Terça-feira, 09/02/2010
Entendi perfeitamente essa resistência ao comprar no aeroporto de Lisboa o romance A vida em surdina, do inglês David Lodge, traduzido maravilhosamente para o português – de Portugal. Seria uma boa arma para enfrentar a interminável viagem de volta, para quem jamais dorme em avião, como eu. E então, página a página, preso na ótima narrativa, comecei a perceber mais objetivamente o que nos incomoda tanto, a nós e a eles. Não há a rigor uma só frase que não nos cause estranheza – tudo é familiar, mas pelo caminho espalham-se pedrinhas de sentido a desviar o rumo. Quanto à linguagem, em nenhum momento o leitor se sente em casa, e isso é mortal na prosa literária, que tem na vida cotidiana da língua a sua matéria-prima de origem. Não é só vocabulário, o que seria um problema simples – é sintaxe mesmo, os pronomes todos e seus modos de usar, campos semânticos sutilmente distintos, regências particulares que vão como que armando um novo modo de ver o mundo, tudo que metaforicamente define uma língua. Vejam um exemplo discreto: “Apercebi-me de que me esquecera do guarda-chuva, mas não voltei lá acima para o ir buscar”. Ou: “Os dois miúdos também virão cá ter, por isso vai ser uma festa em grande.” Mais uma: “O carro tem vidros fumados para despistar potenciais raptores, e um autocolante na janela de trás a dizer “bebé a bordo”, apelando à consciência dos condutores que possam fazer tenções de lhes bater na traseira.”
Como esses textos falam por si, vai a minha proposta herética: que nossa prosa contemporânea seja traduzida em edições no outro país. Não apenas no vocabulário acidental, mas na estrutura sintática mesmo, como se nós escrevêssemos em croata, e eles, em turco. Se meu livro, escrito em brasileiro, pode ser traduzido para o catalão, porque não para o português? Sei que esse é um vespeiro terrível, e temo estar a provocar serial killers linguísticos esbravejando contra meu crime de lesa-pátria. Ora pois, minha língua é minha pátria, e gosto de saber que meu leitor está em casa, seja ele russo, árabe ou português.
Cristovão Tezza é escritor.
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