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A gerente de futebol do Grecal, Katiúscia Nascimento, 28 anos, promete se especializar na função para erguer o clube de Campo Largo |
A gerente de futebol do Grecal, Katiúscia Nascimento, 28 anos, promete se especializar na função para erguer o clube de Campo Largo
Série Prata

Aventura na Segundinha

Grecal, de Campo Largo, fecha a divisão de acesso com indesejável trajetória de erros. “Mas de cabeça erguida”, avisa a ex-secretária e hoje chefona do futebol

Texto publicado na edição impressa de 15 de julho de 2012

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O currículo apontava como experiências profissionais arbitragem e assessoria de im­­prensa no ramo musical. Credenciais bem mais do que suficientes para a função de secretária. O que Katiúscia Nascimento, de 28 anos, não esperava era a promoção que viria com apenas um mês de trabalho: assumir a gerência de futebol do clube.

A ascensão relâmpago ao cargo da moda no organogra­ma do futebol brasileiro atual é só um capítulo da mais conturbada trajetória da Série Prata em 2012, a Segun­­dinha regional.

O Grecal – Grêmio Re­­crea­­tivo Esportivo Campo Largo – entra em campo pela última vez hoje, às 15 ho­­ras, em Londrina, contra o Junior Team. Ponto final de uma caminhada que passou por quatro casas diferentes, sempre colecionando prejuí­zo, maus resultados e perda de atletas.

Matematicamente, a equipe está rebaixada – a campanha é de 2 vitórias, 2 empates e 13 derrotas.

O projeto não previa tanta dificuldade. Promovida da Terceira Divisão, a pequena agremiação esperava tirar proveito da 14.ª maior economia do estado, captando investimentos da prefeitura de Campo Largo e de grandes empresas instaladas no município. A ideia era gastar R$ 600 mil para levar o time à elite estadual. O apoio esperado não veio e logo as dificuldades chegaram ao gramado.

“Fui para montar um time e acabei tendo de montar um clube de futebol. Es­­trearíamos numa terça que era feriado [1.º de maio] e às 17 horas da sexta anterior não tínhamos nenhum jogador inscrito. Armei uma equipe, testei nos amistosos e, em cima da hora, tive de mudar tudo”, diz Ricardo Pinto, primeiro técnico do Grecal na temporada, anterior à ascensão da gerente.

O ex-goleiro lista outras dificuldades. A sede do clube é em Campo Largo, mas os treinos eram em Balsa Nova, município vizinho, integrante da Grande Curitiba. Faltava material esportivo. O próprio Ricardo teve de recorrer a um amigo para conseguir bola. Ninguém lembrou de reservar um ônibus e a equipe quase perdeu o primeiro jogo como mandante em Paranaguá por W.O.

“Se fazendo tudo certo às vezes você perde, imagine fazendo tudo errado. Era uma equipe amadora jogando campeonato profissional”, desabafa o treinador, que recebeu apenas a primeira das três parcelas do acerto que fez para o pagamento do salário atrasado. “Me decepcionei muito e resolvi dar um tempo no futebol”, diz.

A diretoria repassa a culpa para a falta de investimen­tos e para a Federação. “O Pa­­raná foi claramente favorecido na tabela. A Federação só cobra taxa e exige demais. Não poder jogar no nos­­so estádio é consequência dessa exigência excessi­­va”, reclama o presidente do Conselho Deliberativo, Adil­­son José Mazzon.

O orçamento rapidamente se adaptou à realidade.

A projeção inicial de R$ 600 mil baixou para R$ 450 mil, bancados pelo próprio clube, o Supermercado Dipp (fornece alimentação) e a Multiseg Vigilâncias. A folha salarial baixou de R$ 50 mil para R$ 21 mil. Dinheiro gasto com um elenco mais barato e menor.

Hoje, o técnico Sérgio Ser­­rano tem 18 atletas à disposição, todos com no máximo 22 anos. Apenas cinco estão no clube desde o início da campanha. Sem gente para fazer um coletivo, o treinador investe em trabalhos táticos e de fundamento. Serrano se gaba de ter implantado a linha dura em um grupo que vinha definhando.

“Chegamos para organizar. Era jogador indo pra noite, querendo brigar no vestiário. Só queriam saber de piscina, musculação e balada. Não adianta meter um brinquinho, cabelinho de Neymar e achar que é joga­­dor”, diz o técnico, que trabalha com o elenco em Cornélio Procópio, de olho em uma parceria para disputar a Ter­­ceira Divisão por Santa Mariana.

Para economizar com deslocamento, o jogo com o Cascavel, o último como mandante, foi marcado para Rolândia. Outra luz pode vir da recém-firmada parceria com o empresário Gil Baiano, ex-lateral do Paraná e da seleção brasileira.

Depois de tantas dificuldades, sair da Segunda Divisão com emprego garantido equivale a uma redenção.

“Sofri muito preconceito desde quando era árbitra. Sempre falo para os jogadores que sofrer mais do que eu sofri eles não vão. É preciso terminar de cabeça erguida para abrir novas portas na carreira. O sonho não pode acabar”, diz Katiúscia, que pretende fazer cursos de especialização na nova função para, no ano que vem, comandar o Grecal em uma campanha mais vitoriosa.

Será na Terceirona.

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