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José Castello

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Conversa entre livros

Publicado em 09/03/2014 |
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Ao subir até minha biblioteca, algumas vezes tenho a impressão de ouvir um discretíssimo burburinho. Um murmúrio, um ruído secreto, como restos de palavras, ditas quase em silêncio, ou mesmo em silêncio. Como se eu flagrasse meus livros, na minha ausência, mesmo fechados e imóveis, dialogando entre si. Livros que conversam com outros livros, em um diálogo secreto que arrasta o leitor, que o envolve e o alimenta. Penso nessa estranha sensação enquanto leio duas narrativas infantis de Shel Silverstein que acabam de sair pela Cosac Naify: A Parte Que Falta e A Parte Que Falta Encontra o Grande O. Penso em um terceiro livro para crianças, Quando Meu Gato Era Pequeno, de Gilles Bachelet, lançado pela Estação Liberdade, uma narrativa que dialoga com as duas primeiras.

A primeira delas, A Parte Que Falta, narra a história de um círculo a quem falta uma parte — como uma torta redonda que teve uma fatia roubada. Silverstein conta a aventura deste círculo em busca de seu complemento. Ele sai à procura da outra parte em outra parte, não em si mesmo. Enquanto rola, canta uma canção: “Oh, busco a parte que falta em mim,/ a parte que falta em mim./ Ai-ai-iô, assim eu vou,/ em busca da parte que falta em mim”.

Infantis

A Parte Que Falta Shel Silverstein. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Cosac Naify, 112 págs., R$ 43.

A Parte Que Falta Encontra o Grande O Shel Silverstein. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Cosac Naify, 112 págs., R$ 45.

Quando Meu Gato Era Pequeno Gilles Bachelet. Tradução de Bernardo Bojadsen. Estação Liberdade, 32 págs., R$ 26.

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Como lhe falta uma outra parte, ele não consegue rolar muito rápido — e assim pode conversar com uma minhoca, ou sentir o aroma de uma flor, ou ainda brincar com um besouro. Um dia, acha que encontra a parte perdida — alguém que tem o formato da fatia de torta roubada. Ela reage: “Não sou a parte que te falta. Não sou parte de ninguém. Sou parte completa”. Segue em frente e encontra outras partes, mas elas, pequenas demais, ou grande demais, nunca nele se encaixam. “Certa vez, pareceu que tinha achado a parte perfeita, mas não a segurou forte o bastante, e a perdeu”. Outra vez, segurou com força demais, e a quebrou. Nada dá certo em sua busca.

Por fim, o círculo encontra uma parte que nele encaixa com perfeição. Mas agora que está completo passa a rolar com muita rapidez e não consegue mais cheirar uma flor, não pode sequer cantar. Entendeu que a fusão absoluta é, na verdade, uma prisão. “E, com cuidado, pôs a parte no chão e rolou devagar para longe”. A história continua no segundo livro, agora na perspectiva da parte que falta, e não mais do círculo. Também ela busca um encaixe, mas nenhum dos círculos que ela encontra lhe serve. Alguns deles tinham muitas partes faltando, outros tinham partes demais e nelas sufocavam. Até que um dia achou o círculo em que enfim se encaixava. Acontece que, depois disso, a parte começou a crescer e o encaixe se tornou asfixiante. Sabe que não pode recuar, que precisa continuar a crescer. Abandona, então, o círculo que, desolado, sai cantando: “Busco a parte/ que falta em mim/ uma que não/ cresça assim...”

Até que um dia a parte carente encontra o Grande O, um círculo perfeito. “Acho que você é aquele que eu esperava”, ela diz. “Mas não falta parte alguma em mim”, ele protesta. Desiludida, volta a ficar sozinha e decide não mais procurar a parte que lhe falta. Ao contrário: resolve aprender a rolar sozinha. No início é difícil, mas ela insiste e luta, até que consegue começar a quicar. Está rolando! A parte que falta aprende que o encaixe que lhe falta é com ela mesma. Que ela própria é o seu sentido e o seu destino, e não alguém que venha de fora. Só depois disso, ela consegue, de fato, se aproximar do Grande O. Quando descobre que mesmo uma parte é uma coisa inteira. E que a verdadeira aproximação só se dá entre seres inteiros.

Os dois livros me levam à leitura de Quando Meu Gato Era Pequeno, de Gilles Bachelet. A história simples de um homem que adota um gato e os novos desafios que isso lhe traz. Esta é a história que lemos: um homem adota um gato. Mas nas ilustrações do próprio Bachelet o gato não é um gato, é um elefante. Que se aninha em sua cestinha para dormir. Que toma seu leite com voracidade. Que arranha as poltronas e passa horas a dormir. Que gosta de dormir entre as pernas de seu dono e se entristece sempre que ele sai de casa. O choque entre palavra “gato” e a imagem do elefante produz no leitor um delicioso estranhamento. Algo parece fora do lugar — algo parece incompleto, como nas histórias de Silverstein. Algo parece estar faltando. Mas não: a divergência entre a narrativa e os desenhos é uma afirmação veemente da liberdade do autor, Gilles Bachelet. Em seu livro de ficção infantil, ele pode tudo. Não precisa seguir a lógica, ou o bom senso. Não precisa ser claro, ou coerente. É assim que chega a si — como o círculo e a parte de Silverstein, que se bastaram sozinhos, e só assim puderam chegar ao outro. Aceitando a diferença. Fazendo uso do incrível poder conferido pela liberdade.

Lembro aqui de meu sobrinho Eduardo, de nove anos, que recentemente me perguntou. “Por que existem perguntas que não têm respostas?” Tentei explicar que ele estava dando o primeiro passo num terreno muito estranho, mas muito belo: a filosofia. Não sei se chegou a entender o que eu quis dizer. “Onde ficam essas respostas que não encontram suas perguntas?”, ele insistiu em perguntar. Tentei lhe dizer que as perguntas sem resposta não precisam de respostas, e que as respostas sem perguntas não precisam de perguntas também. Em outras palavras: tentei lhe mostrar que no mundo as coisas nem sempre se encaixam, grande parte das vezes divergem. E que não existe o encaixe perfeito, ou a perfeição. Assim que reencontrá-lo vou lhe dar de presente os livros de Silverstein e de Bachelet. Não que neles meu sobrinho vá encontrar as respostas que procura e não acha. Mas entenderá, tenho certeza, a beleza das perguntas. Como, mesmo sem respostas, elas nos alimentam. Como elas nos fazem bem.

Talvez venha daí o burburinho que acredito ouvir cada vez que subo à minha biblioteca. Mesmo fechados, os livros falam ao mesmo tempo. Um não espera resposta do outro — todos têm algo a dizer e isso lhes basta. Ou pelo menos deveria bastar.

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