Sábado, 31/07/2010
Romance é uma narrativa em prosa com começo, meio e fim, mas a arte romanesca consiste na estruturação desses elementos não na ordem lógica mas em perspectivas psicológicas, tudo, bem entendido, tratado em estilo de alta qualidade literária. E, justamente, o que antes de mais nada caracteriza o bom romance é que o começo, o meio e o fim raramente se encontram nos lugares convencionais porque o desenvolvimento arquitetônico de cada narrativa tem suas regras próprias, instintivas em romancistas como Edgard Telles Ribeiro (Um Livro em Fuga, Rio: Record, 2008), escritor que se define por um estilo ao mesmo tempo refinado e de impecável espontaneidade, tanto mais sensível quanto o protagonista é romancista: “À noite, no quarto vizinho ao dela, continuo trabalhando meus personagens pela madrugada afora, no ensaio permanente que sempre fazemos antes de sua entrada definitiva em cena. Corto, aparo, recomeço, redefino um momento aqui, outro acolá, rasgo inúmeras folhas de papel, acrescento diálogos onde predominam insinuações, ou silencio quem fala demais. As personagens femininas reclamam se enveredo por um caminho que ameaça descaracterizá-las, pois isso representa uma traição. (Os masculinos se importam menos com esses deslizes, pois parece ser de sua natureza não reparar)”.
Aí está, numa casca de noz como se dizia em latim antigamente, o esquema da estruturação romanesca. A cena se passa no Rio de Janeiro, onde o narrador se encontra em visita à mãe, gravemente enferma (é ela que está no quarto vizinho). Tomo essa passagem porque um escritor inexperiente ou pouco talentoso teria obedecido ao impulso instintivo de situá-la no começo da narrativa, enquanto Edgard Telles Ribeiro muito sabiamente (ou respondendo ao instinto profundo de romancista) incluiu-a como parte integrante da história em desenvolvimento, pois os episódios do Rio (como o reencontro amistoso com a primeira mulher, a participação numa banca de concurso na Universidade de Brasília, etc.) intercalam-se com os de Samarkan, onde o narrador está residindo em missão diplomática.
E, sendo transitória ou efêmera essa residência, trata-se de momentos essenciais de sua própria história, vividos por “deformação profissional” como se a realidade exterior fosse também um romance: “Para comemorar meu aniversário, ofereci ontem um jantar em casa. E convidei meus personagens. Um perigo, misturar ficção e realidade. [...] Já me aconteceu de quase ser esbofeteado por uma mulher com quem vivera uma intensa paixão no emaranhado de linhas e entrelinhas (e que, na vida real, mal conhecia)”. Há, também, em projeção inversa, a página da vida real de Nguon, que, aos 8 anos de idade, denunciou o pai à polícia política, com remorsos que o perseguiram para sempre, resolvendo superá-los pelo método psicanalítico de confissão, escrevendo um romance (cujos originais submete à leitura do narrador).
Narrador que, por sua vez, acaba por encontrar a misteriosa Clea das últimas páginas, escritas, como as demais, no estilo refinado que é a sua marca natural, diferente de outro estilo e de outro realismo, os de Fernando Molica (O Ponto de Partida. Rio: Record, 2008), num romance em que a vida do diplomata é substituída pela do jornalista, agitada em mais de um sentido, a começar pelo conjugal. O estilo de Fernando Molica é nervoso e rápido, condimentado pelo espírito de humor, mesmo em episódios conflituais como as discussões com a mulher ou os desagradáveis encontros com os filhos, com os quais o protagonista tem o dever de almoçar uma vez por mês, penitência e castigo que o aterrorizam: “Sabe-se lá como terminaria aquele almoço. Precisaria talvez de um período de recuperação pós-encontro com Carlos e Caroline. O rito fôra semanal, passara a quinzenal e, agora tivera o intervalo esticado para trinta dias. [...] Mais uma vez se prepararia, repetiria o compromisso de não iniciar os ataques, de exercitar a tolerância, de não revidar cobranças”. Espiritualmente avançadíssima, a filha está planejando uma viagem profunda à Índia, cedendo à influência do namorado, que acaba por engravidá-la. Ao que o pai reage como seria de esperar: “Bem, filha, você sabe como eu resisto a esses lugares. Eu, que sempre me considerei de esquerda, tenho uma profunda dificuldade em me imaginar em países de miséria crônica [...]”.
Na cena dramática com que o livro se encerra, o narrador abandona o corpo do pai, morto da redação com fulminante ataque cardíaco: “agora, pai, agora tenho que ir visitar minha filha, tenho que cuidar das minhas crianças. Crianças... Há quanto tempo não usava essa palavra para pensar nos filhos, eles, que havia muito deixaram de ser crianças”. Enquanto caminhava na direção da Lagoa, Ricardo se fixava nos filhos, no neto, na sua vida [...]”. Tudo se resolvia numa tragédia carioca: “O fim chegara e ele perdera”. Enquanto isso, o cadáver mutilado do Arpoador continua à espera da ambulância.
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