Domingo, 05/09/2010
Mas o melhor é que, nessa área, finalmente, ninguém mais trabalha de graça. Se antes o padrão era contar com a generosidade automática do sempre esquecido escritor, sempre ávido por uma migalha de espaço, hoje não se convida mais ninguém sem a informação do pagamento, para dizer às claras o que o pudor do beletrismo, tradicionalmente encastelado no suave sacerdócio da vaidade, preferia ocultar. Nos tempos de antanho, fazia-se um favor a quem escreve; hoje, ao contrário, o livro se transformou (também) num grande negócio – de retorno tanto comercial quanto institucional (aqui pela via da renúncia fiscal que em última instância viabiliza os eventos), e o autor é parte fundamental da equação. São boas notícias para escritores que, como os da minha geração, comeram o pão que o diabo amassou nas décadas de 80 e 90, no mundo pré-internet, quando não havia alternativa nenhuma para a circulação da literatura além do pouco espaço nos jornais.
Entretanto – e agora vai o paradoxo – a literatura brasileira, como um conjunto articulado de obras, de fato não existe no exterior (é simples assim, se queremos ver as coisas com realismo) e tende a sofrer uma dura e crescente irrelevância no cenário brasileiro. A sua proteção nesta rede de eventos que procura valorizá-la, fazendo dos escribas “notícia”, acaba esmagada pelo universo avassalador da cultura de massa que enche as listas de mais vendidos. O que é outra discussão, envolvendo muitos fatores cruzados e complexos. Por exemplo: o aumento do consumo de livros no país vem ocorrendo por uma via não literária, de leitores interessados em manuais de sobrevivência e não em ficção ou arte; o advento da internet (que revalorizou a palavra escrita depois da era ágrafa da televisão) descentralizou as tradicionais fontes de informação; o aparente divórcio entre a produção corrente no país e o seu leitor, e, enfim, a queda do peso relativo da literatura no cenário mundial dos livros. Enfim – é muito assunto para uma crônica só.
Feriadão com “Aquecimento VMB 2010”
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