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Inspirado em projeto nazista, aeroporto de Curitiba foi criado para ser base aérea dos EUA

Construído para ser base aérea militar dos Estados Unidos, a arquitetura do Aeroporto Afonso Pena passou por muitas transformações até se tornar como é atualmente

Aeronave da Varig estacionada no Aeroporto Afonso Pena na década de 1980. Foto: Reprodução/Facebook/Resgatando a história do Aeroporto Afonso PenaAeronave da Varig estacionada no Aeroporto Afonso Pena na década de 1980. Foto: Reprodução/Facebook/Resgatando a história do Aeroporto Afonso Pena

por Carolina Werneck*

12/06/2017

Um prédio com arquitetura eclética e influências do estilo clássico predominante nos aeroportos americanos dos anos 1940. Essas eram as características do Aeroporto Afonso Pena entre 1944 e 1945, quando era utilizado como base aérea militar dos Estados Unidos.

Em 1944, com a Segunda Guerra Mundial já próxima do fim, os países envolvidos no conflito ainda travavam uma batalha silenciosa pelo controle do Atlântico Sul. O Brasil era governado por Getúlio Vargas e seu Estado Novo. Inicialmente simpático às campanhas nazista e fascista, em 1942 o país passou a apoiar oficialmente o lado oposto do conflito. Devido à entrada definitiva do Brasil na guerra, o Ministério da Aeronáutica construiu, em parceria com o Departamento de Engenharia do Exército dos EUA, diversos aeroportos ao longo da costa brasileira.

O arquiteto e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUCPR) Marco Nogara explica a importância dessa primeira construção. “Ali temos uma característica normal entre os aeroportos americanos, que é a pista cruzada, existente até hoje. Há uma pista principal e uma pista auxiliar.” Para a época, o Afonso Pena era um aeroporto moderno, com capacidade para receber aviões de grande porte. Com o fim do conflito, a partir de 1946 a base aérea militar passou a ser utilizada como aeroporto comercial.

A primeira estação de passageiros, inaugurada naquele ano, tinha “pavimento único com sala de espera, bar/café, áreas ajardinadas externas, escritório administrativo, escritório de manutenção, apoio ao abastecimento de combustíveis e lubrificantes, farol e uma torre de controle com estrutura de madeira”, conta Nogara. Ele conta que muito do terminal foi inspirado no aeroporto de Tempelhof, construído nos anos 1930 em Berlim. “Os americanos absorveram essa cultura do aeroporto de lá e aplicaram nesses outros aeroportos, inclusive em Curitiba.” Aquela estação tornou-se prédio administrativo e acabou sendo demolida na década de 1990. Sergio Dombroski, funcionário da Empresa Brasileira de Estrutura Aeroportuária (Infraero), relembra com saudades a construção histórica. “Os detalhes do edifício eram muito simples, mas muito bem feitos. Perdemos muito da história do aeroporto quando ela foi demolida.”

Registro da primeira torre de controle do aeroporto, em 1946. Foto: Reprodução/Facebook/Resgatando a história do Aeroporto Afonso Pena

Registro da primeira torre de controle do aeroporto, em 1946. Foto: Reprodução/Facebook/Resgatando a história do Aeroporto Afonso Pena

Um terminal com arquitetura modernista

Em 1959 uma nova estação de passageiros foi construída para dar suporte ao crescente volume de pousos e decolagens no aeroporto. Depois da primeira reforma, esse primeiro terminal de passageiros passou a ser ocupado por entidades administrativas, como o Departamento de Aviação Civil (DAC) e a Força Aérea Brasileira (FAB). “Essa segunda estação de passageiros tem configuração semelhante ao Aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro: um bloco horizontal, configurado a partir de uma retícula ortogonal de pilares se seção circular, que se evidenciam em ambas as faces, paralelas à pista principal, uma voltada ao pátio de aviões e outra voltada à cidade”, diz Nogara.

Saguão do Afonso Pena em 1974. Esse terminal de passageiros tinha arquitetura moderna e atualmente funciona como terminal de cargas. Foto: Reprodução/Facebook/Resgatando a história do Aeroporto Afonso Pena

Saguão do Afonso Pena em 1974. Esse terminal de passageiros tinha arquitetura moderna e atualmente funciona como terminal de cargas. Foto: Reprodução/Facebook/Resgatando a história do Aeroporto Afonso Pena

Por fim, em 1996 foi inaugurado o terminal de passageiros que é utilizado até hoje no Aeroporto Internacional de Curitiba, que fica no município de São José dos Pinhais, região metropolitana da capital.

Afonso Delagassa fotografa o aeroporto e as aeronaves que pousam e decolam ali desde 1985. Ele diz que a antiga estação de passageiros foi bastante descaracterizada para se tornar o terminal de cargas do Afonso Pena. Para ele, essa segunda construção, hoje usada como terminal de cargas, era mais “aconchegante”. Nogara concorda e acrescenta que ela era mais eficiente que a atual. O arquiteto considera que o novo terminal tem falhas graves em seu projeto arquitetônico. “Temos hoje um aeroporto grande e ineficiente. Não é um terminal de primeiro mundo em vários aspectos, entre eles manuseio de bagagem, tráfego de passageiros, climatização e fluxos. Esse é um aeroporto de improviso.”

Afonso Delagassa fotografa a chegada de um avião cargueiro ao Afonso Pena. A fotografia do aeroporto e das aeronaves é hobby desde 1985. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

Afonso Delagassa fotografa a chegada de um avião cargueiro ao Afonso Pena. A fotografia do aeroporto e das aeronaves é hobby desde 1985. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

Vista aérea do Afonso Pena em 2016. A pista cruzada construída nos anos 1940 e comum em aeroportos militares, ainda é característica do aeroporto. Foto: Sergio Mendonça Jr./ Reprodução/Facebook/Resgatando a história do Aeroporto Afonso Pena

Vista aérea do Afonso Pena em 2016. A pista cruzada construída nos anos 1940 e comum em aeroportos militares, ainda é característica do aeroporto. Foto: Sergio Mendonça Jr./ Reprodução/Facebook/Resgatando a história do Aeroporto Afonso Pena

Para quem passou uma vida toda no Afonso Pena, as lembranças seguem vivas e são motivo mais que suficiente para continuar registrando o cotidiano do aeroporto. “Esse lugar é minha vida e devo tudo que tenho a ele. Na minha veia não corre sangue, corre querosene”, brinca Dombroski.

Procurada por HAUS, a Infraero declarou que “os projetos arquitetônicos das obras da empresa seguem padrões internacionais para o desenvolvimento de aeroportos, o que inclui os terminais de passageiros”. Ela lembrou, ainda, que o Afonso Pena foi eleito o melhor aeroporto do país por 11 vezes em pesquisa realizada pela Secretaria de Aviação Civil do Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil (SAC).

*especial para a Gazeta do Povo

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