Ao entrar na sala comercial de um prédio executivo no Centro de Curitiba, Alexandre Gomes, de 30 anos, pede desculpas pelo pequeno transtorno causado pela reforma recente. "Não ligue para a bagunça. Fiz uma mudança há pouco tempo", conta, em tom calmo, o rapaz de camisa e jaqueta esporte fino. Com pinta de executivo de uma multinacional e rendimento bem próximo desse cargo, Alexandre bancou a reforma e o aluguel com o dinheiro ganho em torneios oficiais de pôquer.
O jogo de cartas é a profissão do curitibano que se notabilizou como um dos primeiros brasileiros a levar o WSOP (World Series Of Poker), em 2008, e o WPT (World Poker Tour), em 2009, dois dos principais campeonatos mundiais do esporte realizados nos Estados Unidos. Os prêmios: US$ 1,18 milhão e US$ 1,7 milhão, respectivamente.
Embora essa fonte de renda ainda gere estranheza, porém, todos os campeonatos são legais e feitos às claras, com transmissão de tevê e tudo. "Quando ganhei o WSOP, o tom das entrevistas que eu dava era sempre o do questionamento quanto à legalidade dos ganhos e se eu poderia ter problemas com a Receita Federal", lembra Alexandre, ao apontar o preconceito que rondava a profissão.
Desde o primeiro grande prêmio conquistado pelo jogador, porém, o pôquer no Brasil obteve conquistas importantes. A maior e mais recentes delas foi o reconhecimento em janeiro da Confederação Brasileira de Texas Hold'em (CBTH) estilo de pôquer mais popular no mundo pelo Ministério dos Esportes como entidade esportiva. A CBTH, inclusive, é a responsável pela realização do BSOP (Brazilian Series of Poker), considerado o maior torneio da América Latina, com etapas em cidades de todo o país, inclusive em Curitiba.
Esses campeonatos funcionam de forma semelhante aos de outras modalidades esportivas, como o tênis e a natação. Neles, os competidores pagam o valor da inscrição e, na entrada, recebem um determinado número de fichas, que não têm valor monetário. Nos jogos, cada um aposta uma quantidade delas. O jogador que terminar com mais fichas ganha o torneio. Já os que perderam todas ao logo do certame estão automaticamente fora da competição, sem chance de "comprar" novas fichas e voltar à competição.
Foi dentro desses campeonatos que Alexandre se tornou conhecido no meio e fez o seu nome no pôquer. Mas fora elas há ainda os chamados cash games, nos quais os jogadores apostam fichas que valem dinheiro. Nas mesas, eles podem comprar quantas quiserem e entrar ou deixar a partida a qualquer momento, diferente dos torneios. Por ser um jogo que envolve a habilidade e que não depende exclusivamente da sorte a exemplo dos caça-níqueis , o pôquer não é considerado um jogo de azar, e é colocado pelos profissionais lado a lado de esportes como o xadrez.
As primeiras sequências de cartas feitas por Alexandre que trouxeram retorno financeiro foram por meio da internet. Ao entrar com um buy-in - nome dado ao investimento na inscrição de US$ 11 e ganhar ao final US$ 13 mil, o jogador viu a possibilidade de fazer dinheiro com o pôquer. Investiu pesado na leitura de livros importados para dominar as técnicas e, nos primeiros anos de aprendizado, jogava todos os dias da meia-noite às 3 h da manhã.
A opção pelas competições online - muito popular entre os novos jogadores de pôquer -, foi a mesma adotada pelo estudante de Direito Pedro da Luz, de 19 anos. Há um ano, o jovem se dedica ao jogo até oito por dia. E embora não o tenha como profissão, mas sim como uma forma de complementar a renda, Pedro revela ter ganhado US$ 4 mil num período de três meses. "A renda é variável, mas é boa. Já comprei um iPod e alguns presente para os meus amigos. Tenho o apoio do meu pai, que me ensinou a jogar, mas não sei se quero me profissionalizar", acrescenta.







