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Memória

Há 30 anos, cai-cai manchava futebol paranaense

Histórica decisão entre Colorado, hoje Paraná, e Cascavel ocorreu há três décadas – mas não sai da cabeça dos protagonistas do vexatório episódio

Jorge Nobre finaliza em gol polêmico na final de 1980 | Arquivo / Gazeta do Povo
Jorge Nobre finaliza em gol polêmico na final de 1980 (Foto: Arquivo / Gazeta do Povo)
A disputa do lance pelo alto é alvo de reclamações dos cascavelenses 30 anos depois |

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A disputa do lance pelo alto é alvo de reclamações dos cascavelenses 30 anos depois

Dirigentes do Colorado entraram, liderados por Renato Trombini, entraram com faixas no final da partida |

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Dirigentes do Colorado entraram, liderados por Renato Trombini, entraram com faixas no final da partida

TJD promoveu na época depoimentos entre os envolvidos na partida para que pudesse saber se foi intencional ou não o fato do Cascavel ter ficado com seis em campo |

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TJD promoveu na época depoimentos entre os envolvidos na partida para que pudesse saber se foi intencional ou não o fato do Cascavel ter ficado com seis em campo

Motta Ribeiro, presidente da FPF na época, decidiu por dividir o título entre as duas equipes |

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Motta Ribeiro, presidente da FPF na época, decidiu por dividir o título entre as duas equipes

Torcida do Colorado comemora o único título, mesmo que dividido, da história do Clube, que veio a se unir com o Pinheiros em 1989, resultando o atual Paraná Clube |

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Torcida do Colorado comemora o único título, mesmo que dividido, da história do Clube, que veio a se unir com o Pinheiros em 1989, resultando o atual Paraná Clube

Corria a tarde do dia 30 de novembro de 1980, um domingo. Na Vila Capanema, com apenas 9.340 pagantes, Colorado e Cascavel fizeram uma inédita e exótica final de Campeonato Paranaense que nunca acabou. O árbitro Tito Rodrigues encerrou a partida porque a Cobra ficou sem o número mínimo de sete jogadores. Fato que completa 30 anos nesta terça-feira (30) e ainda suscita polêmica – além de macular a história do futebol local.

O Boca-Negra – apelido do time da casa – precisava vencer por cinco gols de diferença para reverter o saldo do adversário, que liderava o quadrangular final, mas o jogo foi interrompido com o placar de 2 a 0 – o suficiente para o time do interior dar a volta olímpica. Os donos da casa, diante do fato insólito, também vestiram a faixa e festejaram. Apenas no dia 12 de dezembro a Federação Paranaense de Futebol (FPF) decidiu dividir o título entre as duas equipes, fato inédito e único até hoje no cenário local. O que perdura também é a controvérsia sobre a intenção do "cai-cai".

O roteiro do duelo não deixa dúvida – apesar da falta de unanimidade sobre o caso.

Precisando da vitória, o Colorado partiu para cima e abriu o placar aos 5 minutos com Jorge Nobre, após cruzamento do ponteiro Buião. No lance (mostrado na foto ao lado), os cascavelenses reclamam até hoje de choque irregular de Nobre sobre o goleiro Zico. "O clima estava tenso quando percebemos aquela pressão do juiz para cima da gente. O primeiro gol foi irregular. Reclamamos todos e o juiz expulsou o Marcos", conta o ex-ponta-esquerda cascavelense Sérgio Ramos, que hoje trabalha como corretor de imóveis.

Era apenas o primeiro ato de uma revolta interiorana.

Com 23 minutos, o Colorado ampliou a vantagem para 2 a 0 – novamente com Jorge Nobre. Aos 38 minutos, atrás no marcador, o técnico do Cascavel, Borba Filho, fez a primeira das então duas substituições regulamentares, ao tirar Paulinho e colocar Maurinho.

Poucos minutos depois, começou uma confusão em campo e Maurinho e Borba Filho foram expulsos. "O Colorado fez um gol impedido. Era complicado. Teve uma altura naquele campeonato que comecei a treinar com dois a menos, pois sempre davam jeito de expulsar dois nossos. Naquele jogo, a gente não conseguia chegar que o auxiliar levantava a bandeira. Fui expulso e depois fiquei dando instrução no meio do povo", reclama Borba, tido como mentor da farsa, algo que nega com veemência.

Sérgio Ramos foi sacado ainda no primeiro tempo para a entrada de Dudu. O substituto não voltou para a segunda etapa, assim como Nelo, ambos vetados pelo médico Antônio Komatsu. Com sete do Cascavel em campo, no primeiro lance após o intervalo o goleiro Zico chutou a bola e caiu no chão sentindo uma duvidosa contusão.

"A gente realizou um campeonato bom, mas não tinha saldo. Tínhamos de golear, mas quando estava 2 a 0, veio o cai-cai", recorda Caxias, zagueiro reserva do Colorado na ocasião.

O árbitro encerrou a partida e o campo foi invadido por torcedores do Colorado, comemorando o título totalmente sub judice.

"Fui eu quem fiz as faixas. Entrei junto com o Enzo Scaletti, o presidente, e erguemos a taça. Teve festa na Vila com direito a charanga nas quatro pontas do estádio", lembra Renato Trombini, que era o presidente do Conselho Deliberativo e vice-presidente de futebol do tricolor curitibano (um dos embriões do Paraná, ao lado do Pinheiros).

"Teve volta olímpica, faixa e tudo mais... Não lembro se me pagaram os prêmios, mas a faixa eu tenho até hoje e está pendurada na parede da minha casa em Curitiba", diz Ary Marques, lateral-direito do Colorado, que atualmente é técnico do Cuiabá."Depois da final a gente ficou chateado por causa das trapalhadas da arbitragem. Tivemos jogador expulso e prefiro não ficar julgando esses grandes erros", afirma Paulinho Cascavel, hoje empresário do comércio e da construção. A saída dos cascavelenses da Vila foi cercada de tensão. "Saímos enfrentando um corredor humano, com direito a ‘pé do ouvido’, mas a gente comemorou como campeão", conta Ramos.

O impasse seguiu por 12 dias. Pelo regulamento, a partida teria como resultado 1 a 0 para o Colorado, ou 2 a 0 caso o Tribunal de Justiça Desportiva mantivesse o placar. Ambas as hipóteses dariam o título ao Cascavel.

Na semana seguinte, o presidente da FPF, Luiz Gonzaga de Motta Ribeiro, afirmou que o título deveria ir para o Colorado, mas que lavava as mãos quanto ao regulamento. No dia 12 de dezembro, a Federação decidiu considerar as duas equipes campeãs e, como havia passado o prazo de indicar os participantes do Brasileiro de 1981, o Cascavel ficou sem a vaga na Taça de Ouro, sendo o Paraná representado por Colorado e Pinheiros.

A decisão não foi bem recebida em nenhum dos dois lados. "Isso foi para fazer uma média com a capital", contesta Ramos. "Desagradou, pois o Colorado foi o mais prejudicado. Nós faríamos os gols necessários", rebate Trombini.

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