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O imediato filipino Joemar Tormon: o tempo que ele esperou para atracar em Paranaguá é maior que a duração de uma viagem entre o Paraná e a China |
O imediato filipino Joemar Tormon: o tempo que ele esperou para atracar em Paranaguá é maior que a duração de uma viagem entre o Paraná e a China
Logística

Seis e meia semanas de tédio no litoral

Fila para atracar em Paranaguá exige criatividade para ocupar o tempo. A Gazeta do Povo visitou navio que esperou 45 dias para descarregar no porto

Texto publicado na edição impressa de 19 de agosto de 2012

Seis e meia semanas de tédio no litoral Ampliar

O congestionamento de navios no Porto de Paranaguá – que perdura há meses acima da marca de uma centena de embarcações ao largo do cais – tem exigido criatividade das tripulações estrangeiras. Diante da longa espera para atracar, que pode ultrapassar 60 dias, os marinheiros buscam alternativas para ocupar o tempo extra a bordo, pois é proibido desembarcar enquanto o navio estiver na fila por um lugar no cais.

Para atenuar o marasmo de semanas de espera, a solução é recorrer às atividades comuns na rotina de quem está em férias. Pescar, navegar na internet, escrever para os familiares, jogar videogame e assistir filmes são algumas das opções de passatempo.

“É uma espécie de prisão com salário. A vida é cheia de restrições durante a espera. Tem que ter criatividade para o tempo passar”, conta o imediato (posto abaixo do capitão) filipino Joemar Tormon, 34 anos, 12 deles zanzando pelos mares.

Ele faz parte da tripulação de 24 pessoas do UBC Sacramento, navio de bandeira do Chipre, que chegou a Paranaguá no dia 2 de julho para carregar 30 mil toneladas de milho, mas só conseguiu atracar na madrugada da última quinta-feira.

Durante os 45 dias de espera (o trajeto Paranaguá/Roterdã, na Holanda, dura 25 dias e Paranaguá/Shangai, na China, 40 dias), os marinheiros, 23 filipinos e um polonês, praticamente decoraram todas as cenas dos filmes a bordo. “Foram longos dias e uma espera muito chata, mas é preciso se adaptar. Além da manutenção do navio, o pessoal procura algumas formas de diversão”, conta o capitão Gal Leopoldo, 50 anos, que deixou o país de origem no dia 1.º de junho e só retorna no fim do ano. “Numa das noites pegamos um peixe espada enorme. Rendeu um ótimo jantar para toda a tripulação.”

Distância

De acordo com os marinheiros da embarcação cipriota, a distância de casa é a maior dificuldade da profissão. Geralmente, os contratos são assinados por períodos de seis meses. Nesse intervalo, a solução é utilizar a comunicação via satélite para matar a saudade da família. “Nossa vida é essa”, afirma Leopoldo, pai de três filhos.

Porém, nem os altos salários, que podem chegar a US$ 8 mil por mês, garantem a permanência na profissão. No retorno às Filipinas em dezembro, Tormon planeja procurar outro emprego no porto de Manila, em Luzon (a maior ilha do país). “Isso é vida para solteiro. Quero trabalhar em um mesmo lugar. Vou procurar emprego no porto para não me afastar totalmente do mar”, conta o imediato, pai de dois garotos. “Em alto-mar é preciso concentrar só no trabalho. Se conseguir um lugar em terra posso voltar a estudar, além de ficar perto da família”, complementa.

Manutenção

Se para alguns tripulantes os dias de espera demoram a passar, para outros são motivo de comemoração. O engenheiro polonês Arek Arcadius, 40 anos, responsável pela parte técnica do UBC Sacramento, garante que a paralisação na navegação tem seu lado bom. Ele e sua equipe de sete tripulantes, entre técnicos, eletricistas e carpinteiros, aproveitaram o período no largo para fazer a manutenção das máquinas.

“Tivemos tempo para revisar e arrumar tudo. Em outros portos do mundo, onde a espera é de no máximo uma semana, não é possível fazer essa trabalho com a embarcação parada”, diz Arcadius, que trabalha em navios desde 1994.

Espera em portos europeus e chineses não passa de um dia

A falta de infraestrutura no Porto de Paranaguá assusta quem vem de fora. O capitão filipino Gal Leopoldo, responsável pelo UBC Sacramento, afirma que o tempo de 45 dias de espera para atracar na autarquia paranaense não ocorre em outros portos do mundo.

“Na Europa e na China, que tiveram investimento, não se aguarda nada. Na Colômbia [próximo destino do navio que zarpou na última sexta-feira] vamos esperar três dias”, aponta. “Aqui tivemos de racionar água e torcer para chover”, complementa. Durante o tempo de permanência no largo, as embarcações não podem receber suprimentos.

Em média, cada dia de espera gera multa de US$ 40 mil à empresa contratante. Ou seja, somente a companhia detentora do navio cipriota recebeu US$ 1,8 milhão. “Investimentos em infraestrutura no Brasil poderiam melhorar o fluxo de navios e gerar renda e empregos à população”, adverte Leopoldo.

Multa

A longa espera dos navios em Paranaguá tem gerado significativos valores de demurrage – multa paga pelo contratante ao dono da embarcação quando a demora no porto ultrapassa o prazo acordado. No ano passado, somente as operações envolvendo fertilizantes geraram US$ 144 milhões em demurrage. Com base nas projeções de desembarque de enorme quantidade de adubo para este ano, principalmente por conta do crescimento da área destinada ao plantio de soja e milho na safra de verão, a expectativa é de que o valor seja ainda maior.

Na última sexta-feira, o site da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa) registrava 116 navios ao largo e 22 eram esperados para as próximas 48 horas. O tamanho da fila é 127% maior em relação à registrada no início de maio, quando eram 51 navios. Sinal de que as tripulações estrangeiras terão tempo de sobra para pescar peixes-espadas nas águas do litoral paranaense.

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