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Brigar e ameaçar o professor é prejudicial para o seu filho

Quando as famílias ‘empoderam’ demais as crianças, elas se tornam adultos inseguros e de difícil convivência social

  • Denise Drechsel
Pais com bom relacionamento com os professores têm boas surpresas. Na foto, o casal Maurício e Dulce Agria conversam com o professor do filho, no Colégio Bosque Mananciais: parceria que deu certo | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Pais com bom relacionamento com os professores têm boas surpresas. Na foto, o casal Maurício e Dulce Agria conversam com o professor do filho, no Colégio Bosque Mananciais: parceria que deu certo Jonathan Campos/Gazeta do Povo
 
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Infelizmente, a cena é cada vez mais comum nas escolas: pais, por vezes aos gritos, se queixam com o professor sobre um determinado assunto na presença dos filhos. Além de ser uma falta de educação e um desgaste para os próprios interessados, a atitude leva à insegurança dos filhos e prejudica o seu desenvolvimento.

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Parceria de sucesso: quando o bom relacionamento entre pais e professores transforma a vida de uma pessoa

Pais e professores são as duas instâncias de autoridade mais importantes na infância e na adolescência, com previsão de pelo menos 15 anos de parceria. Se a coerência entre eles dá referências claras para os filhos em formação, a falta de sintonia tira das crianças e jovens os parâmetros para a convivência social. Ao mesmo tempo, ao ver o enfrentamento, os filhos tendem a deixar de obedecer às autoridades da escola, com consequências desastrosas, como dificuldades para aprender ou não saber lidar com frustrações.

“Depende do caso e da criança, mas ela pode se sentir insegura e não querer ir mais para a escola, até desenvolver algum processo de recusa com o processo de aprendizagem e perder a motivação”, afirma Maísa Tannuti, professora dos cursos de Psicologia e Pedagogia da Universidade Positivo.

Por outro lado, quando o pai tira a autoridade do professor e dá razão ao filho, cria neste uma falsa imagem de sucesso. Neste cenário, o filho perde a chance de reconhecer seus próprios defeitos e a aprender e enfrentar as frustrações normais da vida. O erro dos pais, na maioria das vezes, é acreditar que o filho tem mais méritos ou mostra maior desenvoltura quando se impõe e se move apenas pelos seus próprios princípios e desejos.

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“Na verdade, sem perceber, a frouxidão dos pais enfraquece a personalidade dos filhos, pois eles acabam sendo levados pelo que é fácil e não pelo valioso. Essas crianças, quando adultas, não se enquadram em nenhum conjunto de regras e não são felizes”, diz Lélia Cristina Bueno de Melo, diretora de formação e desenvolvimento humano do Colégio do Bosque Mananciais. “Pelo contrário, as crianças que aprenderam a superar essas situações, a lidar com frustrações da vida, são as protagonistas da própria vida no futuro”, completa.

O mau exemplo dos pais também acaba sendo reproduzido pelos filhos. “Os pais, quando desrespeitam uma pessoa, gritam com alguém, não só com o professor, no trânsito, na fila, estão ensinando aos filhos que podem gritar, passar na frente, xingar a professora ‘porque ele está pagando’. Acontece que a vida não é assim e os filhos acabam sofrendo por não terem aprendido a se portar de outra forma”, lembra Maísa Tannuti.

Erros em sala de aula

Quando a criança ou o jovem chega em casa reclamando dos professores, os pais devem procurar esclarecer a situação com o docente, longe dos filhos. Essa conversa precisar ser feita pessoalmente, não pela agenda ou muito menos por ‘WhatsApp’. Se não há entendimento com o professor, sempre é possível buscar a coordenação pedagógica do colégio ou outra autoridade. Um clima familiar sem limites, porém, pode dificultar esse diálogo e a abertura dos pais para aceitar que os filhos, na maior parte dos casos, não têm razão.

“Algumas vezes os pais não conseguem entender os motivos pelos quais, por exemplo, os professores não deixam usar o celular em sala de aula. É preciso um diálogo sincero, em que os dois lados procurem estar abertos para entender as razões do outro”, afirma Josiane Miara, Coordenadora do Período Ampliado do Colégio Marista Santa Maria.

Pais fracos com crianças mais frágeis ainda

Há famílias em que o sentido de autoridade está completamente de ponta-cabeça. Os filhos escolhem onde vão estudar, o restaurante em que a família vai almoçar, se podem sair sem agasalho em um dia de frio, etc. De forma ingênua e cômoda, os pais acreditam que permitir tudo é fazer bem, sem saber que, na realidade, estão enfraquecendo as crianças e jovens.

“O ‘empoderamento’ é positivo, mas deve ser gradual. Não se pode dar para as crianças decisões que o adulto deve fazer e a criança não tem maturidade para assumir”, alerta Josiane Miara, Coordenadora do Período Ampliado do Colégio Marista Santa Maria.

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Pais excelentes, segundo as especialistas, são amados, mas costumam não ter popularidade com os filhos, porque não concedem todas as suas vontades. “O melhor pai é aquele que agrada menos, mas faz isso com delicadeza, com jeito, explicando porque diz ‘não’ a uma série de ações, e a razão última é o amor e cuidado dos filhos”, explica Lélia Cristina Bueno de Melo, do Colégio do Bosque Mananciais.

Pesquisas com jovens, diz Lélia, mostram ainda que eles se sentem mais amados quando os adultos organizam as regras, acompanham suas atividades e conversam com eles. “É natural do comportamento do jovem desafiar a autoridade, mas, quando os pais deixam as rédeas soltas e os filhos sem limites, eles entendem que os pais não se importam com eles e se sentem menos amados”, aponta.

Parceria que dá certo

Se sobram casos de desrespeito e brigas entre pais e professores, também há muitas histórias em que o bom relacionamento entre a família e a escola proporcionou um salto de qualidade no comportamento e aprendizagem dos filhos, como ocorreu na casa dos Agria. O filho, Vinícius, mudou de escola há seis anos e os pais passaram a ter um contato mais próximo com os professores.

“Meu filho era tímido e tinha problemas de relacionamento. Com 10 anos, o mudamos de colégio e, estimulados pela própria instituição, passamos a ter um contato direto com os professores, que nos deram dicas bastante concretas de como agir com ele dentro de casa. Foi uma troca de informações tão rica entre o que víamos em casa e eles viam na escola que hoje ele tem 15 anos e tanto a família quanto os amigos notam como ele se transformou em um rapaz alegre, com amigos e bom aluno”, comemora o empresário Maurício Agria, 47, pai de Vinícius.

“A conversa sempre é bem-vinda para que as recomendações da escola e da família entrem em sintonia e a criança ou o jovem, segura dos seus valores, desenvolva a autoestima e uma personalidade forte”

Lélia Cristina Bueno de Melo

Para a mãe, Dulce Agria, o fato de o filho passar a ver no professor um amigo, mas com autoridade, facilitou a mudança. “Não nos arrependemos por buscar soluções com a escola”, garante Dulce.

Lélia Cristina Bueno de Melo, diretora de formação e desenvolvimento humano do Colégio do Bosque Mananciais, local em que estuda Vinícius, ressalta a importância de a escola facilitar esse tipo de parceria, não apenas nos momentos em que há situações problemáticas com as crianças. “A conversa sempre é bem-vinda para que as recomendações da escola e da família entrem em sintonia e a criança ou o jovem, seguro dos seus valores, desenvolva a autoestima e uma personalidade forte”, diz.

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