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Tricampeão de motovelocidade, Marc Márquez troca luxo pela casa (e as regras) da mãe

  • Cervera, Espanha
  • The New York Times
Tricampeão de motovelocidade, Marc Márquez, de 23 anos, prepara a bicicleta na garagem da família, em Cervera, na Espanha. | Samuel Aranda/NYT
Tricampeão de motovelocidade, Marc Márquez, de 23 anos, prepara a bicicleta na garagem da família, em Cervera, na Espanha. Samuel Aranda/NYT
 
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Marc Márquez bem que se esforçou para ficar longe da encrenca, mas não daquela à qual está acostumado. Em vez de desafiar a lei da gravidade na moto, como faz regularmente como o melhor piloto do mundo na atualidade, o rapaz encarava um desafio diferente: o de tentar respeitar as regras da casa da mãe depois de uma sessão de hidroginástica com o irmão caçula, Alex.

“Não pode deixar a toalha molhada dentro da sacola”, Roser Alentà explicou depois que os filhos, seguindo suas instruções claríssimas, colocaram as peças sobre o radiador para secar. “Eles podem ser campeões mundiais, mas continuam sendo meus meninos e aqui em casa as coisa são feitas à minha maneira”, afirma, categórica.

Pilotos que se tornam campeões mundiais – título que os dois irmãos Márquez conquistaram – geralmente se movimentam em círculos luxuosos e exclusivos como Mônaco e Suíça, mas os rapazes preferiram continuar se submetendo à marcação materna na casa avarandada que os pais compraram pouco antes do nascimento de Marc, há 23 anos.

Eles [Marc e Alex Márquez] podem ser campeões mundiais, mas continuam sendo meus meninos e aqui em casa as coisa são feitas à minha maneira

Roser Alentà mãe do piloto Marc Márquez, tricampeão de motovelocidade

Irmãos Márquez

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Marc e o irmão Alex, que já foram campeões mundiais no mesmo ano, em 2013, treinam juntos para manter a forma durante as férias.Samuel Aranda/NYT

Isso significa que todo inverno, depois que Márquez já se cansou de viajar pelo mundo, competir diante de torcedores fervorosos e faturar aproximadamente US$11 milhões/ano nas duas últimas temporadas, ele volta a dormir no antigo beliche, cercado pela coleção de carrinhos que tem desde criança. Na visita que lhe fiz, em janeiro, vi uma pilha de roupa suja em um canto do quarto; o material excedente enviado pelo patrocinador logo seria levado pelos primos.

“Sei que muita gente prefere passar o inverno em lugares como as Maldivas, mas aqui é o lugar onde sempre estive e continuo querendo ficar. É claro que minha vida não é mais o que costumava ser, mas se você olhar para as pessoas à minha volta, família, amigos, empresário, a mudança foi zero. E aqui ainda posso treinar com o meu melhor amigo, meu irmão”, explica.

A casa da família Márquez tem um escritório lotado com os troféus conquistados pelos meninos na infância. (As motos e os prêmios mais importantes ficam em um museu da cidadezinha.) No quarto, Marc guarda os presentes que ganha de outros campeões, como a chuteira de Gerard Piqué, do Barcelona, e o capacete de Fernando Alonso, piloto de Fórmula 1, e não os lembretes de como e com que rapidez reformulou os limites de seu esporte.

Em 2013, na primeira temporada na categoria MotoGP, Márquez se tornou, aos 20 anos, o piloto mais jovem a ganhar a corrida, e o mais novo também a garantir o título, superando recordes estabelecidos 30 anos antes por Freddie Spencer. “A capacidade do Marc de reconhecer o que precisa fazer na antecipação, de prever, é única. Se alguém vai bater a sua marca, então que seja o cara que melhore o nível do esporte como um todo – e fica bem claro que todo mundo está se esforçando muito mais para competir contra ele”, diz o norte-americano Spencer.

Marc repetiu a dose em 2014, ano em que ele e Alex – com um título na Moto3, uma categoria menor – se tornaram os primeiros irmãos campeões do mundo no motociclismo. Marc levou o tri em 2016, acrescentando mais cinco vitórias ao currículo. O total atual, 29, já o coloca entre os dez melhores de todos os tempos.

O esporte é particularmente popular na Europa, onde os principais circuitos atraem mais de 200 mil espectadores em um fim de semana de reconhecimento, treino e corrida. Em 2015, Marc cravou o recorde para a maior velocidade atingida durante uma disputa, chegando a 350 km/h.

A forma como ele dirige a moto é tão revolucionária quanto seu sucesso, um estilo no qual ele se abaixa tanto nas curvas que, muitas vezes, o cotovelo se torna, junto com o joelho, um ponto de apoio no asfalto. “Como competia contra pilotos fisicamente mais fortes nos primeiros anos, Marc se empenhou para desenvolver um manejo que o permitia controlar a moto, geralmente grande demais para ele. Só ganhou corpo de homem com 18, 19 anos”, conta o pai, Julià, sobre o filho que hoje tem 1,70 m de altura e pesa 64 kg.

Em março, Marc vai começar a brigar pelo quarto título de MotoGP à frente da esquadra espanhola que domina o motociclismo. A Espanha realiza quatro das 18 corridas da competição mundial cujos direitos comerciais cabem à empresa espanhola Dorna.

De fato, a companhia burlou as regras para permitir que Marc competisse pela equipe Repsol Honda na temporada de 2013, suspendendo a proibição à inclusão de novatos nos times líderes da categoria. (A Repsol é uma petrolífera espanhola.) Na verdade, porém, sua ligação com as disputas começou muito anos antes disso.

Vejo o Marc sendo extremamente agressivo e muitas vezes lhe pergunto até que ponto aquilo é necessário; e ele sempre me responde: ‘Se não tentar, não posso saber qual é o limite’.

Julià Márquez pai de Marc Márquez

De volta para casa

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Marc Márquez troca o conforto de ambientes luxuosos para ficar mais perto da família e dos amigos na antiga casa dos pais, na Espanha.Samuel Aranda/NYT

Depois de passar a infância participando de corridas com o pai e o tio que trabalhava como voluntário na organização de competições de motocross de fim de semana, Marc pediu a primeira moto aos quatro anos. Os pais lhe deram uma usada, pintada de branco e pink, com rodinhas para impedir que caísse enquanto ainda não tivesse firmeza.

“O Marc já era uma esponja; absorvia tudo o que os pilotos faziam como nunca vi ninguém dessa idade fazer”, conta o tio, Ramon Márquez. Embora adorasse correr em terreno irregular, Marc, relutante, aceitou passar para pista depois que a federação catalã criou uma prova nova e se ofereceu para comprar o equipamento para os primeiros competidores.

O incentivo foi suficiente para a família com dificuldades em financiar as carreiras dos dois filhos com salários modestos de um pai que operava uma escavadeira de obras e uma mãe que era secretária. Quando Marc começou a crescer, os pais colocaram uma faixa extra de couro para encompridar o macacão do garoto porque não podiam comprar outro. Alex, três anos mais novo e já oito centímetros mais alto que o irmão, herdou a roupa.

“Muitas vezes deixamos de jantar fora para poder comprar sapatos para os meninos. Todo mundo comemora a posição deles hoje, mas só nós sabemos os sacrifícios que tivemos que fazer para isso”, diz a mãe.

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Marc Márquez, agachado, e Alex Márquez, em pé, se preparam na garagem dos pais para pedalar pela pequena cidade de Cervera.Samuel Aranda/NYT

Na verdade, os dois perderam o emprego por causa da crise econômica que o país atravessa e, desde então, Julià Márquez acompanha os filhos ao redor do mundo. Para isso, precisa constantemente equilibrar a tomada de decisões de riscos inerentes ao esporte, desenvolvida ao longo de uma vida de observação dos meninos, com as preocupações como pai.

“Vejo o Marc sendo extremamente agressivo e muitas vezes lhe pergunto até que ponto aquilo é necessário; e ele sempre me responde: ‘Se não tentar, não posso saber qual é o limite’.”

Até que ponto Marc pode chegar? Em 2014, Livio Suppo, diretor da escuderia de Marc, previu que o jovem acabaria superando os nove títulos de Rossi. Em entrevista, o rapaz não fez nada para negar a sugestão.

E da mesma forma que Marc não pretende sair de Cervera, também não consegue se imaginar seguindo o exemplo de Casey Stoner, o ex-campeão australiano que, inesperadamente, se aposentou em 2012, aos 27 anos, dando a Marc a chance de substituí-lo na equipe Honda. “Se você tirar minha moto, rouba metade da minha vida”, admite.

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