Terça-feira, 09/02/2010
Tentamos ordenar as experiências emocionais e intelectuais que vamos vivendo de modo a encontrar um sentido nelas, em nós, na vida. Elas se encaixam como peças em um quebra-cabeças. Acho que nenhuma fica de fora. Cada uma abre seu espaço no nosso universo mental, nem que para isso tenha que nos ferir. Mas as figuras que aparecem no quebra-cabeças nem sempre são bonitas. Às vezes são medonhas, assustadoras, perturbadoras. A confusão mental e a dor emocional são dessas figuras medonhas. Em casos extremos, levam ao suicídio.
Uma regra bem difundida da imprensa diz que não se noticia casos de suicídio porque eles “inspiram” outras pessoas confusas ou doentes a tentar tirar a própria vida. Parece que essa influência maléfica é um fenômeno registrado e comprovado mundo afora. Portanto, o silêncio da imprensa é justificável.
Aliás, o assunto é desagradável e só falamos dele quando somos obrigados porque ele se aproximou demais de nossas vidas. Se escolho um assunto tão espinhoso é porque constato uma equação perversa por trás do silêncio da sociedade em torno do tema: para cada caso de suicídio que se concretiza e que, portanto, não deve ser noticiado, ocorrem dezenas de tentativas que felizmente não se realizam, mas que deixam sequelas emocionais na família e no doente. Ser capaz de tamanha violência – ou, posto de outra forma, ser vítima dessa gigantesca fragilidade – não contribui para a imagem de ninguém. Portanto, esconde-se o episódio. Muito bem, novamente o silêncio é justificável. Não exageremos, entretanto.
A natureza humana compreende força e fragilidade em iguais proporções. Equilíbrio e desequilíbrio estão separados por uma linha fina. O mal nos persegue na forma de estímulos excessivos, de valores subtraídos, de afetos mal encaminhados e de fés não renovadas. O mal nos ronda, mas felizmente não atingirá a maioria de nós. Aos atingidos, nossa compaixão e amizade. A linha é fina para eles e para nós.
Marleth Silva é jornalista.
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