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Construtivismo segue popular no Brasil apesar das críticas

Método é empregado no país desde os anos 1980 e propõe autonomia do aluno; para alguns estudiosos, há falhas no modelo

  • Bruno Raphael Müller, especial para a Gazeta do Povo
Pedagogo português José Pacheco: pioneiro | Alexandre MazzoGazeta do Povo
Pedagogo português José Pacheco: pioneiro Alexandre MazzoGazeta do Povo
 
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Tachado por críticos como um “mero conceito” e definido pelos adeptos como uma “metodologia concreta”, o construtivismo é tema de divergência entre especialistas de educação, mas segue popular no Brasil. 

As primeiras escolas a adotar a prática em território nacional datam da década de 80, com notória inspiração na Escola da Ponte, instituição pública portuguesa que foi criada por José Pacheco em 1976 e não possui divisão de alunos por classe ou série.

Oposta ao método tradicional, a Ponte privilegia o poder de tomada de decisão em todas as fases de aprendizado até o Ensino Médio, sem o uso de livros didáticos. Nesse contexto, o professor se torna uma espécie de mediador, criando situações em que os alunos podem aprender de forma empírica e autônoma os temas tratados em sala de aula. 

O construtivismo como é conhecido hoje no Brasil surgiu a partir dos estudos da psicolinguista argentina Emilia Ferreiro sobre a obra de Jean Piaget. Em sua obra mais conhecida, Psicogênese da Língua Escrita, de 1984, a autora defende uma alfabetização ativa, baseada no questionamento do que está estabelecido. “Por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham e dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa. Ela pensa também a propósito da língua escrita e os componentes conceituais desta aprendizagem precisam ser compreendidos”, escreveu. 

 A visão dos adeptos 

Diretora da maior e mais longeva instituição construtivista do Brasil, a Escola da Vila, criada em 1980 em São Paulo, Sônia Barreira afirma que em “propostas construtivistas sérias” o estudante não é deixado à própria sorte em sala de aula. “Há um grau de interação que garante que o aluno se aproprie do saber através de reformulações, comparações e, é claro, da compreensão. Dizer que o professor construtivista não ensina e espera o aluno descobrir é um equívoco”, afirma. 

Lino de Macedo, professor aposentado do Instituto de Psicologia da USP,  tem sido nos últimos anos uma das vozes mais ativas em prol do construtivismo nas escolas brasileiras. “Para o não-construtivista, a criança só saberá escrever no final do ano, quando tiver repetido o processo de alfabetização (ou dominado seus paradigmas). Para o construtivista, a criança já sabe escrever desde o primeiro dia de aula, ainda que este seu saber conhecerá muitos aperfeiçoamentos”, argumenta ele no artigo O construtivismo e sua função educacional

Na visão de Macedo, existe um aspecto crítico da prática que é muitas vezes incompreendido: o “método clínico”, descrito por Piaget em suas obras. “Em uma visão não-construtivista a ação induzida é, muitas vezes, a mais frequente”, diz. 

Críticas 

Críticos do método construtivista veem o modelo como inadequado para camadas sociais mais baixas e apontam a defasagem de uma prática cujas diretrizes não são alteradas há mais de 30 anos. Neste período, as mudanças tecnológicas transformaram radicalmente a forma como crianças e jovens assimilam o mundo ao seu redor. 

Na visão do filósofo e sociólogo Pierre Bordieu, o construtivismo deveria ser desenvolvido de forma estrutural, isto é, levando em conta o aspecto cultural, econômico e social dos estudantes. Dentro dessa lógica, a prática é falha ao lidar com alunos mais desfavorecidos, justamente pela limitação das suas ações no contexto em que estão inseridos. “O rendimento da ação escolar depende do capital cultural previamente investido pela família e do capital social, herdado”, apontou Bourdieu em um de seus artigos.

Já o pesquisador Ivan Izquierdo, coordenador do Centro de Memória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), vê a aplicação de práticas construtivistas na educação nacional como um retrocesso em relação aprendizado por meio da repetição de informações, algo inerente à assimilação dos conteúdos escolares. 

“Os construtivistas acabaram com isso [uso da memória no aprendizado]”, disse ele em entrevista de 2012 ao Jornal do Comércio. “Quem aprende é o cérebro, e o faz de muitas maneiras ao mesmo tempo. Isso o professor tem de saber”. Contatado pela reportagem da Gazeta do Povo, Izquierdo comunicou que não iria mais se manifestar sobre o tema. 

Em um artigo escrito para a University of California, Santa Barbara em 2004, o autor norte-americano Richard E. Mayer avaliou a prática do construtivismo nos Estados Unidos por meio de pesquisas realizadas por instituições e pesquisadores entre 1960 e 1990. Mayer chegou à seguinte conclusão: “a descoberta empírica não funcionou nos anos 60, 70 e 80. Após esses três ‘strikes’, há pouquíssima razão para acreditar que um dia isso irá funcionar”. 

 Rótulos diferentes 

Apesar das divergências entre os que criticam ou enaltecem o construtivismo, há metodologias que tentam encontrar um meio termo, absorvendo o que julgam como útil. É o caso da implantada pelo SESI-PR (Serviço Social da Indústria do Paraná). A proposta da instituição, conforme define a gerente de educação básica e continuada Lilian Luitz, está fundamentada no pensamento sistêmico do filósofo francês Edgar Morin, que “busca superar a fragmentação do conhecimento através de oficinas de aprendizagem interdisciplinar”, entre outras ações. 

Lilian afirma que a metodologia do SESI possui algumas similaridades com o construtivismo, principalmente referente ao processo de produção de conhecimento por parte do próprio aluno, ao invés de apenas reproduzi-lo. “No entanto, a produção do conhecimento que propomos vai além do envolvimento do aluno com o objeto de estudo e da hipóteses que levanta. Propomos a contextualização real do que deve ser aprendido, em que o professor é o gestor da sala de aula orientando, organizando os roteiros de estudo e de pesquisa junto aos alunos e as questões chave a serem aprendidas”, justifica.

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