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Literatura

Livros: saiba por que "Ana Karenina" é um clássico e "Anjos e demônios" não

Para especialista, vencer a resistência a obras de maior qualidade leva o leitor a outro nível de compreensão, que foge do “bonitinho”, daquilo que “você já sabe, já pensou, já viu”

  • Denise Drechsel
As comédias são boas portas de entrada para quem não tem o hábito de leitura, sugere o especialista Cezar Tridapalli |
As comédias são boas portas de entrada para quem não tem o hábito de leitura, sugere o especialista Cezar Tridapalli
 
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O tempo é curto e valioso. E o mercado literário está cheio de obras. E como "quem vê capa não vê conteúdo", nada como algumas dicas para escolher bem e desfrutar. Com a palavra, Cezar Tridapalli, especialista em Leitura de Múltiplas Linguagens, mestre em Estudos Literários, co-editor da revista de educação Mediação, coordenador de Midiaeducação do Colégio Medianeira, tradutor, escritor e autor do romance Pequena biografia de desejos.

Confira algumas dicas de livros

>>>Sempre ouvimos falar dos livros “clássicos”. Essa classificação é informal ou existe alguma convenção oficial?Existem de fato várias acepções do termo “clássico”. Uma delas diz respeito a um período histórico demarcado (a cultura greco-romana, o Renascimento...). Ou então àquilo que deve ser imitado, por ser um modelo do que há de melhor (a ideia de clássico no futebol, por exemplo). Esse “imitado” tem, por sua vez, várias nuances e assim a gente acaba entrando em um labirinto de sentidos para as palavras. Gosto de pensar no “clássico” como algo que é excepcionalmente interessante a ponto de, apesar de antigo – e só por isso mesmo –, vencer a barreira do tempo. Alguém já disse que o melhor crítico literário é o tempo.

Resumindo, daria para pensar assim: um livro se torna um clássico quando ele continua a fazer sentido e a habitar o imaginário individual e coletivo de várias gerações, em diferentes espaços e tempos. Ele não se esgota no seu tempo. Ele não fala apenas à sua comunidade. O autor de carne e osso se vai, mas a obra continua reverberando, com força sempre renovada, porque ainda toca os leitores, ainda tece a sua rede de referências, pensamentos e sensibilidade. Eis aí uma definição clássica de clássico. Como já dizia o ditado latino: Ars longa, vita breve. A vida material é curta, mas a vida simbólica, materializada em um livro clássico, se perpetua.

>>>Como identificar um livro clássico? É possível afirmar que eles têm alguns “atributos”? Por que um livro como Ana Karenina é considerado clássico e Anjos e Demônios não?Vamos pensar em Hamlet, de Shakespeare. Uma obra, certo? Dessa obra, quantas traduções já foram feitas para outras línguas? Quantas novas versões? E quantas vezes ela já foi representada, desde sua criação até hoje? Representações “fiéis”? Sim. Representações reinventadas, recriadas? Sim. E as versões para o cinema? Qual a diferença entre o “ser ou não ser: eis a questão” interpretada no cinema por Laurence Olivier e por Kenneth Branagh? Quantos ensaios, quantas teses? Enfim, a partir de uma obra, os seus sentidos se amplificam porque batem nas pessoas e ressoam. Em vez de encontrar uma parede, bater a cabeça e cair morta, a obra encontra um tecido poroso por onde transita e viaja de uma pessoa a outra e de uma sociedade a outra, seja ela contemporânea ou de uma geração vindoura. Mas, se uma obra não conseguir tratar com beleza (e aí inclusive o feio pode ser belo) valores humanos que transcendam uma ou duas gerações, corre o risco de ser um documento frio, de ter uma utilidade parecida com o jornal de notícias diárias. O tal prazo de validade expira com facilidade.

Voltando ao critério do tempo, fica fácil perceber por que, por exemplo, Ana Karenina é um clássico e Anjos e demônios não. Não posso cravar com absoluta certeza, mas eu apostaria no fato de que este último não se tornará um clássico. Entraríamos também na seara do bestseller e do longseller. Um estoura de tanto vender em um curto espaço de tempo e depois desaparece; outro pode não vender em quantidade exorbitante no momento da criação, mas está sempre ganhando reedições, vendendo sempre mesmo com o passar dos anos. Shakespeare vende sempre, Machado [de Assis] vende sempre... a lista é grande. Em uma escala de tempo menor, é o mesmo raciocínio que se aplica quando usamos expressões como “clássicos do rock”. São bandas que já sumiram fisicamente, mas ainda têm legiões de fãs, pois suas canções permaneceram porque ainda falam à sensibilidade de pessoas suficientes para “canonizar” uma música, um álbum, uma banda.

>>>Por que ler os clássicos?O Italo Calvino tem um livro exatamente com esse nome (Por que ler os clássicos). Ler um clássico nos mostra que, por meio da palavra – essa substância simbólica estranha, capaz de “materializar” na nossa mente o que nela entrou como simples abstração, signo arbitrário –, podemos compartilhar experiências com as quais nos identificamos ou, de efeito até mais pungente, as quais estranhamos.

Eu sou um indivíduo e, no sentido estrito do termo, sou indivisível, só posso estar comigo mesmo o tempo todo. Como sair ou ampliar esse ponto da minha vista, ou essa vista do meu ponto? Como fazer com que esse eu inevitável e que não consegue estar em vários lugares ao mesmo tempo se expanda e se (me) surpreenda? Se sou singular, como me enriquecer de pluralidades e me tornar menos limitado, menos fundamentalista, mais aberto a aprender com a experiência do outro? Isso é bastante possível com a literatura contemporânea também, não tenho dúvidas disso, mas o que impressiona no clássico é essa capacidade de não se esgotar, de ainda conseguir dizer e se reinventar em um meio com visões de mundo diferentes de quando a obra foi originalmente escrita.

A gente sabe que não apenas retiramos sentidos de um texto, mas também colocamos sentidos nossos. E o clássico é capaz de nos dar abertura para ainda nos projetarmos nele, não se apagando no tempo, mas, ao contrário, se alimentando desse tempo como um canibal que devora o inimigo para roubar-lhe as forças.

>>>Você desaconselharia ler algum tipo de livro? Por quê?Se eu fosse dar uma opinião olhando apenas a partir da minha lente, eu desaconselharia, sim. Há muita literatura que julgo ruim e nociva, que apenas reforça preconceitos, nos acomoda, nos domestica e não inquieta. A inquietação é importante para nos movermos, para movermos a roda do nosso mundo, tenha ele a amplitude que tiver.

Ninguém garante que ler os tais livros de autoajuda vá levar o leitor a dar saltos para obras mais elaboradas. Mas, assim como há bons argumentos contra ler qualquer tipo de livro, também há bons argumentos a favor. Quem disse que o meu filtro é o verdadeiro, único e real? Como posso ser pretensioso a ponto de achar que algo que não me acrescenta será lido da mesma forma por qualquer outro leitor?

Entrevistei recentemente o escritor Miguel Sanches Neto e fiz uma pergunta bem parecida. Ele usou um termo que me pareceu bastante apropriado: a frequência literária. Algumas obras atuam em uma frequência literária menor, exigem menos; outras trabalham com uma frequência maior, oferecem mais ao leitor, desde uma linguagem mais trabalhada até imagens e modos inusitados e muito renovados de ver o mundo. E ele finaliza: entre ler um livro ruim e não ler, é melhor ler um livro ruim. Isso tem a ver também com a própria atividade em si da leitura, que exige concentração em um mundo que quer nos dispersar o tempo todo. Ela nos dá reservas de solidão que nos despertam para outros diálogos, mais internos – mas que podem inclusive nos fazer reavaliar nossa relação com o mundo externo.

>>>Para aqueles que não têm hábito de leitura, como não se deixar levar pela preguiça de abrir um livro? É mais fácil começar por livros mais fáceis? Você tem alguma sugestão?Essa também é uma bela controvérsia, pois não funciona da mesma maneira com todo mundo. Eu comecei a ler por causa de leitura obrigatória na escola, na 5ª. série (fomos “obrigados” a ler 16 títulos). Para mim, foi excelente; mas sei que muitos acham que a obrigatoriedade é o caminho para a morte do leitor. E pode ser mesmo.

Pensando em questões bem práticas, há também dicas “clássicas” de como ler: um lugar bem iluminado, não muito nem pouco confortável, com um nível de barulho e ruído pequeno. Um lápis ao alcance da mão pode ser bacana, nem que seja apenas para grifar passagens bonitas, ou para pequenos comentários ao pé da página ou ainda em um caderninho de anotações, que podem servir para copiar trechos dos quais o leitor gostou ou derivar para pequenos textos, que partem do livro lido, mas que vão ganhando autonomia... e assim vai. Aos poucos, o leitor vai escrevendo também.

E insistência. Em um universo de livros que tende ao infinito, é impossível que nenhuma obra agrade. Pode acontecer de o leitor não gostar da primeira, da segunda, da terceira, mas quando encontrar um livro que o fisgue, aí vai começar a entender por que é que tanta gente fica nesse blábláblá da leitura como algo fundamental na vida. Enquanto não for fisgado, todo o entorno é mera conversa mole, parte de alguma conspiração de uma sociedade secreta cujo objetivo é chatear as pessoas com livros.

Outra coisa importante: não se curvar aos chamados clássicos só porque alguém disse que são clássicos. Mas a modéstia é outra face importante da mesma moeda: se um autor parecer incompreensível, antes de xingá-lo, vamos procurar entendê-lo. Se é considerado um clássico, algum motivo pode haver. Assim, num exercício de humildade, quem sabe não somos nós, leitores, que ainda não conseguimos a tal frequência literária que dará condições de ler aquela obra? Ler mais tarde, passados alguns anos, pode ser boa ideia, para tirar a prova. Se o leitor entender enfim qual é a do autor e da obra, aí, sim, pode ficar à vontade para amar, odiar ou mesmo ser indiferente.

Mas temos um complicador: no Brasil, nossa incapacidade de compreender enunciados básicos da Língua Portuguesa nos deixa reféns de uma imaturidade linguística que compromete demais a nossa interpretação dos textos e do mundo. Assim, o texto um pouco mais longo ou levemente retorcido leva o leitor a se afastar, a ver aquilo como algo tedioso. Como se resolve isso? Só lendo. Se uma vacina consiste, grosso modo, em injetar o próprio veneno ou vírus dentro do corpo, a dificuldade da leitura só vai ser superada com a introjeção da leitura como prática sistemática. Uma espécie de reverso da vacina: em vez de criar imunidade ao vírus da leitura, queremos perdê-la, queremos que a doença pegue.

>>>Você poderia sugerir alguns livros clássicos ou de outro estilo que possam contribuir para o hábito de ler?Há uma quantidade muito grande de títulos. Vou ficar com os autores clássicos, apenas, para não abrir demais. As tragédias gregas devem estar presentes: Édipo Rei e Antígona, de Sófocles, são bons exemplos.

As comédias são outras boas portas de entrada, pois não sei que falha na nossa formação (ou é só comigo?) associa o que é antigo a algo sério, sem senso de humor, uma vida sisuda em preto e branco. Para provar o contrário, interessante ler os surpreendentes Decameron, do Giovanni Boccaccio (mas cuidado!), Escola de mulheres, do Molière, ou mesmo, anteriormente, as peças do grego Aristófanes. Impressiona o senso de humor agudo, daquele tipo que faz jus à ideia de que “rindo, criticamos os costumes”, com o qual aprendemos a não cultivar as mesmas mesquinharias dos personagens. Lanço o desafio ao leitor: pegue uma dessas comédias e diga depois se não achou interessante.

Gosto muito dos russos, principalmente Dostoievski, que me marcou principalmente com o seu Crime e Castigo. Há uma comédia de costumes desse autor, menos conhecida, que se chama A aldeia de Stiepântchicov e seus habitantes, que é uma delícia.

Felizmente, também estamos bem servidos no Brasil. O leitor jovem deve dar uma chance ao Machado de Assis, que é nosso grande autor (ou um deles, certamente). Não se deve ler o Machado como se ele fosse impenetrável e seriíssimo. Desconfiar da sua seriedade é salutar, e um caminho para refinar a leitura e compreender a ironia, esse recurso da linguagem tão requintado quanto mal compreendido. Quando começar a perceber que ele é um grande zombeteiro, irônico e divertido, o leitor estará entrando no tal “universo machadiano”. Ler Graciliano Ramos e Guimarães Rosa me parece bem importante para entender a nossa literatura. Claro que há outros.

Mas eles exigem de nós. Essa exigência nos faz pensar em outro ponto bem importante: não podemos ter a ilusão de que ler é “puro prazer”, como se não exigisse nada da gente. Isso é muitas vezes propaganda enganosa. Como todo bom prazer, ele exige, e é isso que o faz ter uma função formativa. Então, importante colocar na cabeça: ler é uma prática que exige algum nível de esforço, concentração e disposição para enfrentar algumas matas cerradas. Mas vencer um caminho desses faz o leitor sair do outro lado com um nível de compreensão e maturidade linguística diferente daquele que consiste em atravessar um caminho fácil, simples, apenas bonitinho, que mostra o que você já sabe, já pensou, já viu.

Fazer listas é sempre uma temeridade e tem gente que fica sinceramente revoltada por pensar nas obras que ficaram de fora. Grandes autores já fizeram suas listas e foram malhados por isso. Então, por favor, esses são apenas os meus top of mind, escolhidos em 5 minutos. Cartas de repúdio, por favor, encaminhem para a redação do jornal.

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