento é de marcação das cenas, quando, já com o texto memorizado, decide-se a movimentação de cada uma das atrizes no desenrolar da trama, suas ações e que objetos trarão ao palco.

Na tarde de ensaio acompanhada pela reportagem da Gazeta do Povo, duas cumbucas de metal, uma indiana e uma egípcia, foram incorporadas: quando circundadas por pilões, tangenciando suas bordas, as peças produzem um som contínuo e crescente, que irrompe do silêncio no qual as personagens mergulharam preparando o veneno mortífero. Está nos planos do grupo manusear também um tear e folhas, de modo a criar uma sonoplastia viva.

Helena entrou um pouco mais tarde no projeto, mas sua participação é atuante. A atriz não se contenta em cumprir seu papel e entoar lamentos. Nos bastidores, sugere gestos, tempos, silêncios. É sua a ideia de que Jasão tome a forma de uma sombra, de início maior do que a figura carnal de Medeia, mas que diminui e a iguala em proporção quando discutem e a mulher lhe cobra suas falhas. “Meu figurino podia ser no tom exato do cenário, para eu desaparecer às vezes”, propõe também.

Sua ama se relaciona com Medeia como um “duplo”. Para manter o contraponto, as duas atrizes têm movimentos simultâneos e semelhantes, e Helena está proibida de sair do cenário mesmo quando sua personagem não se envolve na ação – “nem que vire pedra”, em algum lugar visível ao público ela deve permanecer.

“Sou um diretor liberal”, diz Marchioro. Ele ouve as sugestões e acata, ou já responde que está “uma bosta”, aos risos. A seu lado, encontra-se a diretora de movimento Kátia Drummond. Ainda por perto, o assistente de direção Cléber Braga.

Eles estão ensaiando há um mês e meio. Antes, passaram pelo período do trabalho de mesa, decupando o texto, lendo e buscando referências de outras montagens e dos vários mitos associados à Medeia. No início desta semana, começarão os ensaios no Guairinha – a instituição é apoiadora do espetáculo, que tem patrocínio do Mecenato municipal.

“Dono”

Eurípedes foi trangressor ao escrever a tragédia criando um coro feminino e uma personagem, ela mesma, transgressora. Numa de suas primeiras falas, Medeia situa qual o papel feminino na sociedade ateniense de então. Algo como ter de achar um “dono” para o seu corpo (o marido), sem saber se seu caráter será bom ou mau, e a partir disso se esforçar para acertarem a convivência. É uma mulher que reivindica cidadania.

“Medeia era uma bárbara. Veio de uma sociedade matriarcal e se viu, por amor, na sociedade grega onde a mulher não tinha a menor voz, onde o filho é do pai, não da mãe. Ela traiu pai e mãe e matou o irmão por esse homem. Está perdida, sendo banida, e seus filhos com certeza serão mortos”, descreve Claudete. E conclui, sobre essa mulher contraditória: “Matar os filhos não é só vingança, é extinto de proteção.”

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