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Arquivo/Gazeta do Povo / Rotina de Francisco Cunha Pereira era integrada à vida da cidade. Num único dia, passava pela lida estressante do jornal e da tevê, conversava com os amigos, recebia autoridades em sua sala e terminava o dia prestigiando algum evento, ainda que permanecesse por pouco tempo Rotina de Francisco Cunha Pereira era integrada à vida da cidade. Num único dia, passava pela lida estressante do jornal e da tevê, conversava com os amigos, recebia autoridades em sua sala e terminava o dia prestigiando algum evento, ainda que permanecesse por pouco tempo
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Francisco

Tae kwon do, fitas cassetes, atendimento diário a visitas na redação, passeios na XV, papo com mendigos e leitura do jornal em qualquer parte do mundo. Ser Cunha Pereira era uma maratona

19/03/2009 | 00:03 | Francisco Camargo

No jornalismo, sua paixão era imensa. Grande o suficiente para ir além da Gazeta do Povo, contrariando alguns comentários de que o jornal seria “o seu maior xodó”. Ele também acompanhava com total atenção os noticiários da TV Paranaense, Canal 12 – a Pioneira, o segundo pilar sobre os quais construiria a Rede Paranaense de Comunicação – RPC.

Na televisão, um dos programas que mais o entusiasmaram foi exibido pela Globo. Reunia três monstros sagrados, os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Placido Domingo. Seu gosto pela música tinha espaço para o popular, o que o obrigava a encontrar uma brecha na agenda para elaborar listas de músicas que deveriam ser gravadas em fitas cassetes, geralmente na Raridades Discos. Quando os compromissos e o permanente pensar nas empresas e no Paraná permitiam um período de descontração, geralmente em trânsito, escutava as fitas em seu Santana preto quatro portas.

Todos os dias, pela manhã, depois dos jornais paranaenses, lia O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil e Zero Hora. E passava um pito quase silencioso quando os matutinos não eram entregues bem cedo em sua residência.

Normalmente, chegava à Gazeta por volta das 11 horas e no início da tarde seguia para a TV Paranaense, então no Castelo do Batel. Recebia visitas quase todos os dias, mas preferencialmente às terças e quintas. Leitor e telespectador arguto, não poupava o jornal e a TV de observações e apontamentos mais críticos. Lendo ou acompanhando o noticiário na telinha, balançava a cabeça de um lado para outro e dizia: “Mas não aprenderam ainda a fazer do jeito que deve ser feito..." Ou, "mas não é assim, não é nada disso..."

Nas matérias nas quais aparecia, sempre fez questão de escolher a fotografia. E na TV, ia para a Engenharia e exercitava seus dotes de editor. Da matéria bruta, escolhia as imagens.

Praticava tae kwon do pelo menos duas vezes por semana. O parceiro preferencial era mestre Kang.

Assistia ao Jornal Nacional, mas se permitia dar uma espiadela no jornal de Boris Casoy.

Quarta-feira, dia da novena no Perpétuo Socorro. Profundamente religioso, auxiliava muitas e variadas instituições de caridade e também alguns pedintes improvisados que insistiam em fazer plantão à porta do jornal, na Praça Carlos Gomes, número 4.

Para amigos e companheiros da Boca Maldita, na Rua XV e depois na Travessa Luiz Xavier, contou que não se negava a prestar ajuda porque “alguém colocou a pessoa no meu caminho...” A rigor, esse “alguém” deveria ser escrito com A maiúsculo.

Esporadicamente, arriscava palpites na Mega-Sena e na Loto. Caso fosse bafejado pela sorte, o dinheiro já teria destino certo: ajudar os necessitados. Os realmente necessitados e até os nem tanto.

Nunca alimentou nenhuma veleidade ou necessidade de opulência em relação a carros importados ou novos: seguia para toda parte com o Santana preto. Antes, era um Monza da mesma cor. Quando comparecia a reuniões importantes, Osmar Menegolo, o motorista, pensava consigo: “Aqui só tem carro bacana – BMW, Mercedes, Honda, Mitsubishi... – e só o patrão de Santaninha...” Mas ambos rodavam tranquilos, em paz, o dono do carro e seu fiel amigo ao volante.

Acompanhando em todos os detalhes as edições da Gazeta, intervinha sempre que necessário. Um funcionário recorda: algumas vezes cheguei a achar que o dr. Francisco “exagerava”, mas, prossegue, “logo depois tinha que tirar o chapéu... Ele sempre estava à frente. Acho que ele personificava aquilo que um dia li, uma frase de Carlos Lacerda: "Só porque vejo antes, dizem que enxergo demais... Dr. Francisco tinha feeling, percebe?”

Era bom ser o dr. Francisco Cunha Pereira Filho?

Para quem, um tanto cauteloso, arriscou tal pergunta em um dos encontros de sábado ao meio-dia na Boca Maldita, a resposta foi sim, era bom. Mas isso exigia muita paciência e tolerância, algo bem do estilo dr. Francisco.

E ele respondeu não ser difícil: tinha aprendido a se colocar em uma redoma de vidro, de onde via tudo e não era preciso escutar, pois tinha aprendido a fazer a leitura labial...

Pessoa que primava por hábitos simples, não gostava muito de ir a restaurantes, não fumava.

A certos eventos, chegava atrasado. Premeditadamente atrasado. Explica-se: era a maneira de evitar aglomerações e burburinhos.

Perfeccionista, mesmo distante comandava a Gazeta do Povo.

31 de dezembro de 2000. Véspera da virada do milênio. Na labuta do fechamento da edição, o burburinho característico de jornalistas, fotógrafos e paginadores batia como um coração apressado, irrigando o empenho de todos. A telefonista avisa: ligação de Nova Iorque. Era ele. Embora tivesse comunicado antes de embarcar que “estaria ausente”, e que era para a chefia de Redação tocar o jornal por conta própria, não resistira: primeiro, queria saber como estavam as coisas e, é claro, qual seria a manchete principal. A quase oito mil quilômetros de distância foi informado – e aprovou a primeira página. Minutos depois, novamente o clássico aviso da telefonista à chefia: “É o dr. Francisco”.

Agora, um pedido: passar para o hotel nova-iorquino, pelo fax, uma cópia da primeira página. O encanto exercido pela Gazeta passara ao largo do clima universal de festa e falara mais alto outra vez.

Início dos anos 90, recém-contratado, um jornalista recebe telefonema do dr. Francisco, no segundo dia de “casa nova”. Não sem certa surpresa ao ser informado pela telefonista de quem se tratava, atende. “Seria alguma queixa? Reprimenda?” Nada disso, ele queria tão-somente saber se o profissional estava à vontade e satisfeito com as condições de trabalho.

Atleticano já dos tempos do Furacão de Caju e outros craques, comemorava nos fins de tarde de domingo as vitórias do Rubro-Negro e alegrava-se com o destaque que caberia ao clube na primeira página. Mas nem tudo ocorria sempre como o desejado.

No Campeonato Brasileiro de 2004, o Atlético Paranaense, campeão de 2001, deixa escapar o bicampeonato, já praticamente ganho.

Ao telefone, responde laconicamente ao comentário sobre a perda do título com voz mais suave do que de costume:

– Que pena.

Conselheiro do clube, amigo de muitos outros atleticanos, entre eles Anfrísio Siqueira, então presidente vitalício da Boca Maldita, a confraria famosa pelo jantar anual e sua atividade em favor de questões paranaenses, foi um dos primeiros torcedores a ter o nome inserido na Calçada da Fama da então recém-inaugurada Kyocera Arena. O dele e mais os nomes dos filhos.

Na página 2, além da Populiras, do poeta Liberalino Estevam, e outras seções, dedicava atenção especial ao pensamento do dia. E não raras vezes comparecia com a sua contribuição. Ficava feliz não apenas com frases e tiradas de grandes filósofos, poetas e escritores. O pensamento do homem da rua também aquecia o seu coração. Um desses pensamentos, de sua especial predileção, chegou a ser repetido algumas vezes durante anos na falta de um suficientemente profundo, eloquente, inspirado ou apropriado para o momento:

– Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono.

Às vezes, diante da enxurrada de artigos enviados para publicação, fulminava:

– Quem é esse cabra?

Do outro lado da linha, a mensagem tinha sido captada e decodificada, conforme o “código” sacramentado pelas relações do dia-a-dia da Redação com o dr. Francisco. A suposta pergunta trazia embutida uma decisão claríssima, que só mesmo os neófitos tentariam respondê-la: o “cabra” não merecia ser brindado com tamanha deferência.

Típica, também, foi uma curta supressão em nota de aniversário que sairia na coluna de Dino Almeida. Ela noticiava o aniversário de muitas décadas de uma figura de expressão da sociedade curitibana:

– Nunca se declina a idade de uma dama.

Na primeira página, nas notícias do Alto da Glória, era contestada a denominação Coxa, justificando não traduzir a grandeza do clube. Coritiba era Coritiba mesmo. A palavra Coxa era tolerada nas páginas internas, do caderno de esportes.

As notas à esquerda da primeira página – geralmente curiosas ou de última hora, classificadas de saborosas pelos leitores, uma das marcas da Gazeta – às vezes colocavam os redatores em situação delicada. Entre eles, eram chamadas de “linguiças”.

– Redige aí uma linguiça para a primeira página...

Dr. Francisco fulminava. “Linguiça, não. É a coluna 1”, sentenciava. E não se discutia.

A cidade cresce e, com ela, a violência extrapola o noticiário policial e bate à porta. Em 2005, início da noite de uma sexta-feira, ocorre uma tentativa de assalto ao setor de anúncios classificados da Gazeta do Povo, em plena Praça Carlos Gomes. A PM intervém, tiros são disparados, um dos assaltantes é baleado e levado preso. Ainda com a presença de policiais em vários departamentos da editora, nas oficinas, depósito de bobinas e expedição, pode estar escondido algum dos assaltantes.

Os policiais pedem que os funcionários permaneçam em seus locais de trabalho. A operação de varredura não tinha terminado. Expectativa e medo no ar.

Apanhado de surpresa com a notícia do assalto, dr. Francisco deixa sua casa às pressas, ainda vestindo um agasalho. Nada teme. Ignora o perigo. Entra no jornal pela porta da frente e faz questão de percorrer setor por setor. Quer saber se há alguém ferido, se todos estão bem ou se alguém precisa de socorro. Já na Redação, intimorato, assume o comando, despachando ordens e tomando providência para o restabelecimento da plena normalidade o mais rápido possível. Com o trabalho da polícia concluído e o prédio liberado, chegara o momento da volta ao trabalho.

E, recuperando o tempo perdido, concluir mais uma edição do “maior jornal do Paraná” – como ele gostava de ouvir quando se referiam à Gazeta do Povo.

Não sem uma ponta de sorriso no canto nos lábios, maldisfarçado pelo basto e bem aparado bigode.

Assim era o homem e o profissional Francisco Cunha Pereira Filho.


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