Terça-feira, 09/02/2010
Albari Rosa/Gazeta do Povo
O motorista que não quer se identificar já viu várias brigas na rota dos ônibus de Curitiba: tocaias à espera do “inimigo”
Confusões entre organizadas proliferam no rastro do Santa Cândida-Capão Raso, que rasga a cidade de Norte a Sul e é o principal meio de acesso aos estádios
Publicado em 28/06/2009 | Ana Luzia Mikos, Carlos Eduardo Vicelli e Marcos Xavier VicenteCulpa de vândalos infiltrados nas organizadas de Atlético, Coritiba e Paraná apenas para brigar e depredar. Em 2008, o prejuízo da prefeitura com danos em ônibus foi de R$ 210 mil (1.217 veículos depredados). Até 30 de maio deste ano, chegou a R$ 100 mil (512 carros). Preocupante, embora ainda menor do que em 2001: 3.685 carros e R$ 535,6 mil de prejuízo. “Já vi cada coisa, rapaz”, diz Sérgio, cobrador com experiência de sete anos perto da Arena e que pediu para não ter o sobrenome revelado.
Meu filho não quer mais saber de futebol
Meu filho estava voltando do jogo do Atlético (contra o Palmeiras, no dia 20/6). Era por volta de 19h30. Quando estavam passando pela Rua Mauá, o pessoal da Império, 50 ou 60 torcedores, estava esperando o ônibus. Eles invadiram e foram batendo. Ele, que não pertence à Torcida Os Fanáticos, não conseguiu fugir. Apanhou muito. Só não mataram ele de tanto bater por causa da intervenção de um policial que estava de folga. O menino está muito traumatizado, não quer falar com a imprensa. Tomou três pontos na boca. Ele desobedeceu uma ordem minha. Não deixo ir a estádio sozinho, ainda mais de ônibus. Foi escondido, porque eu estava trabalhando. Agora, depois do susto, ele mesmo decidiu que não vai mais. Não quer tocar no assunto, não quer mais saber de futebol.
Pai do torcedor de 17 anos espancado no dia 20/6.
A PM tem usado o diálogo para conter os confrontos entre torcedores nos bairros. O convite para discutir soluções da violência no futebol foi estendido aos comandos. Na primeira reunião, sexta-feira, o comandante do Policiamento da Capital, coronel Jorge Costa Filho, pediu ajuda na identificação dos torcedores que causam tumultos.
A redução dos problemas envolvendo as torcidas organizadas esbarra na sua essência. A maior parte dos integrantes é formada por adolescentes, principais estopins de brigas e confusões. Fazer parte de torcida, integrar um comando virou moda entre jovens de 12 a 18 anos.
A Gazeta do Povo passou a semana colhendo depoimentos de pessoas que convivem com o biarticulado, que passa próximo também à Vila Capanema e ao Couto Pereira. Ouviu histórias que se repetem a cada dia de futebol em Curitiba.
Um atleticano de 17 anos foi o último a sofrer com a violência dentro do bonde (termo usado pelas facções para se referir aos ônibus). O jovem voltava com amigos da Baixada após o empate entre Atlético e Palmeiras (2 a 2), dia 20 de junho. Quando passava pelo cruzamento da Avenida João Gualberto com a Rua Mauá, no Alto da Glória, o ônibus foi recepcionado por cerca de 50 integrantes da Império Alviverde. O grupo, que assistia a Náutico x Coritiba pela tevê, na sede da principal uniformizada ligada ao Coritiba, partiu para cima dos rubro-negros. O garoto acabou espancado, agressão contida por um policial militar do Serviço Reservado que estava de folga e passava casualmente pelo local.
À espera do inimigo
As tocaias são comuns na linha. Tanto de um lado quanto do outro. Nem precisa que os dois rivais estejam em campo no mesmo dia. No Água Verde, atleticanos à paisana são “plantados” em dias de jogos do Coxa na Estação Silva Jardim, a última antes da Praça do Japão. Os “olheiros” avisam os companheiros por celular quando o ônibus, repleto de integrantes da facção adversária, segue em direção à próxima parada. No tubo Bento Viana, são recebidos com paus e pedras.
“Nunca fui atingido porque o vidro do parabrisa é bem grosso”, conta o motorista Rodicler Aparecido Ribeiro. “Já vi eles tirarem dois coxas-brancas de dentro do ônibus e arrebentarem no pau. Um corintiano, só porque estava com a camisa do time, apanhou também”, revela Jocimar Soares Maciel, que trabalha como porteiro em um prédio em frente ao ponto.
Os “donos” do ônibus
Os “organizados” tomam conta do Santa Cândida-Capão Raso. Sujam, furam catracas, picham, amedrontam... e surfam em cima dos biarticulados (vídeos registrados no You Tube). “É incrível como não caem”, admira-se um morador do Alto da Glória, nas imediações do tubo Maria Clara (outro ponto crítico), que prefere o anonimato. Apenas para repor as 11.052 janelas pichadas da frota de 2.402 ônibus o município precisaria desembolsar R$ 2,5 milhões – número consolidado em abril. Devido ao alto valor, somente os quebrados são substituídos imediatamente.
“Esse pessoal se sente tão dono do ônibus que não deixa ninguém mais entrar. Quando para na estação, três ou quatro descem pela porta 3 e impedem o acesso de quem está no tubo. E ai de quem ousar reclamar. Apanha. Pode ser idoso, grávida...”, revolta-se Sérgio.
Os próprios torcedores reconhecem o perigo. “Eu falo para minha madrasta e irmãs pequenas não andarem de ônibus em dia de jogo”, revela Alan Ribeiro, funcionário da Império.
Membros das duas maiores facções da cidade admitem o problema. “Se houver encontro (das torcidas), há confronto. É quase inevitável”, revela Gustavo Dranczuk, chefe do Comando Oeste da Império.
Há linhas, tubos e terminais marcados pelos embates (veja gráfico acima). “A gente sabe, a polícia sabe e nunca acontece nada. Com mais policiamento isso iria diminuir muito, porque quando os grupos se encontram ninguém foge ou dá as costas, aí é que as brigas acontecem”, conta Fábio Marques, líder da Zona Oeste da Os Fanáticos.
Discurso inócuo
Comandos e zonas são subdivisões das organizadas que reúnem torcedores de determinada região da cidade. Alguns têm quase duas décadas de fundação e sugiram do encontro dos fãs que iam juntos aos jogos. Os grupos cresceram. Hoje, em uma partida importante ou final de campeonato, os maiores vão ao estádio com até 500 pessoas.
“90% dos problemas acontecem nesse deslocamento de ida e volta do campo”, detecta Vanessa Morais, do Comando Feminino alviverde.
Os “organizados” dizem existir um código de “ética” em relação ao torcedor comum. “Há alguns anos entramos no ônibus em umas 200 pessoas e havia dois atleticanos. Mandamos tirarem a camisa e irem lá para a frente e tudo bem”, exemplificou Osvaldo Dietrich, ex-presidente da Império e hoje no departamento de marketing do Coritiba. Se a dupla fosse da organizada rival? “Porrada”, afirmaram torcedores que acompanhavam a entrevista.
Com maior proximidade aos seus seguidores, os chefes de comando ecoam o discurso dos presidentes de torcida na tentativa de aliviar os transtorno à população e ao transporte público. A maior cobrança é pela punição dos vândalos. A sugestão esbarra, entretanto, na falta de identificação (ou delação) dos culpados.
“Não aceitamos esse negócio de furar fila. Mandamos pagar. Pô, domingão é R$ 1”, diz Marcelo Santos Brasil, à frente do Comando Norte da Império. “Tentamos controlar. Já pensou um trabalhador voltando para casa e tendo de aguentar aquela bagunça, aquele barulho? A gente pede para a galera não bater no bonde, segurar um pouco”, reforça Marques.
O recente histórico de confusões, contudo, demonstra o alcance reduzido do discurso entre os organizados.
Ney repetirá seu feito de 2008?
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