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Albari Rosa/Gazeta do Povo / Ginasta treina no projeto da CBG e da Caixa, em Curitiba: parceria substitui em partes falta de apoio nas escolas Ginasta treina no projeto da CBG e da Caixa, em Curitiba: parceria substitui em partes falta de apoio nas escolas
Formação

O esporte ficou de segunda época

Descaso com a escola é apontado como a principal razão para o Brasil não ser eficiente na captação e desenvolvimento de atletas

Publicado em 09/11/2008 | Marcio Reinecken

No jornalismo, há uma maneira simples de descobrir se o assunto que está sendo tratado é realmente importante: quando todos os entrevistados param o que estão fazendo para responder os questionamentos do repórter. Esse é o caso da formação e captação de atletas no Brasil. O tema voltou à tona com tudo após o desempenho brasileiro nos Jogos de Pequim. E ganha mais força à medida que a candidatura do país a sede da Olimpíada de 2016 avança. Afinal, a grande maioria da delegação para a futura competição ainda nem sabe se será atleta daqui oito anos.

Pior é imaginar que, se a política e o planejamento para o esporte de base no país continuarem como estão, muitos dos que hoje são promessas anônimas de medalhas para o Brasil nem mesmo chegarão a saber de seu potencial. Deverão estar nas mais diversas funções profissionais. Mais provável que assistam a tudo da arquibancada ou sentados no sofá. É triste, mas é verdade.

Educação Física voltada para a saúde faz esporte perder terreno

“Se você comparar os índices de hoje dos jogos escolares com os dos anos 80, todos são piores.” A afirmação de Lars Grael serve bem para exemplificar como anda a parceria educação-esporte no país. Faz alguns anos que a educação física nas escolas deixou de priorizar a prática de modalidades esportivas.

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Parceria com iniciativa privada ameniza falta de projeto na escola

Enquanto as pastas de Educação e Esporte não se acertam, os novos atletas brasileiros vão surgindo, na maioria das vezes, por sorte, ou ações individuais das confederações em parceria com a iniciativa privada. Volêi, ginástica e atletismo são exemplos que começam a dar resultados satisfatórios, embora não ideais.

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“A gente engatinha. Temos focado muito no alto rendimento sem se preocupar com a base. E, assim, daqui oito anos corremos o risco de não ter mais ninguém (de alto nível) para competir”, afirma a ex-jogadora de basquete Paula, atual coordenadora de gestão de Esportes de Alto Rendimento da prefeietura de São Paulo. “Por isso, do jeito que está, não sou a favor de uma Olimpíada no Brasil. Seria se tivessem um programa de longo prazo para o esporte. Mas não têm.”

Magic Paula puxa um coro quase unânime também quando sugere a solução para o problema: as escolas do ensino fundamental e médio. A lógica é simples. É na escola que a criança e o adolescente deveriam ter maior contato com o esporte. Assim, lá seria o local natural para brotar talentos esportivos.

“O Brasil é um país tão diferente que não precisa de projetos para identificação de talentos. Isso é coisa para país pequeno. O que temos é que melhorar a educação física nas escolas, realizar programas comunitários. Dessa forma, novos atletas com potencial aparecerão naturalmente”, explica o professor Manuel Tubino, ex-presidente do extinto Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto e um dos maiores especialistas na área. Ele cita como exemplo desse fenômeno o aparecimento do medalha de ouro Joaquim Cruz para o atletismo, nos anos 80. “Ele jogava basquete na escola, pois era alto. Mas como tinha passadas longas, foi levado ao atletismo.”

É aí, contudo, que está o grande problema. No Brasil, educação e esporte são coisas bem separadas e cada vez mais com propósitos divergentes. Mesmo com o retorno dos jogos escolares nacionais, o caminho das duas pastas continua tão distante que, para se ter uma idéia, não é nem uma nem outra que coordena o projeto de integração. A Olimpíada Escolar, antigo Jebs, que recomeçou há oito anos, recentemente passou do Mistério do Esporte para o COB.

“Há uma dissociação do poder público com relação à educação e ao esporte. Atualmente, a educação se preocupa com a quantidade, em dizer que está erradicando o analfabetismo, e descuida com a qualidade”, afirma Lars Grael, ex-secretário nacional de Esporte. Ele entende a questão do esporte na escola não apenas como uma forma de garantir medalhas no futuro, mas sim cidadãos mais completos.

“É como se a formação de um jovem não dependesse mais da educação física. Só que se esquecem que a parte intelectual nunca será plena sem a parte física e os valores que vêm do esporte, como o espírito olímpico, aprender a perder e a vencer...”

Para se ter idéia do potencial brasileiro em formar atletas, o treinador Nélio Moura – responsável por descobrir a medalhista de ouro em Pequim Maurrem Maggi – faz uma conta aproximada, para chegar em um número impressionante. Utiliza percentuais que têm como parâmetro a antiga União Soviética. Na época, o país comunista testava todos os seus alunos e selecionava os que tinham potencial esportivo. Do total de crianças e jovens avaliados, em média 2,3% eram levados para freqüentar as chamadas Escolas do Esporte.

“É uma análise bem fria, mas se fizéssemos isso entre pessoas de 10 a 19 anos, o que hoje representa uma fatia de cerca de 40 milhões da população brasileira, teríamos quase um milhão de jovens com potencial esportivo. É utópico testar toda essa gente, e claro que nem todos se tornariam atletas de alto rendimento, mas se fizermos uma coisa bem feitinha na escola, é impossível o Brasil não se tornar uma potência olímpica”, analisa Nélio.

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