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Zona de guerra: como as escolas do Rio lidam com os conflitos armados

Interrupção das aulas por causa da violência virou rotina na cidade; professores e alunos são ensinados a como agir em caso de tiroteio

  • Maurício Brum, especial para a Gazeta do Povo
 | MONICA ANDRADEFÁBIO MOTTA
MONICA ANDRADEFÁBIO MOTTA
 
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A violência que levou à ocupação militar da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, no final de setembro, também trouxe à tona outra questão: o peso que a rotina de conflitos traz aos estudantes que precisam conviver com essas situações. 

Na semana em que o Exército esteve na Rocinha, o temor de tiroteios fez com que escolas da favela e dos arredores, no bairro da Gávea, cancelassem as aulas por vários dias, temendo tiroteios. Embora tenha sido o caso mais chamativo, estava longe de ser um episódio isolado. 

As estatísticas cariocas são alarmantes. Até 9 de outubro, as escolas públicas localizadas no município do Rio de Janeiro haviam contabilizado 153 dias letivos neste ano – desse total, em apenas nove dias (menos de 6% do total) a rede registrou funcionamento integral de suas unidades. Em todos os outros, pelo menos uma escola carioca precisou permanecer fechada e perdeu um ou mais dias de aula. A razão número um para essas suspensões é a violência urbana. 

Segundo dados da Secretaria Municipal de Educação do Rio, 439 unidades (escolas municipais, estaduais e creches públicas) já foram obrigadas a fechar as portas ao menos uma vez em 2017, afetando um total estimado em 157.920 alunos até o momento. A maioria das escolas prejudicadas se localiza nas Zonas Norte e Oeste da cidade, com os bairros de Costa Barros, Acari e Cidade de Deus concentrando o maior número de unidades de ensino à mercê da violência. 

Riscos cognitivos 

Quando os conflitos passam a afetar a rotina escolar – e a vida dos alunos que residem na própria região de risco –, os estudantes não são prejudicados somente pela interrupção das atividades. “Quanto mais próximo das crianças é o ato violento, maior a probabilidade de que elas apresentem sintomas negativos advindos desta exposição”, diz um estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP/FGV), publicado em julho com o título “Estudo em alvo: os efeitos da violência armada nas salas de aula”. 

Ainda de acordo com a análise da FGV, “existem registros comparativos que relacionam o desempenho das mesmas crianças antes e depois da exposição à violência e que apresentam indícios de alteração de capacidade de concentração e de controle emocional no período pós exposição”. 

Em situações como a das escolas em áreas conflagradas do Rio, crianças e adolescentes podem desenvolver comportamentos similares ao do transtorno de estresse pós-traumático, que “afetam processos cognitivos, como a memória, a capacidade de manter atenção, de planejamento e de resolução de problemas”, afirma o documento. 

Zonas de conflito 

A reportagem procurou contato com escolas localizadas em áreas consideradas de risco no Rio de Janeiro. Em geral, prevaleceu o medo entre diretores e funcionários ouvidos pela Gazeta do Povo. “Nós não podemos falar sem autorização da Coordenadoria (Regional de Educação). E também não é interessante para nós, por estarmos em uma zona de risco, sair dando entrevistas”, admitiu extraoficialmente uma funcionária de uma escola nas imediações da Rocinha, com a condição de permanecer anônima. 

“Aqui a gente não sofre tanto com a violência. Ela também aparece, mas é muito mais séria ‘lá dentro’”, disse uma funcionária de uma instituição de ensino da Cidade de Deus, também em caráter extraoficial. Sem autorização para falar, as escolas do Rio de Janeiro invariavelmente se reportaram às Coordenadorias Regionais de Educação, que por sua vez repassaram a responsabilidade de atendimento à imprensa para a Secretaria Municipal de Educação. 

Gazeta do Povo solicitou à Secretaria autorização para a realização de entrevistas com representantes de escolas localizadas em zonas de conflito, mas, até o fechamento desta reportagem, não havia recebido retorno.  

Busca por soluções 

Não é possível dissociar os problemas que afetam as escolas cariocas das questões mais amplas de violência urbana que afetam a cidade como um todo. Mas, em busca de medidas paliativas, o governo do Rio de Janeiro vem mantendo um canal de diálogo constante entre as Secretarias de Segurança Pública e de Educação. 

Uma das iniciativas já tomadas foi a adoção de uma normativa segundo a qual a Polícia Militar deve evitar realizar incursões nas favelas nos horários de entrada e saída dos alunos das escolas. 

A violência, porém, não tem hora certa para acontecer. Em outros momentos do dia, os alunos também podem se tornar vítimas colaterais da guerra do tráfico. No início do ano, a estudante Maria Eduarda, de 13 anos, foi morta no pátio da Escola Municipal Jornalista Daniel Piza, em Acari, na Zona Norte do Rio. Maria Eduarda estava na aula de Educação Física quando foi atingida por três disparos saídos da arma de um PM, durante troca de tiros com bandidos. 

Treinamento de guerra para professores 

Aulas interrompidas por tiroteios e alunos buscando refúgio são cenas que se repetem nas escolas de zonas conflagradas. Além das lições típicas de sala de aula, as turmas também já conhecem ao pé da letra as instruções para colocar a mochila nas costas e se sentar nos corredores caso ouçam barulhos de disparos – por ficar normalmente longe das janelas, trata-se do local mais protegido do prédio. 

Para saber como lidar melhor com essas situações, cerca de quarenta professores da rede pública do Rio de Janeiro receberam treinamento específico da Cruz Vermelha Internacional no último mês de julho. A ideia era que os profissionais depois atuassem como “multiplicadores” do conhecimento, transmitindo as orientações a outros educadores, funcionários e alunos. 

Oferecido até mesmo em zonas de guerra, o curso já havia sido dado em países como Líbano, Honduras, Ucrânia e Colômbia, e ensinou os professores maneiras mais efetivas de retirar as crianças com segurança das áreas mais perigosas do colégio.

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