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Ippuc precisa respirar o ar de fora, diz novo presidente

Arquiteto Reginaldo Reinert assume o Ippuc com promessa de terminar a Linha Verde, tornar Curitiba mais democrática e abrir as portas da instituição para ideias de fora

Foto: André Rodrigues/Gazeta do PovoFoto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

por Luan Galani

10/01/2017

O arquiteto Reginaldo Reinert, 61 anos, mal assumiu o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) e já tem do que se orgulhar. Respeitadas lendas do urbanismo sentiram confiança suficiente com sua liderança e se ofereceram para voltar à ativa e auxiliar o diretor na nova cruzada. Já estão confirmados os nomes de Lubomir Ficinski, Lauro Tomizawa, Mauro Magnabosco, Ricardo Bindo e Rosane Valduga.

Curitibano da Rua 13 de Maio, Reinert defendeu as camisas do Atlético e do Coritiba nos times juvenis. Formou-se pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)  em 1980. Logo depois trabalhou em um dos escritórios mais premiados de todo o Brasil, o Ramalho Oba Zamoner.

Arquiteto Reginaldo Reinert, IPPUC. Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo

Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Foi a Angola durante a guerra civil, que assolou o país até 2002, para projetar algumas obras e, durante o turbulento processo de independência do Timor-Leste, foi enviado para ajudar na análise territorial do país, a fim de facilitar o desenvolvimento dos planos diretores.

Atua há 22 anos dentro do Ippuc como funcionário comissionado e, entre suas principais contribuições, estão a Linha Verde, a Capela Santa Maria e o projeto de revitalização do Passeio Público, que ainda não saiu do papel.

Leia a seguir a primeira entrevista de Reginaldo Reinert como presidente do Ippuc. Se preferir, você também pode ver o bate-papo completo em vídeo!

O urbanismo foi uma marca da última gestão municipal do Rafael Greca. Agora o planejamento urbano volta a ser uma bandeira?
Acho que sim. O Ippuc é a garantia para a cidade de que o plano diretor se mantenha e vá se adaptando às realidades de cada tempo e às dinâmicas sociais que a evolução gera. O que acontece é que o planejamento é uma ferramenta que pode ser usada ou pode não ser usada. O Rafael sabe mais do que ninguém a quantidade de ferramental que o Ippuc tem para municiar ações decisórias. Então acho natural ter a expectativa de que Curitiba renasça do ponto de vista do planejamento. Mas não acho que seja isso. O que renasce é o olhar do administrador para o ferramental que ele sempre teve. Vai ser uma extensão natural do gabinete do prefeito.

Esse ferramental está na sombra. Existem projetos engavetados. Você já tem em mente quais trazer de volta para a mesa?
Todos os projetos valem a pena. Só precisa de sensibilidade do administrador de perceber o timing dessas coisas. No processo financeiro que as cidades vivem, que não é tão simples, muitas vezes o sonho não pode ser colocado de forma maciça. Tem que ser em conta gotas. Muitas vezes as ações têm que começar de forma lenta e em pequenos passos. É saber até que ponto trabalho na massa do bolo ou coloco a cereja. A cidade precisa das duas coisas.

Sede do IPPUC em Curitiba - aniversário de 50 anos do IPPUC

Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Mas você consegue citar projetos pontuais que deseja levar para frente?
Antes de falar de projeto, tem que falar do conceito de cidade. A cidade volta a optar pelo coletivo, mais do que o individual. Ou seja, tudo que envolve ações coletivas deve ter prioridade no processo, do ponto de vista do tecido urbano. Tudo o que envolve situações em que a massa popular for atingida de maior maneira será priorizado. Um exemplo é a Linha Verde. Você imagina que não é prioridade de conclusão desse governo seria inconsequência. Tem visão do coletivo, que transcende o município e se torna metropolitana. A saúde, como o prefeito disse muitas vezes, que é quase emergencial, é uma ação de planejamento. Mas a segunda maior prioridade é o transporte, como a cidade se conecta, depois vem o resgate do espaço público. A cidade perde qualidade não pela falta de, mas pela falta de cuidado com. A curto prazo tem a Lei de Zoneamento para concluir, que é fundamental para a cidade.

Explique melhor esse conceito de cidade. Qual a sua opinião sobre a área calma, a humanização das cidades, por exemplo?
Vejo a humanização como consequência. Acho que algumas dessas palavras são de marketing. A cidade sempre foi calçada no tripé de planejamento: transporte público, sistema viário e uso do solo. É a base do plano diretor e o Ippuc mantém isso como princípio. Curitiba foi considerada por muito tempo uma das mais humanizadas do planeta porque usou bem esse tripé. Imagine agora a Linha Verde concluída. Teria desafogo, por exemplo, no eixo Norte-Sul, teria outra opção para a carga inteira do Boqueirão. No momento em que há três caminhos para atingir um único destino, o eixo Norte-Sul, dá para requalificar outros lugares. Usando uma frase que o Jaime adora: felicidade é ter opção. Se a cidade consegue dar opções de deslocamento, de permanência, seja também de atividade, consegue-se a cidade que todo mundo quer. Não mais uma cidade especializada. E sim humanizada, mais democrática. Algo que não tem acontecido. Aqui você anda a 60 km/h, aqui só pode andar a 90 km/h, aqui só pode andar à esquerda, aqui só anda à direita. Por que ela tá assim?!

A boa intenção da Área Calma é vista com reticência. Foto: Antônio More / Gazeta do Povo.

A boa intenção da Área Calma é vista com reticência. Foto: Antônio More/Gazeta do Povo.

Por quê?

Não há prioridade de nada sobre nada. No momento em que você prioriza algumas questões, naturalmente não precisa dizer que tem que andar só à direita, porque você também vai poder andar à esquerda. É só criar os espaços prioritários e o resto são os espaços de convívio, mais domesticados.

Alguns projetos independentes já propuseram soluções interessantes para a cidade. Você considera olhar para essas sugestões de fora?
Penso que sim, mas acho que tem que criar um contato maior entre essas coisas. Posso falar sem medo de criar melindres: os arquitetos são uma raça difícil. Então eu diria que quando envolve criações muito personalizadas, existe sempre a disputa pela melhor ideia. Mas acho que não existe isso de melhor ideia para a cidade. Existem, sim, as ideias que se complementam no momento em que elas são necessárias. No momento que você classifica, a gente perde. Se a cidade de alguma maneira abdica desses vários olhares, ela está perdendo soluções e melhorias em seu próprio raciocínio. Tinha que criar um processo de colaboração dessas ideias.

Você pretende criar o hábito dessas colaborações, então?
Sem dúvida. Vamos trazer os profissionais em várias etapas. Acho que o Ippuc tem que incentivar essas contribuições. Mas existem riscos. Não pode colocar profissionais a prestar serviço para o município a vida inteira. Precisamos de renovação e injeção de ideias externas em uma instituição que carece de renovação. Só que não é tão simples. Os acessos estão cada vez mais restritos. Precisa entrar através de concursos. Não era para ser o objetivo maior do Ippuc, que nasceu para ser um órgão mais aberto, menos condicionado a essas condições, para que pudesse permear mais essas ideias. Precisamos realmente fazer o Ippuc respirar um pouco o ar de fora, e o ar de fora respirar um pouco do ar do Ippuc. Acho que temos que se aproximar mais das universidades, inclusive auxiliando na condução das grades curriculares, para qualificar as próximas gerações a entrar aqui. Para estabelecer convênios e parcerias também. Os estágios do Ippuc passariam a ser indicação direta das universidades. Estágio aqui não seria condição de querer fazer, mas prêmio pela atividade acadêmica. Não mais só para cumprir uma grade curricular. Porque estágio faz em qualquer lugar, mas onde possa, mesmo sendo estudando, fazer um risco que vai interferir na vida da cidade inteira, não é para qualquer um.

Quando seu nome veio a público como novo presidente do instituto, muitos profissionais ficaram satisfeitos. A expectativa foi lá em cima. E qual é a sua expectativa?

De medo, na verdade. Expectativa demais causa responsabilidade enorme. E é inevitável. Eu trilhei um caminho grande nessa área e tenho profundo respeito por todos. Acho que a maioria continua meus amigos. É sempre uma preocupação não decepcionar amigos e mestres que já tive. Então, só aumenta a responsabilidade do processo. E fico preocupado porque realmente não quero decepcionar ninguém. Nem a mim próprio. Acho que é uma coisa a ser construída com um pouco de paciência, um pouco de parcimônia, de medo, de entusiasmo. É como se fosse casar amanhã. Você até quer, mas…

Você é o arquiteto responsável pelo projeto da Capela Santa Maria. Como você vê o cancelamento da Oficina de Música?
É uma decorrência natural da situação econômica do município. Acho que houve falhas na transição. Acho que poderiam ter propiciado uma condição melhor para o prefeito que estava entrando. Acho que não deram essa chance a ele. E ele teve que fazer uma escolha. E essa escolha, alguns consideram absolutamente política. Não considero isso. Se tratando de cultura, o Rafael deve ter pesado isso na balança. Não acho que foi fácil para ele. Mas ele insiste em dizer que não cancelou, ele adiou. E a gente ainda sonha em terminar o Santa Maria. Com o Rafael teríamos a chance de transformar em um espaço cultural pleno. A obra me qualifica para falar um pouco de cultura, mas nesse momento o que fala mais alto é a decisão administrativa do prefeito.

Fotos: Fernando Zequinão

Foto: Fernando Zequinão

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