Jonathan Alcorn e Norbert von der Groeben/Reuters
Lloyd Shapley desenvolveu pesquisas que levaram ao algoritmo que Alvin Roth testou na prática: pesquisas levaram ao Nobel
Prêmio deste ano vai para dois norte-americanos que estudaram como unir agentes econômicos. Suas pesquisas servem para aproximar solteiros, mas também pacientes e doadores de órgãos
Publicado em 16/10/2012 | Fernando Jasper, com agênciasAs chamadas “combinações estáveis” são objeto de toda uma área de pesquisas. E ela acaba de ser homenageada com o Nobel de Economia, anunciado ontem em Estocolmo. Os norte-americanos Alvin Roth, 60 anos, e Lloyd Shapley, 89, vão dividir o prêmio de 8 milhões de coroas suecas (R$ 2,4 milhões) oferecido pela Real Academia Sueca de Ciências.
Entrevistas e formulários escritos à mão tornam seleção mais eficiente
A agência de casamentos Par Ideal, de Curitiba, adotou alguns mecanismos para tornar mais eficiente a aproximação dos solteiros em busca de casamento. O principal é não se fiar em formulários preenchidos na internet. É o oposto do que faz boa parte das empresas do ramo – muitas usam apenas informações cedidas anonimamente via web na seleção e cruzamento de dados de candidatos.
A Par Ideal exige que o interessado compareça às entrevistas com seus funcionários. O motivo é simples. “Na internet, as pessoas mentem. Mentem o nome, a idade, a altura, o peso, o sexo, o lugar onde moram. Não há como a seleção funcionar”, diz Sheila Chamecki Rigler, fundadora e proprietária da agência, a mais antiga da capital. Os formulários, conta ela, são preenchidos à mão. “Tem candidatos que querem ver como é a letra do outro, conferir se o texto tem erros de português...”.
40 dos 71 economistas laureados com o Nobel de Economia desde 1969 são norte-americanos. Em 2011, os Estados Unidos completaram treze anos consecutivos tendo ao menos um homenageado. Por outro lado, a escolha de 2012 interrompeu uma sequência de prêmios a trabalhos intimamente ligados à crise econômica internacional.
Letícia Akemi/Arquivo Gazeta do Povo
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Sheila Rigler, da Par Ideal: busca por mecanismos que reduzam a influência das mentiras contadas nos formulários
Em seu anúncio, a academia afirmou que o prêmio reconhece os esforços de Roth, professor da Universidade de Stanford, e Shapley, da Universidade da Califórnia, em “encontrar soluções práticas para o mundo real”. Soluções que, claro, vão além de unir caras-metades. Como mostraram Roth e Shapley, a “modelagem” de mercados pode ser útil, por exemplo, para aproximar pacientes à espera de transplante e doadores de órgãos, médicos recém-formados e hospitais em busca de residentes, estudantes em busca de vagas e escolas públicas.
Mercados sem preços
Segundo a Academia Sueca, “a combinação da teoria básica de Shapley e as investigações empíricas, os experimentos e o formato prático do trabalho de Roth deram origem a um campo de pesquisa fértil que melhorou o desempenho de muitos mercados”. “O prêmio nos lembra que um dos mais interessantes problemas da Economia está descrito em sua própria definição: é a ciência que estuda a alocação de recursos escassos”, diz Cláudio Shikida, professor e pesquisador do Ibmec-MG.
O mais interessante é que as contribuições de Roth e Shapley se aplicam a mercados em que os preços – quase sempre o instrumento mais eficiente para regular um mercado – não são capazes de refletir nem orientar a oferta e a demanda. “Quase sempre a alocação de recursos é dada pelo sistema de preços. Mas há mercados em que isso é difícil ou impossível, por questões institucionais ou éticas, por exemplo”, diz Lucas Dezordi, coordenador do curso de Economia da Universidade Positivo.
Matrimônio e transplante
Os estudos de Shapley, nos anos 1960, partiram justamente dos casamentos. Ele propôs um algoritmo que, em tese, permitiria aproximar cada solteiro de um grupo do melhor cônjuge possível, dentro das expectativas de cada um. A partir dos anos 1980, Roth testou na prática – não em casamentos, diga-se – o algoritmo proposto pelo colega. Um projeto recente baseado no trabalho de Roth combina doadores de rim e pacientes que precisam do órgão. E os sistemas públicos de ensino de cidades como Nova York, Boston, Chicago e Denver usam um algoritmo baseado em seu trabalho que ajuda a distribuir alunos pela rede escolar.
São iniciativas que, para Shikida, do Ibmec-MG, podem inspirar projetos no Brasil. “Governos do mundo inteiro enfrentam problemas similares aos do Brasil na alocação de órgãos para transplantes, mas alguns usam incentivos que chegam a zerar o descompasso entre a oferta de órgãos e sua demanda”, diz.
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