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A primeira geração e jovens descendentes do mesmo berço |
A primeira geração e jovens descendentes do mesmo berço
Skate

Onde tudo começou

Berço da modalidade em Curitiba, a trintona Praça do Gaúcho pode, já neste ano, ser tombada pelo patrimônio histórico

Texto publicado na edição impressa de 19 de abril de 2009

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Eles não tinham skates. Então, imitavam os inventores californianos, desmontavam patins para usar as rodinhas em shapes improvisados e construíam os próprios equipamentos. Eles não tinham pista e se especializaram em pegar compensados nas construções para montar suas rampas. Eram jovens, cabeludos, ouviam muito reggae e rock, usavam o legítimo All Star, calças justas compradas na Prosdócimo Underground e formavam a primeira geração do skate curitibano.

Três décadas depois, alguns dos precursores voltaram ao ninho, a Pista do Gaúcho, para relembrar o início da modalidade, matar saudade e, claro, deslizar pela primeira pista pública do Paraná e a segunda do Brasil (atrás apenas do pico de Nova Iguaçu-RJ).

Um marco do esporte no país que será alvo este ano de um processo de tombamento como patrimônio nacional – assim como outras pistas tradicionais brasileiras. Uma iniciativa da Confederação Brasileira de Skate (CBSK) para a perpetuação e reconhecimento do berço de vários atletas paranaenses e que começou com um grupo de rapazes na década de 70.

Eles eram os reis da praça. De alguma forma ainda são. Mesmo com menos cabelos, mais barriga e rugas, os quarentões e cinquentões foram rapidamente reconhecidos pelas novas gerações que pararam suas manobras esta semana para observá-los dominar a pista que juram ter ajudado a construir.

Afinal, alguns deles levaram à prefeitura de Curitiba na época revistas norte-americanas sugerindo como seria o lugar ideal para praticar o esporte recém-criado nos Estados Unidos. Uma iniciativa de surfistas para ocupar o tempo quando não podiam dropar as ondas. As publicações estrangeiras inspiraram o arquiteto do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) Lauro Tomizawa, que assinou o projeto em 1972.

Dá para imaginar a excitação quando a praça no bairro São Francisco começou a ser escavada para a nova pista. “Vínhamos todos os dias ver como estava a obra”, conta o artista plástico Juarez Matter, 46 anos.

Com a inauguração, a Praça do Redentor, que nunca foi chamada pelo nome e nasceu para os frequentadores como Praça do Gaúcho em referência à sorveteria mais antiga da capital (1955), ganhou dupla identidade e reforçou-se como point da cidade. Assim contou em março de 78 o artigo de Aramis Millarch, publicada no jornal O Estado do Paraná.

“Nos fins de semana, as filas que se formam frente à sorveteria do Gaúcho se igualam ao volume de pessoas que, extasiadas, assistem às evoluções e acrobacias dos garotos que, em pouco tempo, se tornaram verdadeiros ases do ‘skate’. Pois se, ironicamente, se costuma dizer que o paulista gasta seus domingos vendo os aviões pousarem e partirem no aeroporto de Congonhas, agora os curitibanos vão nos sábados, domingos e nas encaloradas noites deste verão-78 ver os garotos brincarem de ‘skate’”.

Começava ali quase uma irmandade. “Éramos muito amigos, uma época incrível. A gente vivia aqui. Era no Ano Novo, Natal e estávamos na pista. Passávamos a ceia com a família e vinhamos mostrar os tênis novos de skate para os amigos e andar na pista”, contra o psicoterapeuta e produtor de eventos Fernando Jhonson, 48 anos.

“Quando alguém aparecia com uma manobra nova todo mundo ficava louco para copiar. Ninguém era egoísta e ensinava os outros. Isso é muito legal no skate. Havia muito respeito”, explica Luiz Vicente Horokoski, de 49 anos, criador da marca M27 e colunista da revista Freex. Respeito e muita criatividade. Skatistas que andavam ali como Marcos Maguila e Eduardo Dias criaram marcas de equipamentos e roupas que se tornaram referência nacional como Maha e a Drop Dead, respectivamente.

Veteranos do pedaço, eles também faziam muitas brincadeiras com os mais jovens, facilitadas pela vizinhança inusitada. “Era normal fazermos os mais novos entrarem no cemitério à noite para poder integrar a turma”, relembra o tradutor simultâneo José Álvaro Nea, 52 anos. Da pista às vezes viam um conhecido morador de rua da região acenar com as mãos de cadáveres sobre o muro do Municipal.

Sustos com mortos e confusão com os vivos. Os entreveros eram constantes com os taxistas cujo ponto ainda é ao lado da pista. “Sempre voavam os skates e batiam nos carros, quebravam vidros, amassavam portas. Às vezes sequestravam o nosso skate e só devolviam após pagarmos os reparos”, lembra Ronaldo Miranda, 43 anos.

Ex-zagueiro das categorias de base do Colorado, ele trocou o futebol pelo skate. Levou uma surra e tanto do padrasto e então técnico do juvenil do clube, Ernesto Marques, pai de Cláudio Marques (ex-jogador do Coritiba). Hoje empresaria skatistas, tem programas sobre a modalidade nos quais fala das novas gerações do skate curitibano, inevitavelmente crias da Pista do Gaúcho.

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