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LEVANTAMENTO

Creches no Brasil não ajudam para a educação dos mais vulneráveis

Crianças em pior situação social têm resultados ruins após ir a creches brasileiras. Rotatividade e falta de preparação dos educadores estão entre as causas

  • Denise Drechsel
Cenas da educação: qualidade permanece um desafioi. | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Cenas da educação: qualidade permanece um desafioi. Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
 
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Alunos em condições sociais vulneráveis têm piores notas no ensino fundamental se frequentaram creches no Brasil. A constatação é de uma pesquisa realizada em 2010 e atualizada com dados recentes da avaliação de matemática da Prova Brasil de estudantes do 5º. ano.

Crianças em situação de maior vulnerabilidade social que frequentaram instituições até os 3 anos de idade têm menor desempenho se comparadas a outras, na mesma situação, mas que não foram à creche. O quadro muda em famílias com mães com maior escolaridade: as notas são melhores no ensino fundamental das crianças nessa situação que foram à creche.

De acordo com o responsável pelo estudo, o professor da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, Daniel Santos, o fato é ‘insólito’. “Esse resultado é o oposto do que ocorre com o resto do mundo, em que crianças são beneficiadas na educação na primeira infância; para filhos de mães com baixa escolaridade no Brasil ir para a creche faz mal, o que é um resultado inadmissível”, afirma.

O estudo mostra ainda a maior importância da formação nos três primeiros anos de vida se comparada a outras fases da infância: ter frequentado ou não a pré-escola aos 4 ou 5 anos não influencia no resultado das notas do ensino fundamental. “Os governos tendem a colocar a primeira infância e a pré-escola em um mesmo grupo, mas o que faz mais diferença no futuro é a forma como essas crianças foram tratadas nos primeiros três anos”, diz.

Falta de formação e informação são principais causas

O levantamento não trouxe evidências dos motivos pelos quais as creches podem prejudicar crianças em situações mais vulneráveis, mas alguns fatores podem explicar esse resultado, como a falta de formação dos educadores nas creches.

“Educadoras, de um modo geral, não conhecem os processos de desenvolvimento físico, motor e cognitivo dos bebês”, avalia Maria Augusta Bolsanello, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Atenção e Estimulação Precoce de Bebês (Labebê), na UFPR. “A creche, que não pode ser descartada e deveria já ser uma solução para essas famílias vulneráveis, acaba não resolvendo o problema ainda”, continua.

Inúmeras pesquisas mostram que responsáveis de creches no Brasil não realizam práticas simples que fazem diferença para os bebês. “O cenário é complexo, além da falta de preparo os educadores, o grande número de crianças para cuidar e a carga horária excessiva também prejudicam”, explica Bolsanello.

Outra causa para o resultado da pesquisa seria a ignorância dos pais em relação ao que deveria ser um bom cuidado infantil. “Os pais nessa faixa de vulnerabilidade não sabem cuidar das crianças e nem julgar o cuidado oferecido pela creche”, explica Daniel Santos.

Na primeira infância, o vínculo com o educador e a constância nos estímulos também são fatores importantes. “A alta rotatividade mata o processo de conhecimento, principalmente nos ambientes em crianças mais vulneráveis. Se a criança não tem a educação necessária na primeira infância em casa, ela precisaria encontrar essa formação na creche, com o cuidado dos educadores para manter esse vínculo e zelar para que ele seja gerador de conhecimento”, diz o Santos.

O Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2014, estabelece como meta que até 2024 o equivalente a 50% das crianças de até 3 anos no Brasil estejam frequentando creches – hoje são 29,6%. A lei também prevê que todas as crianças de 4 e 5 anos no Brasil estejam na pré-escola até o fim deste ano (2016). De acordo com o Censo Escolar, esta porcentagem atualmente é de 89,1%.

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