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 | Arquivo da família/
| Foto: Arquivo da família/

Ao caminhar por Curitiba com pessoas idosas, em meio ao desenvolvimento e urbanização, é comum ouvir comentários como “Quando eu cheguei aqui, isso tudo era mato”. A diferença de Orlando Baggio é que ele nunca chegou à cidade vindo de outro lugar, pois nasceu na mesma rua no bairro Água Verde em que morreria, em fevereiro deste ano, aos 86 anos. O crescimento do ambiente onde sempre viveu se mistura com sua história.

A família de descendência italiana instalou-se em um Água Verde permeado por pastagens, onde o pai de Orlando, a mãe e os oito irmãos se dedicavam à criação de vacas para produção e venda de leite para o bairro. A função dos mais novos, além de ajudar na entrega para os moradores, que acontecia de carroça, era cuidar dos animais para que não saíssem da chácara. Porém, às vezes o jogo de bola de meia parecia tão mais interessante que observar as vacas que os meninos acabavam tendo que resgatá-las no meio da Avenida Presidente Getúlio Vargas.

Com o passar do tempo e as mudanças fugazes ao redor, o menino que andava descalço e brincava no Rio Água Verde, hoje canalizado, mudou de profissões, mas sempre manteve as raízes locais. Trabalhou por mais de 30 anos como alfaiate, com a ajuda da esposa Maria, até ver os produtos das lojas de departamento tomarem cada vez mais lugar no guarda-roupa da população. Também trabalhou com malharia, estofamento de caminhões e por fim abriu uma mercearia na frente de casa, que funcionou até o início dos anos 90.

Aposentado, passou a dedicar ainda mais tempo às atividades que desde muito cedo assumiu na igreja católica da comunidade, o Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Participava principalmente das exéquias, que são as cerimônias fúnebres prestadas para os falecidos. Ele mesmo escrevia orações e mensagens que trouxessem conforto aos entes queridos dos mortos.

Sua lista de compromissos com a igreja era tão cheia que ele contava com uma agenda para não se perder nas datas e também com a amizade de quem trabalha na paróquia. Uma das ações era distribuir mensagens para as pessoas do bairro em pequenos folhetos, em especial sobre o milagre de Lanciano, reconhecido pela Igreja Católica como a transformação, na Itália do século VIII, da hóstia e do vinho utilizados durante uma celebração eucarística em carne e sangue humanos.

Entre os principais pontos do trajeto de distribuição das mensagens estavam os supermercados. Orlando até já sabia quais das atendentes já haviam recebido os folhetos. Muitas delas aguardavam pela chegada dele e, quando isso acontecia, abriam o coração para falar de aflições internas e receber ternos conselhos. Ele costumava dizer que, independente da religião, era importante procurar algum tipo de espiritualidade em momentos de angústia.

Com lições de honestidade, Orlando criou os cinco filhos com base em origens bem enraizadas. Como retribuição ao seu trabalho de anos em confortar famílias que acabaram de entrar em luto, ao falecer, recebeu inúmeras homenagens da comunidade que ajudou a construir. Deixa esposa, sete netos e uma bisneta.

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