Sábado, 31/07/2010
Às 9h10, ocupei sorrateiro uma cadeira com rodinhas dando sopa em frente ao balcão das multas, e fui deslizando discreto para longe, a pequenos empurrões. A leitura avançou bem, até a senha 81, mas um guarda me descobriu e gentilmente tomou a cadeira de volta para atender o pessoal das multas. Prossegui em pé até às 10h20, quando um ex-aluno me viu e ofereceu seu lugar – são as vantagens de professor antigo. Fiz os protestos de praxe (“Não, que é isso!”), mas aceitei agradecido, o que me garantiu mais umas 40 páginas de leitura tranquila. Às vezes erguia os olhos (112, 137...) e imaginava que, se os seis guichês vazios daquele filme cubista que todos assistiam quietos na platéia fossem preenchidos por outros seis funcionários, a coisa andaria mais rápido, mas era ilusão. Apenas entupiria de desocupados o segundo andar, à espera da fotografia, que só tem três cabines. Lá pelas onze e quinze, enfim brilhou o 170! A alegria durou pouco – fui mandado quase que imediatamente com uma nova senha (134) para cima, onde li mais um bom trecho do livro, de novo sentado, em outra sala de espera, menor e mais acolhedora. Sente-se no ar um clima otimista, as pessoas sorriem, agora a coisa vai!
E foi – 45 minutos depois me chamaram para a cabine, onde ofereci os dedos, como réu na delegacia. Em seguida, me fotografaram. Tentei sorrir, mas acho que não saí bem. Acabou? Não; é preciso agendar o exame de conhecimentos! Desta vez sem senha – apenas uma nova fila, que não se mexia e foi aumentando. Por algum problema técnico, o meu nome, os dedos e a fotografia custavam a entrar no computador do agendamento, cinco metros adiante. Mas chegou minha vez. Marquei a data do exame – assunto da próxima crônica – e saí à rua às 12h40, o sol queimando os olhos.
Cristovão Tezza é escritor.
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