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Mulheres da Dr. Cook, de Pinhais, vendem pães de mel, complementam a renda e se motivam. |
Mulheres da Dr. Cook, de Pinhais, vendem pães de mel, complementam a renda e se motivam.
Empreendedorismo

Quando ganhar dinheiro é um ato de solidariedade

Grupos de geração de renda em Curitiba mostram como a experiência empreendedora melhora as condições de vida de indíviduos

Texto publicado na edição impressa de 01 de novembro de 2008

No Brasil, ganhar dinheiro ainda é visto com desconfiança. Não raro os vilões das telenovelas são empresários ricos e aéticos, e quem lucra é pintado como a pessoa que contribui para acirrar as já profundas desigualdades sociais no país. É na tentativa de inverter essa lógica que grupos de geração de renda atuam em Curitiba e região, mostrando que empreender é uma forma de estreitar o abismo entre ricos e pobres – e não de acentuá-lo.

Os catadores da Cooperativa de Carrinheiros Zumbi dos Palmares já são um consagrado exemplo dessa prática. Com pouco mais de quatro anos de atuação, a CoopZumbi, que funciona na Vila Zumbi dos Palmares, em Colombo, foi uma das pioneiras na união de carrinheiros na Grande Curitiba. “Começou com oito, dez pessoas”, lembra a hoje tesoureira da instituição, que, por pudor de quem já cansou de aparecer em jornais e televisão, prefere não revelar o nome. A renda média de cada carrinheiro, à época, era de R$ 200 – hoje, há quem ganhe R$ 1 mil, diferença que é explicada pelo alto valor pago aos catadores pela cooperativa. “Nós temos um processo de separação que valoriza o material na venda; então, o carrinheiro acaba recebendo bem mais por quilo”, explica a tesoureira. Um quilo de papelão, por exemplo, é vendido a dez centavos nos ferros-velhos da região. Na cooperativa, o catador recebe 20 centavos – o dobro – pelo mesmo quilo. Além disso, mutirões de reciclagem em bairros próximos à cooperativa e as vendas de um bazar montado com artigos vindos do lixo ajudam a engrossar a renda mensal dos catadores.

Para a tesoureira, a grande diferença da CoopZumbi na vida dos catadores cooperados, que hoje são mais de 60, vai além da renda em si, e se traduz por “autonomia”. “Aqui, você é seu próprio patrão, trabalha mais à vontade, sem pressão. Claro que você acaba tendo mais responsabilidades, mas ao menos não precisa dar satisfações a ninguém.” Ela também destaca os benefícios do trabalho coletivo. Antes de entrar para a cooperativa, a tesoureira trabalhava com separação de materiais em um ferro-velho – uma atividade solitária, bastante diferente do que vive hoje. “Aqui na cooperativa, você se envolve com muita gente, e cada pessoa que você conhece lhe ensina alguma coisa. Você muda.”

Mudança é o que também marca a experiência do grupo de geração de renda Doctor Cook, de Pinhais. “Hoje eu já não brigo mais com o marido”, diverte-se Rosalina da Luz Gutervil, a Rosa. Foi ela quem teve a iniciativa de, em março deste ano, formar o grupo de seis mulheres, todas com mais de 40 anos, para trabalhar com gastronomia. “Eu queria fazer algo pela terceira idade”, diz Rosa, que tem 51 anos e é empregada doméstica aposentada. O grupo fez uma primeira e fracassada tentativa com pães caseiros. “Não deu certo; ele não crescia, ficava deformado”, lembra Rosa. Foi na base do erro e do acerto, experiência vivida por qualquer empreendedor bem-sucedido, que as mulheres chegaram à receita do pão de mel, aprimorada de um programa de televisão.

O primeiro rendimento, de R$ 130 para cada participante, é lembrado com alegria pelo grupo. “Nós vendemos 846 pães de mel numa feira. Nunca vou me esquecer deste número; ainda jogo na loto!”, conta Rosa. Na opinião dela, a mudança foi significativa para mulheres que antes não possuíam renda alguma, como sua irmã Claudete Araújo, de 60 anos. Ela é portadora do Mal de Parkinson e teve de parar de trabalhar por conta da doença. Separada do marido, ficou por mais de dez anos vivendo apenas da ajuda dos filhos. “Agora, não há quem me impeça de trabalhar na Dr. Cook, porque ninguém vai me dar outra chance”, conta. “Hoje, sou eu que empresto dinheiro aos meus filhos.”

Para Rosa, é na geração de renda que está a principal diferença do grupo na vida das mulheres. “Não tem como: passou dos 40 anos, não consegue emprego. Ainda mais doentes como estavam a Claudete e a Célia.” Célia Bispo operou-se recentemente de um câncer de mama. Trabalhava vendendo chocolates caseiros, que produzia sozinha em casa para dar um reforço à renda familiar. “Fora que é gostoso participar, porque temos condições de conhecer outros grupos, participar de feiras, temos contato com outras pessoas. Melhora muito a auto-estima.”

Na opinião da assessora da ONG Aliança Empreendedora, Caroline Appel, que dá apoio e consultoria ao Dr. Cook, o grupo é uma prova de que o empreendedorismo pode ser uma ferramenta de inclusão. “Para conseguir trabalho nessa idade, é bem complicado, e o grupo, além de gerar renda, acaba sendo motivacional.” Para o diretor-superintendente do Sebrae/PR, Allan Costa, tanto o Dr. Cook quanto a CooperZumbi são exemplos de que a cultura empreendedora é aplicável – e dá muito certo – a comunidades carentes. “Ela pode fazer toda a diferença na vida de uma comunidade. O fenômeno empreendedor é algo bastante transformador.”

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