Terça-feira, 09/02/2010
Elza Fiuza/ABr
Ex-ministro Juarez Nascimento: possibilidade de fusão desgasta o processo
Novo Plano Geral de Outorgas será votado nos próximos 30 dias e, entre outras alterações, deve permitir a fusão entre Oi e Brasil Telecom
Publicado em 21/09/2008 | Alexandre Costa NascimentoPelas atuais regras do PGO, uma empresa de telefonia não pode atuar em mais de uma região do país. Mais do que o mérito da fusão entre as duas empresas, é a mudança das regras sob a pressão do fato consumado que preocupa os especialistas e torna o novo PGO alvo de críticas. Setores do governo federal vêem com interesse a fusão, que criaria uma “supertele” de capital nacional.
Juntamente com as mudanças no Plano Geral de Outorgas a Anatel estuda desmembrar a prestação de serviços de internet banda larga das empresas de telefonia fixa, transformando-a em um serviço de utilidade pública, como o fornecimento de água, luz e gás. Para subsidiar a decisão da Anatel, o Ministério das Comunicações contratou, por R$ 415 mil, com dispensa de licitação, a consultoria do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), autarquia vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). O CGEE fará um estudo detalhado sobre os impactos regulatórios, econômicos e sociais da separação. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, já se manifestou contrário a medida, conside- rada por ele “retrógrada à luz da convergência e da modernidade”. A opinião do ministro vai em favor da posição das companhias telefônicas, contrárias a separação. Para o presidente da consultoria Teleco, Eduardo Tude, existe uma discussão mundial sobre o tema. “Mas a tendência é a separação do provedor de infra-estrutura dos provedores de varejo, que continuam a oferecer um pacote conjunto. Me parece que essa separação não está sendo feita no momento errado, mas é natural que exista o impasse.” (ACN)
Para o ex-ministro Juarez Quadros do Nascimento, não há como dissociar a mudança das regras do interesse na fusão das duas empresas. “Se a Anatel tivesse se antecipado, certamente a análise seria mais positiva e produtiva, atendendo às reais necessidades de mudança no setor. A variável da fusão presente desgasta o processo e deixa a questão exposta a influências que prejudicam o ambiente regulatório”, avalia Nascimento, que comandou a pasta das Comunicações no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
O ex-ministro acredita que a mudança do atual modelo – e a conseqüente criação da BrT/Oi – prejudica a competitividade do setor no país e pode afastar novos investimentos. “À época em que foi feita a divisão das concessões, as entidades privadas tinham um ambiente de competição que agora será alterado, prejudicando o planejamento estratégico das empresas. A mudança por conveniência afeta a confiabilidade e torna mais difícil a atração de investidores externos”, diz.
O presidente da consultoria de telecomunicações Teleco, Eduardo Tude, faz uma análise diferente. Para ele, a criação de um novo “player” com condições de atuar nacionalmente pode se traduzir no aumento da competição, desde que sejam criados os devidos instrumentos reguladores.
“Vale lembrar o fato de que não é o PGO que autoriza a fusão. Isso cabe à Anatel e ao Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica, órgão público responsável por defender a livre concorrência], que devem criar mecanismos que preservem e estimulem a competição”, ressalta.
“Para as grandes cidades e para o mercado corporativo, é vantajoso ter grandes grupos competindo. É possível fazer a leitura de que [no caso da fusão], quanto maior a competição, melhor [será] para o cliente”, completa Tude.
Na avaliação do consultor, o mercado de telefonia do Sul do país não deve sofrer grandes mudanças – ao contrário do Sudeste, em especial no setor de telefonia celular.
Trâmite
Após passar por um sistema de consulta pública que recebeu 433 sugestões de usuários, técnicos, associações e empresas do setor, o Plano Geral de Outorgas está sendo avaliado sob o ponto de vista técnico e jurídico pelo conselho consultivo da Anatel antes de ser enviado ao conselho diretivo da agência.
A conselheira da Anatel, Emília Ribeiro, espera que o processo chegue ao conselho ainda nesta semana. O projeto depende da aprovação deste conselho – composto por cinco integrantes – antes de ser encaminhado ao Ministério das Comunicações. O novo PGO entra em vigor após a edição de um decreto presidencial instituindo as novas regras.
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