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José Carlos Fernandes

Foto: Jonathan Campos – Arte: Marcos Mello

Foto: Jonathan Campos – Arte: Marcos Mello /

As gurias do “Caça Marido"

Publicado em 13/07/2012 |
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Houve uma época nesta cidade em que as normalistas tremiam debaixo do vestido só de imaginar o que ribombaria nos seus ouvidos caso tirassem nota baixa numa prova: “Não quer estudar? Pois vá para o Caça Marido”. O “Caça”, caso alguém não se lembre, era o apelido do Educação Familiar do Paraná, um colégio de freiras que funcionou na capital de 1953 a 1986, assim chamado por ensinar a servir à francesa e a bordar ponto-cruz. Em tempo – falar mal da escola era puro despeito.

Nos mais de 30 anos em que promoveu cerzidos e quetais, o “Caça Marido” teve em suas seletíssimas listas de chamada – com nunca mais do que 300 alunas – algumas das mais bonitas e ricas moçoilas da sociedade, de modo que deveria se chamar “Caça Esposa”. Eram ótimos partidos. Os rapazes sabiam disso e no final da manhã congestionavam a Rua Bento Viana com seus automóveis para vê-las sair das aulas, frescas, trajando saias xadrezes, sempre alguns centímetros acima do permitido, para desespero das inspetoras.

Yes, as meninas do “Caça” eram rebeldes e por isso estavam ali, e não no Sagrado, no Divina ou no Sion, onde estudavam suas manas mais recatadas. Para os pais, que quase tinham de perder a classe para conseguir uma vaga no início do ano, matriculá-las no “Educação Familiar” significava uma esperança de domar suas filhas nas lições de forno e fogão. Para elas, o “Caça” vinha como uma libertação dos espartilhos dos colégios tradicionais, dos quais, não raro, tinham saído “a convite”.

Contando, tem quem não acredite. As freiras que administravam a instituição, as Filhas do Coração de Maria, foram fundadas nos mais sólidos princípios da Revolução Francesa: não usavam hábito, mesmo antes do Concílio Vaticano II, e não exigiam ser chamadas de “irmãs”. Apesar do aparente conservadorismo do currículo, havia aulas sobre sexualidade e se podia falar de qualquer parangolé, sem censura, bem a gosto daqueles tempos solares que viram surgir a pílula e o amor livre, mais ou menos nesta ordem.

É fato que havia situações engraçadas, como medir com régua a distância entre o garfo e a faca numa mesa de jantar; levar pau na disciplina de Corte e Costura; ou obrigar as gurias à limpeza da pia, como se fossem domésticas. As religiosas cumpriam esses expedientes à risca, cobravam bem por isso, e de quebra faziam artimanhas para tirar suas mimadas pupilas da bolha: levavam as alunas a lugares que muitas imaginavam existir apenas nas páginas da National Geographic.

“Uma delas, mais tarde mulher de um embaixador, desmaiou ao ver uma criança subnutrida numa favela de Curitiba”, conta a historiadora Cleusa Maria Fuckner, 47 anos [foto], autora de uma deliciosa dissertação de mestrado sobre o “Caça” – Magistério e casamento: memória e formação no Colégio de Educação Familiar do Paraná, defendida em 2000 no Setor de Educação da UFPR.

Cleusa nunca estudou no “Caça Marido”. Nem poderia. Educada nos ardores na Teologia da Libertação, cresceu jurando que o local não passava de uma fábrica de dondocas cinco estrelas. Quase “deu um treco” quando lhe sugeriram que pesquisasse a instituição. E outros mais quando passou a receber telefonemas de ex-alunas se oferecendo para lhe dar uma entrevista. “Mando o motorista te buscar”, disse-lhe uma.

Ué, não tinham vergonha de ter estudado num local que virara sinônimo de “cabeça de vento”? Não. Logo entendeu por quê. No “Caça” elas tinham debutado para a vida. Era escola excelente. Eis a questão. É fato que alguns mistérios rondam o fechamento do colégio. Oficialmente, a década de 1980 assistiu à revoada das moças de boa família para cursos que as catapultassem às melhores faculdades e não aos melhores casamentos. Com poucas alunas, não havia como manter o nível das aulas de culinária – que exigiam as mais caras iguarias – nem como pagar professoras cujos pendores as credenciavam a ensinar etiqueta nas casas reais europeias.

Restou às freiras deixar o “Caça” ao julgamento da história. Cleusa Fuckner adiantou o serviço – mostrou que o colégio promoveu sim a volta das mulheres ao lar, mas sem lhes esconder que muitas casas tinham caído. Que fossem à luta, de unhas feitas.

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