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Diário de bordo

Dá licença?

Apertamentos, concentração populacional próximo às catracas e negociação de espaço na linha que liga a Rui Barbosa à Fazendinha

  • Mozart Artmann
 |
 
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TOPO

A extensa fila no ponto de ônibus da Praça Rui Barbosa com destino à Fazendinha indica que muita gente vai ficar em pé. Para animar, um sanfoneiro cobra couvert artístico opcional de R$ 0,50. Assim que o coletivo abre a porta dianteira, os primeiros passageiros correm para sentar sozinhos nos bancos individuais, enquanto os demais se dirigem ao fundo, afinal, ainda tem muita gente na fila. Os últimos, mesmo com muito espaço na parte traseira, param de andar depois de passar pela catraca ou na primeira porta de saída, como se ninguém fosse mais entrar.

A “turma da catraca” está sempre presente nos coletivos. Após passar a roleta, o ônibus parece lotado, mas na verdade o fundo está vazio. Na viagem Rui Barbosa – Fazendinha o grupo é formado graças a um pedido de licença reprimido. Na terceira parada, um casal se junta a uma moça na primeira porta de saída. Já havia um homem na altura da porta, mas virado para o lado oposto. As quatro pessoas impediram a locomoção de duas novas passageiras. Em vez de pedir licença, as moças ficam por ali. Os seis formaram a primeira “turma da catraca” da viagem.

As pessoas entre a catraca e a primeira porta de saída são as principais responsáveis por uma situação comum e desconfortável nos ônibus – o esbarramento. É o que pensa a estudante Luana Wesler. “Não tem o que fazer, eles são em tantos que não dá pra pedir licença. Tem que passar esbarrando em todos pra ir pro fundo”.

Não é só a 'turma da catraca' que gosta de evitar a passagem dos outros. Há quem, na falta de cadeira individual, tente ficar com uma dupla só para si. No percurso até o Fazendinha, dois amigos conversam freneticamente em um banco duplo. O da janela levanta, despede-se e desce. O outro, ciente que havia muita gente em pé, fica imóvel na cadeira do corredor, olhando fixamente para frente. Parece que nada fará aquele senhor desviar o olhar para a moça que o seca de maneira obsessiva, como quem pede licença em silêncio. Ao perceber que a estratégia não funciona, a mulher dá meio passo à frente e mexe a boca dizendo algo totalmente ininteligível. Basta: o homem também fala a língua do ônibus e se muda para a cadeira da janela.

Na volta, Fazendinha – Rui Barbosa, uma senhora senta na cadeira do corredor de um banco duplo preferencial. Outra idosa entra e fica em pé, ao lado. Uma não pede licença e a outra finge que não a viu.

Por fim, a situação que o curitibano mais teme: sentar no banco de costas, aquele que viaja “ao contrário”. “Prefiro até ficar de pé. É esquisito ter que encarar um desconhecido, fica um clima muito estranho”, explica a diarista Marilise Peres.

No Rui Barbosa – Fazendinha, há dois bancos desse tipo. Os quatro envolvidos na situação olham fixamente para a janela, parecendo estar com torcicolo. Só olham para o outro lado quando as portas se abrem. Observam quem desce e, tomando todo o cuidado para não trocar olhares com a pessoa da frente, viram novamente o pescoço em direção à janela.

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