Terça-feira, 09/02/2010
Dormir é uma das atividades mais bizarras da espécie humana. É mesmo estranho se a gente olha para a coisa friamente: todas as noites, levados por uma compulsão irresistível chamada “sono”, e que vai nos atravancando até que os olhos se fechem por conta própria, somos obrigados a nos desligar momentaneamente desse mundo cruel. Apagamos as luzes e deixamos a máquina em stand by. Não em pé, como os cavalos; deitados mesmo, largados. E não por cinco minutos – o impressionante é que são horas a fio: cinco, seis, sete horas. E há quem goste tanto da idéia que até toma drogas que apressam a compulsão natural só pelo prazer de sumir.
Bem, eu sou do outro time. Acho que dormir é uma perda de tempo, um desperdício a que só me entrego, todas as noites, em último caso. Depois que me contaram que a gente passa cerca de 25 anos dormindo durante a vida, senti mais aflição ainda. Sempre tenho uma última desculpa para não me render àquelas horas inúteis; fico rastejando pela casa noite adentro como um mendigo atrás de uma migalha do que fazer. Talvez trauma de infância: nos meus cinco anos, uma avó bem-intencionada me obrigava a tirar uma soneca depois do almoço – na teoria dela, algo muito saudável. Para mim era uma tortura ver o tempo escorrendo inapelável, e eu ali, preso, olhando o teto.
Claro que, pensando na espécie, a situação melhorou muito. Já conseguimos dormir seguros – não é mais aquela caverna escura com hienas rosnando e babando lá fora. Hoje basta uma tetrachave na porta e a gente já consegue dormir. E o hábitat também se sofisticou. Há séculos existem as “camas”, objetos retangulares providos de uma peça encaixada de substância macia, chamada “colchão”, especialmente projetados para o sono. Há vários tipos de peças coloridas para cobrir o ser humano que dorme. E não é só; desenvolveram-se também invólucros destinados exclusivamente para o período de sono, na verdade meio ridículos, chamados de “pijamas” e “camisolas”, que devem ser vestidos durante o tempo de viagem. E inventaram também “travesseiros”, balões de espuma onde depositamos a cabeça para maior comodidade.
Mesmo assim, seguríssimos e confortáveis, em pleno século 21, não temos ainda nenhuma defesa contra o ataque terrível dos sonhos. É uma absurda invasão de privacidade, um assalto fantasmagórico e irracional que sabe-se lá de onde desembarca na alma. Em geral são retalhos de filmes mal dirigidos, com roteiros ineptos, sem pé nem cabeça, longas de baixo orçamento, de todos os gêneros, que somos obrigados a assistir por força de alguma lei de reserva do mercado mental – ou crimes pavorosos que cometemos sem cometer, contratados por um produtor sádico, ou desejos fantásticos e inebriantes, mas que inapelavelmente se transformam em quedas de um precipício ou em meros trailers de espetáculos que jamais entrarão em cartaz.
Melhor ficar acordado.
Cristovão Tezza é escritor.
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