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Negócios de alto impacto ainda são raros

Paraná tem baixa proporção de empresas maduras com grande potencial de desenvolvimento, chamadas de scale-ups

Alexandre Stival, da Stival Alimentos: “ a gôndola do varejo exige novidade sempre. Para ser competitivo, tenho que criar novos produtos.” | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Alexandre Stival, da Stival Alimentos: “ a gôndola do varejo exige novidade sempre. Para ser competitivo, tenho que criar novos produtos.” Jonathan Campos/Gazeta do Povo
 
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Entre as empresas com empregados contratados do Paraná, apenas 1,67% são enquadradas na categoria scale-ups, que registram crescimento acima de 20% nos últimos três anos. O índice paranaense é ruim, mas ainda está acima da média nacional, em que menos de 1% das empresas brasileiras – 35 mil – se encaixam no perfil, conforme pesquisa feita pela Endeavor, entidade de apoio ao empreendedorismo, e a Neoway, especializada em big data.

Consideradas de alto impacto pelo nível de geração de emprego e a velocidade de crescimento, as scale-ups são a aposta para a recuperação econômica do país. Uma scale-up gera 100 vezes mais postos de trabalho em um ano do que a média das empresas brasileiras: 31,3 novos contratados contra 0,34. “Ao identificá-las, é possível concentrar esforços para replicar o mesmo ritmo de desenvolvimento em outros empreendimentos e ampliar essa proporção”, explica o gerente de pesquisa e mobilização de Endeavor, João Melhado.

INFOGRÁFICO: saiba qual o perfil das scale-ups espalhadas pelo país

A boa notícia é que as scales-ups estão espalhadas em todo o país e em diversos segmentos produtivos. Essa distribuição facilita a adoção de políticas públicas e redes de apoio amplas, livres das limitações geográficas ou de setorização, para estimular o ambiente de negócios nacional. Reformas tributária, fiscal e trabalhista, além da aproximação da produção de pesquisa científica com o mercado e desburocratização dessas relações são algumas das medidas de maior abrangência que podem contribuir para estimular a geração de empresas de alto impacto.

Cenário local

Apesar de manter o maior número absoluto de scale-ups da Região Sul – 7,23% dessas empresas do país estão por aqui, contra 6,18% do Rio Grande do Sul e 5,7% de Santa Catarina –, o estado ainda tem uma proporção pequena de negócios de alto impacto em comparação com o total de firmas existentes.

Na avaliação do presidente do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), Sandro Vieira, o perfil conservador do empreendedor paranaense pode ser um dos freios do ritmo do crescimento das empresas locais. “É preciso ter um posicionamento mais globalizado, que extrapole o intramuros, para crescer exponencialmente. E essa postura estratégica precisa estar presente desde o início do empreendimento”, avalia Vieira.

A visão mais arrojada sobre o negócio é que vai fazer a diferença na hora de enfrentar desafios comuns a toda a concorrência. Carga tributária, falta de infraestrutura, variação do câmbio e burocracia são entraves que afetam todo o mercado. Para Vieira, o posicionamento adequado e a atitude visionária do empreendedor são determinantes para empreendedores conseguirem melhor desempenho. “O momento exige criatividade e arrojo nos negócios”, diz.

Investidor paranaense tem pouco apetite ao risco

Desenvolver uma empresa exige investimento para aumentar a produção, ampliar mercado e desenvolver novos produtos. Em períodos de restrição de crédito, ter acesso aos recursos necessários é outro gargalo do crescimento. O dinheiro caro dos bancos de varejo empurram empresários para empréstimos que inviabilizam a atividade e, novamente, o conservadorismo pode ser um empecilho no ambiente paranaense.

Fundos de investimento e mercado de capitais são alternativas mais sofisticadas de financiamento que ainda estão em fase de amadurecimento no mercado nacional. “No Paraná, o perfil do investidor ainda é bem tradicional. Muitos buscam imóveis ou aplicações de menor risco”, observa o consultor Ricardo Fortunato Barcelos, especializado em venture capital e empreendedorismo.

O resultado é a pouca participação em grupos de investimento e mesmo na criação de gestoras de fundos. A primeira do Paraná, formada em 2010 por Marcel Malczewski, fundador da Bematech, foi a M3 Investimentos. A empresa lançou dois fundos e caminha para o terceiro para aplicações em companhias consolidadas, em viés de crescimento, que requerem aportes entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões. “A falta de referências e exemplos de sucesso no mercado paranaense colaboram para a refratariedade do investidor local”, avalia.

Malczewski aposta que empresários e investidores, aos poucos, vão se moldando às necessidades do mercado. Com a restrição ao crédito no varejo, o empreendedor passa a considerar a participação dos fundos de investimento. O ecossistema de inovação e startups, estimulado nos últimos anos, contribui para mudanças de mentalidade e postura da cadeia empresarial. Para Barcelos, esse movimento ainda depende da disposição de todos em buscar mais suporte nas redes de apoio ao empresariado para trocar experiências e crescerem juntos. “Há uma infraestrutura para esse suporte, mas a demanda ainda é baixa”, avalia.

Neoortho tem DNA inovador

Criada em 2004 dentro da Neodent, a Neoortho tem a assinatura do empreendedor Geninho Thomé e constrói hoje a própria trajetória de alto impacto, com crescimento mínimo de 29% previsto para 2015. Para desenvolver e fabricar os atuais 7 mil itens de próteses ortopédicas, a empresa investe em formação e retenção de talentos. “É um dos pilares mais importantes e uma das maiores dificuldades da atividade empresarial: garantir a melhor equipe”, explica o vice-presidente da empresa, Irineu Vitor Leite (foto).

Hoje são 140 funcionários, 20 deles dedicados ao desenvolvimento de novos produtos. Grande parte recrutada em mestrados, doutorados e universidades, o que não dispensa treinamentos específicos na área de atuação da empresa. Um corpo médico contratado como consultor também trabalha para a orientação das necessidades do mercado nacional, ainda muito abastecido pelo produto importado.

“Temos o desafio de garantir a excelência nos nossos produtos”, diz Leite. Ainda assim, o mercado internacional está no radar e começa a ser explorado pela Neoortho, com dez pontos de distribuição no exterior.

Em 2016, 3 mil novos produtos serão lançados e somente a prótese de quadril, desenvolvida com recursos do BNDES, prevista para maio, deve garantir 20% de crescimento da empresa no ano que vem.

Stival quer ganhar mercado nacional

Marcar dois dígitos de crescimento tem sido um ato heroico para o empresariado brasileiro. Mas há exemplos de bom desempenho, mesmo na atual fase crítica da economia. A paranaense Stival Alimentos tem 44 anos de mercado, 350 funcionários e está pronta para aumentar a produção em 150% a partir de 2016.

O ciclo de investimento que incluiu restruturação interna, com novo parque fabril, e desenvolvimento de novos produtos, começou em 2010. “A gôndola do varejo não é elástica, exige novidade sempre. Para ser competitivo, tenho que criar novos produtos”, diz o CEO da empresa, Alexandre Stival (foto).

Com portfólio atualizado, o executivo consolidou as demais estratégias para expandir mercado e entrar nas redes nacionais: investiu em logística, distribuição e equipe de vendas. Até 2013, a empresa batia a média de 22% de crescimento ao ano. No ano passado, houve maior volume, mas o faturamento recuou. “Estamos recuperando no segundo semestre, e os bons resultados dos produtos lançados mostram que houve mais acertos do que erros”, diz.

O investimento permanente em pesquisa e desenvolvimento garante à empresa o perfil inovador exigido pelo cliente. Não parar no tempo é uma questão de sobrevivência, na avaliação de Stival. Para proteger sua produção, o empresário registra as patentes de marca e teve o cuidado de fazer o depósito do desenvolvimento das embalagens do Rice Cup e Momento Gourmet. “Ganho um tempo até a concorrência começar a copiar enquanto invisto em novos produtos”, aposta.

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Jonathan Campos/Gazeta do Povo
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