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Alexandre Mazzo / Gazeta do Povo

Alexandre Mazzo / Gazeta do Povo /
Fernanda Magalhes

Uma mulher gorda e nua

Quando criana, a obesa Fernanda sofria a fria dos colegas. Em casa, provava doses espetaculares de afeto vindas do pai criativo. A experincia da excluso e da inveno, juntas, formaram nela uma qumica explosiva

14/08/2011 | 00:08 |
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A fotgrafa londrinense Fernanda Magalhes tem 48 anos e 115 quilos. Seu manequim 56. E esses dados todos que qualquer mulher confidenciaria apenas numa reportagem sobre como perdeu meia tonelada saem de sua boca com a naturalidade de quem d bom dia. H mesmo quem se sinta ultrajado com sua franqueza, de endcrinos a cultores da magreza de passarela.


Fernanda sempre foi gorda. Padeceu os infernos por causa disso, at retratar o prprio corpo, em meados da dcada de 1990, produzindo o que j pode ser chamado de um clssico das artes visuais no Brasil a srie A Representao da mulher gorda e nua na fotografia.

Prova disso que mesmo sendo dona de um respeitvel catlogo artstico, continua sendo convidada a expor e a falar sobre as imagens que a apresentaram ao circuito de arte, ganhando mostras em incontveis pontos do planeta, de Miraflores no Peru Finlndia. Em outubro deste ano, por exemplo, a mulher gorda ser mostrada no respeitvel Maison Europenne de la Photografie, em Paris. Mas continuo uma maldita. Ningum quer ter uma imagem dessas em cima do sof, brinca a artista.

Magalhes vive numa pequena chcara nos arredores da cidade onde nasceu. professora doutora da Universidade Estadual de Londrina e se integra ao rol de pesquisadores brasileiros que fazem dos estudos de gnero um sopro de vida em meio ao mofo acadmico.

Na entrevista que segue, dada em sua casa, falou do pai, o ativista cultural Vilela, sua maior influncia; de cncer; cirurgia baritrica e, claro, de como a menina que corria dos colegas que a chamavam de baleia fez de um trauma infantil um contundente discurso libertrio. A gordura transgressora, provoca.

Voc sempre foi gorda?

Redondinha. Arredondada. Nada muito absurdo, assim como minha famlia inteira, do pai e do lado de me.

E na escola?

Na escola tinha essa coisa de chamar de gorda baleia saco de areia. Corriam atrs de mim nas ruas...

Nas ruas?

Sim, naquela brincadeira de bola queimada. Gritavam pega a baleia, pega o saco de areia... Na escola j havia discriminao, tudo muito velado, mas que se manifestava nas brincadeiras em grupo quando me chamavam de gorda baleia saco de areia e coisas assim. Isso era bullying, mas naquela poca no tinha este nome.

Como voc reagia?

Meu mecanismo era no ligar. Eu sofria excluso, horrores. Muitas meninas no andavam comigo. Com o tempo, fiquei passiva. Cheguei ao extremo de nem perceber o que acontecia. Mais tarde, explodiu.

Quando foi?

Em 1993, fui morar no Rio de Janeiro. L comecei a recuperar essas dores...

Numa temporada de estudos, isso...

Sim. quela altura, eu j fotografava pessoas nuas. Mas no Rio havia aquele culto s formas, ao corpo perfeito. Aquilo me pegava. At que num curso, em Niteri, o Pedro Vasques pediu que fizssemos um ensaio fotogrfico bem pessoal, um autorretrato. Foi a partir deste primeiro autorretrato que fui entendendo todas estas questes que estavam dentro de mim. Elas extravasaram ali.

E o que acontecia?

Existia uma vergonha em relao ao corpo e em expor os sentimentos deste corpo. Este era um assunto tabu, falar de gordura significava falar de dietas. O primeiro autorretrato foi uma forma de gritar: Oi, eu existo. Essa sou eu. Sou assim. E a? Tenho de ser excluda da sociedade porque tenho essa forma?

Fale sobre o autorretrato...

Foi um processo, fiz as fotos nua, mas no foi fcil encarar o corpo nu, as curvas e dobras. As imagens me incomodavam e resolvi recortar, retirar partes, fragmentar este corpo e guardava todos estes recortes numa caixinha. Depois, fui juntando as partes recortadas com fundos, papis coloridos e fragmentos de minhas memrias na cidade do Rio, como passagens de nibus, recortes de jornais e papis de bala. Minha tentativa era de construir novas representaes para este corpo e esta srie acabou me levando srie A Representao da Mulher Gorda Nua na Fotografia.

... um trabalho que lanou voc no circuito das artes. Foi bom?

Mulher gorda e nua... houve uma curiosidade, claro. Mas meu circuito era o alternativo. No tenho galeria em So Paulo. Praticamente no vendo meu trabalho ou vendo muito pouco. Quem que vai querer colocar uma foto de uma mulher nua, gorda, em cima do sof? Quase ningum, com exceo de poucos interessados ou alguns colecionadores. J participei do Panorama da Arte Brasileira, e outras exposies importantes, mas nunca estive numa Bienal. Vou expor em Paris em outubro, mas acho que de alguma forma continuo maldita.

Fernanda, mas o que no lhe falta reconhecimento...

Sim, tenho tido um retorno enorme, primeiro do pblico que vai s exposies, o que sempre me emociona muito, e agora todos falam do trabalho como inovador, transgressor, corajoso e maduro. Enfim assimilam o trabalho. Tem horas que fico me perguntando como persisti tanto, j so 18 anos de produo.

As fotos da Fernanda gorda e nua no acabaram reduzindo sua produo a um tema?

O tema no me prendeu, me libertou. E libertou muita gente. Minha produo toca feridas. A crtica de arte pode at, em alguns casos, no gostar muito do que fao. J no posso dizer o mesmo das pessoas que vo s exposies. Muitas mulheres me agradecem, dizem que passaram a se dar o direito de pr um biquni na piscina. Alm do mais, extrapolei a obesidade e passei a pensar na mulher, em gnero, em diversidade. A obesidade acabou se tornando para mim uma questo poltica. Fiz o doutorado abordando estes assuntos com a produo de um trabalho performtico, visual e reflexivo. Me interessa saber por que estamos correndo atrs de um corpo idealizado. Tem a ver com controle e poder. Todos sofrem com esta ditadura, todos os corpos, as mulheres magras e as gordas. E para alm destes trabalhos tenho ainda outras tantas produes que dialogam com minhas propostas, mas expandem para outras novas reflexes.

At os magras sofrem...

Sofrem. O corpo perfeito, no existe. Aquele corpo que a gente considera na medida j passou, sei l, por 19 cirurgias. Nos quase 20 anos em que lido com isso acabei fazendo muitas conferncias, palestras, bate-papo. Ouo depoimentos pesados. H meninas lindas com compulso por cirurgias. Nunca se sentem no padro ditado pela publicidade e pela moda. Correm atrs de um corpo cada vez mais plstico e infantil.

Voc j pensou em reduzir o estmago?

Penso sempre, como uma forma de no ficar fechada em conceitos, tenho necessidade de refletir sobre todas as possibilidades, mas sei que eu nunca vou me submeter reduo do estomago. Para mim no a soluo, porque eu no preciso de soluo. Meu corpo esse. Os mdicos podem dizer que tenho corpo fora do padro. Bom, uma multido est fora do padro, n.

Em que voc contra a cirurgia?

No sou contra qualquer tipo de cirurgia. Sou contra o excesso de consumo. Contra a manipulao. Contra a iluso que essa interveno cria. Tenho visto o descontentamento de muita gente que fez reduo de estmago. J ouvi coisas do gnero: Eu odeio meu corpo. No ficou como eu queria... Conheo uma ou outra pessoa que se deram muito bem com a cirurgia. Uma amiga recuperou a autoestima. Mas existem casos terrveis como pessoas que comearam a beber muito ou que entraram em estados depressivos, alm de pessoas que desenvolveram outras doenas a partir da cirurgia baritrica. H muitos casos terrveis e alguns felizes. necessrio um tratamento e acompanhamento srio anterior a cirurgia e aps ela tambm.

Os mdicos no devem morrer de amores por voc...

Recebi muitas ameaas de endcrinos. Eles me mandavam recados, dizendo: Voc est fazendo um desfavor sociedade.

Voc se sente bonita?

Como qualquer pessoa, em alguns dias me sinto bonita e em outros no. Tem dias em que me arrumo, me sinto linda. Noutros, me sinto pssima. A questo est relacionada ao seu bem-estar interior. A beleza no est na superfcie, no adianta ficar buscando um corpo idealizado, pois ele no existe. importante aceitar seu corpo, gostar e cuidar dele. Eu me alimento naturalmente, fao minhas atividades fsicas e h anos no tomo refrigerantes. Claro que gostaria de ficar com uns quilos a menos, mas nada muito radical. Afinal, adoro danar e criar um visual diferente.

A quem voc deve a pessoa que ?

Ao meu pai e minha me. Meu pai, Antnio Vilela de Magalhes, o Vilela, foi meu primeiro professor. Quanto eu tinha 6 anos, ele me levou para conhecer um laboratrio fotogrfico. Me encantei. Disse que quando crescesse ia ser fotgrafa e ganhei uma Polaroid enorme. E tinha o cinema. Lembro que ele fazia brincadeiras com filmagens.

Como era seu pai?

Ele se apresentava como jornalista, mas em So Paulo fez teatro e trabalhou na Editora Melhoramentos, tinha uma ligao muito forte com livros. J em Londrina teve vrias livrarias e uma tipografia e cresci no meio disso tudo. Sempre digo que ele era um artista. Amava todas as artes. Era escritor. Fotografava. Fazia cinema. Fazia teatro e montou o primeiro grupo de Londrina. Digo que sempre foi mltiplo. Nele, isso era natural.

Dois trabalhos seus com lenis Impresso da Memria e o Corpo em Reconstruo teriam nascido de uma situao com seu pai. Como foi isso?

Ele trabalhava muito. Quando chegava em casa, queramos que lesse gibi para ns, mas estava cansado. Como era uma pessoa bem divertida, dava caneta para a gente desenhar nas costas dele, que eram largas. A brincadeira funcionava como uma massagem e meu pai adormecia. Como suava muito, e dormia sem camisa, os desenhos ficavam impressos no lenol. Contei essa histria para a poeta e jornalista Karen Debrtolis, e a partir desta conversa tivemos, juntas, a ideia do projeto Impresses da Memria, que foi uma construo de poemas visuais atravs de desenhos e palavras escritas no corpo e impressos em lenis e com fotografias deste corpo desenhado.

E sua me?

Minha me foi fundamental. A pesquisadora Margareth Rago foi quem me apontou uma importante relao do meu trabalho com minha me. Minha me uma guerreira, sempre com os ps no cho ela crtica, persistente e incansvel. Ela foi muito importante nas relaes que discuto sobre gnero e devo a ela minha persistncia com o trabalho.

Podemos falar do cncer?

Eu tive um cncer no tero em 2003. Provei o caos da doena. Precisava de algum at para me dar banho. Tive muito apoio e pessoas essenciais estiveram perto de mim. No hospital a visita do Planto Sorriso, as enfermeiras, minha me, os amigos, amores e uma tia querida que foi no hospital me ajudar a fazer o primeiro pum [risos]. Difcil falar disso. Mas foi o que me deu fora para lutar. Me senti amada. E acho que disso que meu trabalho fala. precisa do afeto para construir um corpo coletivo. Cada um me doou uma parte do seu corpo um brao, uma perna... Foi o que me deu fora para lutar. Me senti amada. disso que meu trabalho fala o entendimento de que necessrio o afeto do outro para uma reconstruo.

E o cncer virou performance...

A experincia me levou ao trabalho Corpo re-Construo Ao Ritual Performance. Nele desenvolvi a ideia de que precisamos do outro para nos refazer. Passei a convidar pessoas para participar de performances pblicas. Cada um imprime suas lembranas sobre lenis, alm de outros registros realizados durante as aes como fotografias, vdeos, desenhos, gravuras e paisagens sonoras. Cada um doa parte de seus corpos para serem impressos como braos, pernas, faces, cabelos, cotovelos, peitos e outros. Tenho realizado este trabalho em vrias cidades.

Por que voc permaneceu em Londrina?

Meu pai morreu cedo. A gente teve de ir luta. E aqui eu tinha meu espao. Fui algumas vezes para estudar, mas sempre voltei. Londrina minha cidade. Hoje estar no interior favorvel, no significa mais estar fora dos circuitos. Nas ltimas dcadas os olhares foram se voltando para o que realizado fora dos grandes centros.

Sua casa linda...

Pois , minha famlia nunca morou nessa chcara. Em 2000, decidi me mudar. Tinha motivos: passei minha infncia vindo a esse lugar. Era longe da cidade. Para chegar, tinha de atravessar no meio dos eucaliptos, descer a p. Quando meu pai morreu, resolvi reformar o barraco onde ele guardou os maquinrios da tipografia, depois de desmontada, e outras tantas memrias e aqui montei meu ateli.

Esse lugar seu espelho?

Sim, essa casa meu maior trabalho, como uma grande instalao.


Colaborao e edio de Jos Carlos Fernandes.

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