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Terça-feira, 09/02/2010

Nostalgia

Um desejo chamado bonde

Publicado em 12/07/2009 | CID DESTEFANI

Há pouco mais de uma semana, a Gazeta do Po­­vo deu a notícia de que a prefeitura de Curitiba está com interesse de instalar uma linha com o trânsito de dois bon­­des por um espaço no centro da cidade. Outras ocasiões, em pas­­sado recente, esse mesmo de­­se­­jo já tinha aflorado lá nos lados da Sorbonne do Juvevê, o Ippuc.

Volta, agora, o bonde a bailar pelas cabeças dos planejadores da cidade. Em Curitiba não passa de um ícone da história, algo que existiu e desapareceu sem deixar sinais de que um dia retornaria. Quando os últimos bondes foram retirados de circulação, em meados de 1952, contava este escriba com 16 anos, dos quais mais da metade usando o bonde como meio de locomoção. Conheci a minha cidade praticamente viajando de bonde, de um lado para outro.

 / Acidente na Rua Monsenhor Celso, em 1948. O bonde não causava acidentes, pois não saía dos trilhos; entretanto, complicava o trânsito trancando a passagem de outros veículos Ampliar imagem

Acidente na Rua Monsenhor Celso, em 1948. O bonde não causava acidentes, pois não saía dos trilhos; entretanto, complicava o trânsito trancando a passagem de outros veículos

Quando tais veículos foram desativados, a última viagem que fizeram foi para o depósito de ferro-velho do Francisco Barranco, com quem privei de boa convivência. Lembro, bem, que o Barranco sempre comentava estar arrependido por não ter guardado pelo menos um de cada exemplar dos bondes que circularam por estas bandas, que eram de três tipos diferentes: Ni­­­velle, os primeiros, fabricados na Bélgica e chegados em 1912. Bir­­ney, feitos nos Estados Unidos e chegados no início da década de 1930, e, finalmente, um terceiro cuja carroceria foi produzida em Curitiba e que usava tanto o motor belga como o americano.

O desejo por ter um bonde, nem que fosse só para olhar, foi tão grande que no início da prefeitura de Jaime Lerner foram comprados dois exemplares desativados em Santos, São Paulo. Sendo um deles colocado na Rua XV e o outro terminou de deteriorar-se no Parque São Lourenço. Aliás, desse último foram retirados alguns pertences e enxertados na “recuperação” do casco do único Birney que sobrou, como diria o Lulo, meu saudoso pai: Fizeram um verdadeiro xaxixo! Esse Birney é aquele mesmo que ficou estacionado por uns tempos na Praça Tiraden­tes, na frente da Catedral.

Hoje em dia, quando alguém quer saber alguma informação sobre qualquer coisa, consulta a internet. Foi o que eu fiz. Comen­tários e mais comentários sobre a instalação dessa linha de bondes turísticos. Maravilha! Entra por tal rua, sai por aquela outra, sempre na contramão e também na dita mão-inglesa. Tais planos feitos no papel me fazem lembrar o tempo de criança, quando a imaginação fazia a gente viajar, com lápis e papel na mão, indo para todos os cantos, sempre tendo bem traçado o local do tesouro em nossa imaginária ilha.

Agora, o que deixa aborrecida qualquer pessoa que tenha realmente algum conhecimento sobre a história local é a montoeira de palermices encontradas nos textos contidos na dita internet. Cada internauta escreve o que lhe vem na cachola. Os primeiros bondinhos que circularam por aqui eram de tração animal, mais precisamente por mulas. A companhia que explorava tal transporte possuía um plantel de 150 mulas. Para tais estoriadores, quem puxava os primitivos bondes eram cavalos, ou burros. Nas próprias anotações da prefeitura existem tais referências. Ainda como diria o velho Lulo: Esse pessoal sabe que o galo cantou, mas não sabe dizer em que terreiro!

Outra confusão se faz quanto à inauguração dos bondes elétricos e às primeiras experiências efetuadas com tais coletivos. Em agosto de 1912, reuniram-se na Praça Ouvidor Pardinho, onde estavam sendo montados os bondes, autoridades e pessoas gradas, a fim de participarem de uma viagem experimental até o arrabalde do Portão. Usufruíram do passeio o presidente do estado, Carlos Cavalcanti, e o prefeito Cândido de Abreu, entre outros convidados. Os bondes principiaram a circular por Curitiba no dia 7 de janeiro de 1913, quando já no primeiro dia aconteceu o primeiro acidente. Tal fato sucedeu-se na esquina da atual Monsenhor Celso com a Praça Tiradentes, quando um cabo aéreo, condutor de força, rompeu-se vindo ao chão obstruindo o trânsito no local.

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