Assinaturas Classificados
Assinaturas

Publicidade

Rodrigo Wolff Apolloni

Cão, leão, Rei dos Pássaros

Publicado em 14/08/2012 |
  • Comentários

Na adolescência, li um livro que me marcou profundamente. É possível, aliás, que tivesse marcado muito mais, se eu reunisse sabedoria suficiente para decifrar todas as suas lições. A obra é A Linguagem dos Pássaros, de Farid ud-Din Attar, poeta sufi nascido na Pérsia em 1145. Em termos muito simples, o livro conta a jornada de um grupo de 30 pássaros que, a partir de uma maravilhosa pena deixada no mundo, decide buscar seu dono, Simorgh, o Rei dos Pássaros. Ao final, aqueles que se mantêm fiéis à busca alcançam seu intento, descobrindo, em êxtase alquímico, que eles próprios constituem o soberano dos céus.

Em meio à teia maravilhosa de A Linguagem dos Pássaros, Attar incluiu uma segunda linha de leitura. Formada por pequenas histórias, aforismos e poemas que revelam a beleza do Sufismo e do Islã. Dentre todas essas joias, uma, minúscula, ficou guardada em meu espírito. Dizia o poeta: “Se você quer despertar o leão, bata no cão”.

Que história é essa? Seria possível ver no cão, como concebiam muitas das antigas civilizações, uma representação das paixões impuras que fazem com que os seres humanos se rendam à fraqueza. O leão, é claro, encarna a beleza, a força e a coragem do homem transformado, do Simorgh. Ao admoestar o cão que está guardado no próprio coração, portanto, não se está apenas negando ou destruindo um sentimento vil, mas resgatando o próprio espírito e convertendo toda a acomodação em força transformadora.

O sentido mais amplo do ditado, evidentemente, pode ser acessado apenas pelos realmente sábios. Meu caso é apenas o de alguém que foi tocado por uma frase dita há 800 anos por um homem notável. Por um cão que, por um instante, contemplou o leão.

Em tempo: as eventuais críticas à imagem do cachorro surrado são justas porque refletem uma preocupação do nosso tempo. Materialmente, é lógico, ninguém fica mais sábio ao bater em um cão. Ainda assim, vale reforçar o aspecto simbólico da figura, que espelha uma antiga visão de mundo compartilhada por vários povos, dos hindus aos judeus e aos primeiros cristãos. Vivesse Attar nos dias de hoje, provavelmente usaria outro exemplo. Aos que não concordarem com esses argumentos, não tenho outras palavras. Aceitem minhas sinceras desculpas e meu total apoio. O leão, afinal, também ruge na alteridade.

      • NOTÍCIAS MAIS COMENTADAS
      • QUEM MAIS COMENTOU
      Publicidade
      Publicidade
      Publicidade
      «

      Onde e quando quiser

      Tenha a Gazeta do Povo a sua disposição com o Plano Completo de assinatura.

      Nele, você recebe o jornal em casa, tem acesso a todo conteúdo do site no computador, no smartphone e faz o download das edições da Gazeta no tablet. Tudo por apenas R$ 49,90 por mês no plano anual.

      SAIBA MAIS

      Passaporte para o digital

      Só o assinante Gazeta do Povo Digital tem acesso exclusivo ao conteúdo do site, sem nenhum custo adicional ou limite.

      Navegue com seu celular ou baixe todas as edições no tablet - um novo jeito de ler jornal onde você estiver.

      CLIQUE E FAÇA PARTE DESSE NOVO MUNDO

      »
      publicidade