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Elx, el@s, todxs? Na língua portuguesa, sem gênero neutro: apenas masculino e feminino

De acordo com a linguística, substituir masculino e feminino por um gênero neutro não funciona

  • Andressa Muniz, especial para a Gazeta do Povo
Na transição do latim para o português, a semelhança entre masculino e neutro fez com que ambas as categorias fossem resumidas em uma. | Daniel Castellano / Arquivo Gazeta do Povo.
Na transição do latim para o português, a semelhança entre masculino e neutro fez com que ambas as categorias fossem resumidas em uma. Daniel Castellano / Arquivo Gazeta do Povo.
 
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“Elxs, el@s, todxs, tod@s, meninxs, menin@s” – a tentativa de eliminar preconceitos se reflete também em uma tentativa de mudar a língua portuguesa. Em uma iniciativa impulsionada por movimentos sociais, os discursos que se referem a um grupo de pessoas são modificados para não usarem o plural masculino – “eles”, “todos”, “meninos” – mas sim uma marcação de gênero neutro que substitui a terminação “o” por “x” ou “@”. 

Apesar das intenções de democratizar a língua portuguesa, o modelo quase não tem apoio científico. De acordo com a linguística: substituir masculino e feminino por um gênero neutro não é algo que funciona na língua portuguesa. Pelo menos não do modo como é discutido pelos movimentos sociais. 

Origens 

Segundo pesquisadores da área, usar o gênero masculino para se referir a um grupo de pessoas, homens e mulheres, não é uma forma de preconceito. A origem desse uso estaria no latim – que lançou as bases da língua portuguesa e de outras línguas latinas, como o francês e o espanhol. 

Assim, se o que é visto como gênero masculino, na verdade é um gênero neutro, não há prevalência do masculino nos discursos - o ponto que seria criticado ao sugerir a substituição de “o” por “x”, por exemplo. O único gênero que recebe marcação na língua portuguesa é o feminino. 

É isso que aponta o linguista Joaquim Mattoso Câmara Jr., em pesquisas sobre linguagem desenvolvidas desde a década de 1940. No artigo “Considerações sobre o gênero em português”, um dos principais trabalhos produzidos no Brasil sobre o tema, o linguista explica que o gênero feminino é, em português, uma particularização do masculino. Essa particularização é feita pela terminação “a”, que é diferente da terminação neutra “o”. 

Recentemente o pesquisador e professor da Unicamp Sirio Posseti destacou que a única marcação de gênero é o feminino. “Os nomes [substantivos] com marca de gênero, em português, coincidem exatamente com os que estamos acostumados a considerar femininos. Os outros casos, todos, seriam considerados sem gênero (inclusive os nomes considerados masculinos)”, diz. 

“É por isso que dizemos ‘o circo tem dez leões’ mesmo que tenha cinco leões e cinco leoas, mas não dizemos, no mesmo caso, que tem dez leoas. Também é por isso que se pode dizer que ‘todos nascem iguais em direitos...’, o que inclui as mulheres, mas não se incluiriam os homens se a forma fosse ‘todas nascem iguais em direitos...’.”, explica Posseti. 

Essa regra, chamada por pesquisadores da área de “masculino genérico”, surge nas origens da língua portuguesa. No latim, as palavras podiam receber três marcações de gênero: feminino, masculino e neutro – este último com a terminação “u”. Na transição do latim para o português, a semelhança entre masculino e neutro fez com que ambas as categorias fossem resumidas em uma só, que hoje entendemos como masculino. 

Polêmica global 

Uma discussão similar acontece na França: o movimento “Écriture Inclusive” (“Escrita Inclusiva”, em português) defende que a língua francesa é intrinsecamente machista e reivindica a adoção de gênero neutro como uma tentativa de combater o suposto preconceito. 

Um dos grupos por trás do movimento, “Mot-Clés” (“Palavras-chave”), diz que o francês é uma “língua falocêntrica” por favorecer o uso do masculino genérico. De acordo com o grupo, a mudança no uso da língua francesa seria um modo de “realmente mudar as mentalidades” das pessoas no país. 


Considerada uma disciplina objetiva, a matemática ensinada nas escolas não debate questões sociais e culturais. Mas deveria? Para alguns acadêmicos, a resposta é sim. #GazetadoPovo via #Ideias

Publicado por Gazeta do Povo em Terça-feira, 14 de novembro de 2017

No país, as críticas ao movimento apontam o caráter pouco prático de uma mudança profunda e artificial em uma das línguas mais faladas no mundo. A L'Académie française, organização encarregada de julgar assuntos relacionadas à língua francesa e que funciona de modo similar à Academia Brasileira de Letras, declarou que a escrita inclusiva representa um “perigo mortal” para a língua francesa

“Frente a essa aberração ‘inclusiva’, a língua francesa está agora em perigo mortal, pelo qual nossa nação é responsável agora para as gerações futuras”, declararam os imortais da L'Académie française. 

“Já é difícil aprender um idioma, como será se o uso acrescentar formas secundárias e alteradas? Como as gerações futuras crescerão com intimidade com nossa herança escrita? Quanto às promessas de um mundo francófono, elas serão destruídas se a língua francesa se enfraquecer com este aumento de complexidade, beneficiando outras línguas que se aproveitarão para prevalecer no planeta”, completou a entidade. 

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