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Adoramos revoluções tecnológicas, mas podemos odiar as suas consequências

  • Christine Emba
  • Washington Post
 | JOSEP LAGO/AFP
JOSEP LAGO/AFP
 
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Este ano marca o 10º aniversário do iPhone, o início de uma revolução social que ninguém esperava e uma chance, talvez, de refletir sobre o impacto das tecnologias revolucionárias que virão.

O dispositivo foi apresentado pela primeira vez na conferência Macworld, em janeiro de 2007, por Steve Jobs, que o descreveu como um “telefone celular revolucionário e um dispositivo inovador de comunicação via internet”.

Ele não estava exagerando. Os smartphones já estavam em cena -- os BlackBerrys capazes de enviar e-mails surgiram por volta de 2003 --, mas o foco do iPhone no consumidor trouxe para a vida cotidiana do norte-americano um nível de conectividade previamente esperado apenas para executivos corporativos de alto nível.

Desde o anúncio de Jobs e o lançamento subsequente do iPhone, alguns meses depois, seu controle sobre nosso dia a dia tem sido nada menos que surpreendente. Aproximadamente três quartos dos estadunidenses possuem um smartphone. Contamos com esses dispositivos para navegar por quase todos os aspectos de nossas vidas.

Embora pudéssemos antecipar que o iPhone transformaria nossa capacidade de comunicação, não consideramos suas implicações para a nossa força de trabalho e para a sociedade em geral

Provavelmente é tarde demais para nos afastarmos das telas: quem, afinal de contas, quer desistir do contato instantâneo; da internet na ponta dos dedos, de um GPS em cada bolso e de fotos assim que quiser? Mas, talvez, seja o momento certo para fazer uma pausa, reconhecer o quão rapidamente e de forma completa os smartphones reviraram nossas maneiras de viver e considerar se devemos ter mais noções de intenção quando a próxima ferramenta “revolucionária” chegar.

Afinal, embora pudéssemos antecipar que o iPhone transformaria nossa capacidade de comunicação, não consideramos suas implicações para a nossa força de trabalho e para a sociedade em geral. Tecnologias surgidas graças aos smartphones, como o Uber, reduziram as indústrias e ajudaram a criar uma nova e precária “gig economy”, na qual taxas,horas e emprego são contingentes aos caprichos dos outros.

Estar conectado constantemente fez o ato de sair do escritório coisa do passado, a ponto de tornar normal uma semana de trabalho com 72 horas ou mais. O fácil acesso às mídias sociais significa que o presidente dos Estados Unidos pode desencadear uma crise internacional a qualquer hora do dia ou da noite.

Não, não poderíamos ter nos preparado para todas as eventualidades, mas também parece que nunca tentamos. E hoje estamos à beira de cometer o mesmo erro com a próxima onda de mudanças tecnológicas.

A inteligência artificial e a aprendizagem das máquinas estão prontas para assumir não apenas as funções de computação mais profundas, mas também para tomar muitos dos empregos que sustentam a nossa economia. A iminente era de carros autônomos poderia tornar as locomoções mais baratas e seguras, mas também poderia afetar milhões de postos de trabalho.

A realidade virtual é classificada como a próxima fronteira -- embora ninguém possa adivinhar o que vamos fazer lá. Estas são tecnologias cujo uso pode ser mais imprevisível e revolucionário do que o de um simples dispositivo de telecomunicações.

Há um ano ou dois, depois de ter percebido o estrago que meu iPhone causou em meus próprios hábitos, tentei restringir o uso de várias formas. Não uso telefones quando faço refeições com as pessoas, por exemplo, ou quando estou me deslocando acompanhada.

Em uma economia obcecada pelo crescimento, que dá valor à economia nos custos e eficiência como os bens mais importantes e que celebra a inovação só pela inovação, é improvável que haja apoio para uma regra de “sem robôs nos finais de semana

Mas será mais difícil retroceder com essas inovações iminentes. Um certo sentimento anti-smartphone ainda se alinha com nossas normas sociais de educação e de valorização do foco mental e do tempo dos outros. Mas em uma economia obcecada pelo crescimento, que dá valor à economia nos custos e eficiência como os bens mais importantes e que celebra a inovação só pela inovação, é improvável que haja apoio para uma regra de “sem robôs nos finais de semana” ou para uma regulamentação que considere que as novas formas de inteligência artificial deixem espaço para o trabalho humano.

Eu não sou ludista: não sugiro que voltemos no tempo, paremos a mudança ou tentemos preservar no âmbar uma estrutura econômica que já sofria de falhas. Mas poderíamos pensar em fazer uma pausa antes de entrar de cabeça nas próximas inovações excitantes que já nos atingem.

Já pensamos no que estas mudanças podem nos trazer? Há maneiras de mitigar os efeitos negativos que podem vir com a próxima revolução tecnológica?

Enquanto vários analistas começaram a tocar o sino de como a perda de empregos gerada pela automação poderia criar uma massiva subclasse, nem o governo nem a sociedade parecem dispostos a oferecer mais do que soluções simbólicas: “se readaptar” ou, talvez, de conselheiros mais frágeis, criar um salário básico universal para amortecer o golpe da renda perdida.

Há ainda menos sobre uma discussão maior, a que define o que mais valorizamos como sociedade e como preservar isso.

Talvez tenhamos tempo para nos prepararmos para o futuro, mas até agora parece que preferimos esperar e ver. Se o iPhone nos ensinou alguma coisa, foi que a mudança vem rapidamente. A Revolução Industrial durou séculos e ainda deixou a sociedade cambaleando. A revolução do smartphone levou menos de uma década. E a próxima grande mudança? Devemos tentar chegar na frente na curva.

*Christine Emba é editora do “In Theory” e escreve sobre ideias para o “Washington Post”.

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