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Conhecimento em série

Retratação de fraudes científicas aumentou 10 vezes em 40 anos

Critérios de produtividade na avaliação de pesquisadores e faculdades levantam críticas sobre os rumos e objetivos da investigação acadêmica

  • Demétrio Rocha Pereira, da Agência RBS
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O British Medical Journal discutiu em julho se fraudes na pesquisa devem resultar em prisão. A radicalidade da sugestão ecoa a crescente preocupação com a impostura científica, cujos desdobramentos não raro desembocam em escândalo. Publicada na revista Nature em janeiro, a descoberta de uma técnica para transformar células adultas em pluripotentes, capazes de se diferenciar em qualquer outro tipo de tecido, foi retratada após meses de polêmica.

Meia hora banhadas em ácido e cinco minutos em uma centrífuga induziriam as células a uma condição análoga à das células-tronco embrionárias, prontas para virar tecidos ósseo, cerebral e cardíaco, e tudo isso sem alertar o sistema imune contra invasão. Laboratórios não conseguiram reproduzir o experimento e, em abril, o instituto Riken, no Japão, acusou a líder do projeto, Haruko Obokata, de falsificação intencional. Além de mostrar “desleixo” no registro dos testes, Obokata editou imagens de DNA para que seus resultados parecessem melhores do que de fato eram.

O instituto concluiu que faltava a Obokata “não apenas a noção de ética na pesquisa, como integridade e humildade enquanto cientista”. O vexame lançou a Nature em uma revisão dos procedimentos para aceitação de artigos “para garantir que as verbas governamentais não sejam desperdiçadas e a confiança dos cidadãos na ciência não seja traída”.

Mas o problema pode ser menos particular do que o instituto e a revista sugerem. De acordo com pesquisadores da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, a retratação de artigos fraudulentos aumentou em 10 vezes desde 1975.

Pressão

“Por quê? É mais fácil achar desvios em meio eletrônico, mas a pressão também aumentou para que os pesquisadores publiquem rapidamente e com o maior impacto possível para garantir financiamento e promoções. Agora temos um indexador individual de produtividade que não escapa a empregadores e comitês de promoção”, aponta Julian Crane, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, ao fundamentar a sua rejeição à criminalização das fraudes.

No ano passado, o americano John Bohannon mostrou na Science o que ocorreu quando ele enviou um artigo sem pé nem cabeça para 304 revistas científicas: 157 delas aceitaram. Assinado por um autor fictício de nome estapafúrdio (Ocorrafoo Cobange), o trabalho vinha de uma universidade que também está para ser achada no mundo real: o Wassee Institute of Medicine, sediado em Asmara, não existe fora da imaginação de Bohannon.

“Revistas científicas de acesso aberto se expandiram a uma indústria global, movida por taxas para publicação em vez de inscrições tradicionais”, explicou Bohannon.

Por aqui

No Brasil, de olho em alavancar o seu “fator de impacto” (F.I., baseado na quantidade de citações de artigos publicados nos periódicos), quatro revistas científicas foram enquadradas no ano passado em um esquema de “citação cruzada”: uma cita a outra, que cita a próxima, e assim sucessivamente, até que todas pareçam muitíssimo relevantes. O quarteto ficou de castigo: F.I. suspenso por um ano.

Editor da Clinics, Maurício Rocha e Silva foi afastado do cargo, alegando em entrevista à Nature que o esquema derivou da frustração com os critérios da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, cujas políticas de ranqueamento baseadas no F.I. dificultariam o crescimento de revistas pequenas ou recém-lançadas, sempre preteridas pelos pesquisadores.

(Des)prestígio político

A chanceler alemã Angela Merkel já perdeu dois ministros enredados em acusações de plágio. Em 2011, o então dono da pasta da Defesa Karl-Theodor zu Guttenberg renunciou quando acharam 130 páginas suspeitas em sua tese de doutorado em Direito. Já a ex-ministra da Educação Anette Schavan pediu demissão em fevereiro do ano passado, após acusações de plágio levarem à cassação do seu diploma de doutorado pela Universidade de Dusseldorf.

Mais recentemente, em abril, o ministro de Cooperação e Desenvolvimento, Gerd Müller, sofreu nas mãos do “caçador de plágios” Martin Heidingsfelder, que foi buscar em uma tese de 25 anos atrás evidências de que Müller se valeu de ideias alheias para emplacar o seu trabalho na Universidade de Regensburgo.

Se os teutônicos não perdoam a gambiarra científica, na Rússia, um título de doutor é tão solene que, no afã de alcançar tal prestígio, deputados, procuradores, ministros e até um sacerdote já estiveram entre os suspeitos de plágio. Não à toa, há russos de espírito “detetivesco” dedicando seus dias a rastrear artigos assinados por políticos e celebridades.

Após investigação de poucos meses, o grupo Dissernet revelou cerca de mil teses de famosos que, em alguns casos, sequer haviam lido o que assinaram. O governador da região de Tula, Vladimir Gruzdev, foi acusado de copiar praticamente todas as 182 páginas de sua tese, reservando-se o pudor de tirar do próprio tino uma introdução e um título.

Uma petição on-line reuniu milhares de assinaturas contra o advogado Pavel Astakhov, delegado do Kremlin para os Direitos das Crianças, acusado de copiar textos sem citar a fonte. O blogueiro Viktor Levanov, munido do sistema Antiplagiat, farejou quase 20% de frases roubadas em uma monografia da secretária de Estado e vice-ministra da Educação, Natália Tretiak. Não ficou barato nem para o reitor da Universidade Pública de Volvogrado, Oleg Inshakov, que teria copiado quase 6% do texto que culminou em um trabalho sobre gestão de crise com o uso da tecnologia. Causou surpresa aos russos, portanto, quando o Antiplagiat descobriu que uma tese do ministro da Educação, Dmítri Livanov, era completamente original.

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