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Crônica de viagem

Quando o vidro fala

Repórter registra e tenta decifrar inscrições feitas com estilete e pedra nas vidraças dos ônibus urbanos

  • Gisele Eberspächer
Marca na janela de um dos veículos da linha Santa Cândida-Capão Raso: a paisagem muda, a inscrição não |
Marca na janela de um dos veículos da linha Santa Cândida-Capão Raso: a paisagem muda, a inscrição não
 
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São 2,3 milhões de passageiros usando o sistema de transporte público de Curitiba por dia útil. Muitos são apenas levados, outros vão dormindo. Uma parte é gentil, enquanto outra acordou com o pé esquerdo. Algumas leem, algumas outras ouvem música. Há ainda os que riscam os vidros.

Cerca de 35 mil vidros são usados para cobrir toda a frota da cidade. Desses, 11 mil têm uma “voz” diferente. Alguns têm riscos e siglas indecifráveis – outros parecem ser um grito. “Febre”, diz um deles; “sono”, diz um mais murchinho. Outro parece buscar uma solução – “God”; e um outro não sabe onde está, “lost”.

Passei algumas horas dentro de ônibus da linha Santa Cândida-Capão Raso tentando ver/ouvir o que me diziam. Troquei de ônibus em boa parte dos tubos (e peço desculpas caso você tenha se encontrado comigo no dia 21 de março – eu era a odiosa pessoa descendo pela porta três), procurando discursos deixados nos vidros.

Não consegui entender todos eles. Tentei pensar em significados para algumas siglas: será que LDRS quer dizer “leu demais riu sozinho”? Provavelmente não. “Neck” quer dizer pescoço ou é também uma sigla? Talvez o VL seja o mais conhecido “vida loka”.

Alguns outros vidros são uma polifônica discussão, com palavras escritas por cima de siglas por cima de desenhos por cima de rabiscos. Uma sobreposição confusa de se entender e é difícil distinguir apenas um em tamanha multidão.

Alguns olhares mais atentos vão conseguir ver esse tipo de vandalismo como um fenômeno urbano. Enquanto o ônibus cruza os bairros Santa Cândida, Boa Vista, Cabral, e Centro, o Portão e o Capão Raso, as palavras se misturam com uma cena urbana que muda ao longo do caminho. O “lost” permanece, independente se se está no Colégio Estadual, no Passeio Público, na Santos Andrade, na Praça do Japão ou em qualquer um dos cinco shoppings do percurso. É uma espécie de identidade da cidade que flutua.

Os riscos podem ser feitos de diferentes maneiras, como pedras, estiletes e cantinhos afiados de chaves. A ação pode ser tão rápida que é difícil conseguir fazer algo para impedir. A troca de todos os vidros danificados custaria hoje para a Urbs cerca de R$ 2,8 milhões – a mesma quantidade de dinheiro recebida pela empresa durante dez horas de funcionamento.

Passei metade desse tempo na linha que liga os extremos da cidade. Vi uma moça perder o ônibus por estar dormindo. Vi uma senhora lendo a revista Caras enquanto outras cinco tentavam espiar as fotos. Conheci um ilusionista que treinava movimentos de cartas de baralho encostado na sanfona do veículo para passar o tempo. Mas não consegui ver ninguém riscando os vidros.

Mesmo sem saber quem é, não consigo deixar de me preocupar com a pessoa que escreveu uma pequena palavra, não no vidro, mas na borracha preta que o prende na estrutura do ônibus: dor.

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