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Igreja de Curitiba guarda tesouro doado por Dom Pedro II

A igreja do Orleans recebeu, em 1880, três presentes do então imperador durante sua visita ao Paraná

Um dos sinos tem o brasão do império timbrado em uma das laterais. Foto: André Rodrigues/Gazeta do PovoUm dos sinos tem o brasão do império timbrado em uma das laterais. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

por Carolina Werneck*

16/05/2017

No alto da torre da igreja de Santo Antonio de Orleans, às margens da BR 277, estão guardados dois sinos da época em que o Brasil ainda era império. Há 137 anos, durante uma visita ao Paraná, Dom Pedro II teria doado os objetos, junto a uma imagem de Santo Antônio, à colônia polonesa que, mais tarde, deu origem ao bairro de Orleans.

Depois de haver passado alguns dias em Curitiba, ele partiu para o interior do Paraná com a imperatriz Teresa Cristina e sua comitiva. A visita do imperador ao Estado foi bem documentada pelos jornais da época. O próprio Dom Pedro também mantinha um diário em que fez diversas anotações sobre a viagem. Nenhum desses documentos menciona a doação dos sinos e de uma imagem de Santo Antônio à igreja. A falta de papéis, porém, nada significa para os moradores de Orleans.

Paulo Oberzut e os sinos que conhece desde a infância. Foto: André Rodrigues

Paulo Oberzut e os sinos que conhece desde a infância. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Nascido e criado no bairro, Paulo Oberzut, 62 anos, conta que a história dos sinos vem sendo passada de geração em geração nas famílias Rugoski e Kulik, das quais faz parte. O sorridente morador conta que, em 1880, quando passou pelo local rumo a Ponta Grossa, a comitiva real deteve-se em Orleans. “O nome da colônia foi dado em homenagem ao genro de Dom Pedro, Filipe de Orleans, o Conde d’Eu. Por isso ele se interessou em conhecer o lugar”, conta Oberzut.

Com a simpatia do imperador conquistada pelo nome da colônia, os poloneses pediram ajuda para a construção da igreja. Dom Pedro prometeu, então, que enviaria dois sinos e uma imagem de Santo Antônio. Oberzut explica que os colonos “pensavam que ia demorar muito para a igreja ter, de fato, a imagem e os sinos prometidos, mas, apenas alguns meses depois, chegaram os presentes”.

O perfil de Dom Pedro II e um timbre que afirma que o sino foi produzido em 1861. Foto: André Rodrigues

O perfil de Dom Pedro II e um timbre que afirma que o sino foi produzido em 1861. Foto: André Rodrigues

Embora a doação não tenha sido oficialmente documentada, dois, dos três sinos da igreja, têm timbres de Dom Pedro II. Essas marcas viraram uma espécie de lenda na comunidade, já que nem todos podiam subir à torre para vê-las pessoalmente. Oberzut narra uma história de quando ele ainda era criança e estudava no colégio que ficava em frente à igreja. Ele conta que as freiras responsáveis pelo colégio estavam em dúvida sobre a veracidade da procedência do sino. Sem ter como subir à torre por causa das vestes que usavam, elas pediram ao menino um favor.

“Ela me mostrou uma moeda e uma folha, então passou um lápis em cima e disse: você chegue lá no sino, com muito cuidado, e faça no timbre como eu fiz na moeda”, conta ele. Segurando-se como podia nas vigas de madeira que formam o pequeno campanário, ele tirou o decalque das insígnias para mostrar às irmãs.

“Acho que foi dessa maneira que as irmãs viram o timbre, isso há mais de 50 anos. Lembro que tirei, talvez não perfeitamente, porque eu era um piá, né?”, diverte-se. Encantadas com a prova da história, elas cobraram dele o decalque do outro sino. “Mas o outro é mais difícil de tirar, porque tem uma viga bem na frente. Eu sentia tanta dificuldade que não tirei do outro sino e elas reclamaram.”

Um dos sinos tem o brasão do império timbrado em uma das laterais. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Um dos sinos tem o brasão do império timbrado em uma das laterais. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

O padre Fabiano Spisla, que está na paróquia há seis meses, lamenta que poucos moradores conheçam o passado e as curiosidades da igreja e da comunidade. “Quando eu chego a um local para trabalhar, eu gosto de conhecer as histórias. Quando cheguei aqui, fui perguntar o porquê do nome do bairro e ninguém sabia. Descobri tudo pela internet, inclusive sobre os sinos”, afirma.

Mas os sinos não são a única história interessante da igreja. Oberzut mostra, por exemplo, que a estação de número nove da Via Sacra teve seu número escrito errado. Em vez do algarismo romano IX, correspondente ao nove, os pintores escreveram VIV, correspondentes ao cinco e ao quatro. “Eles somaram o cinco e o quatro e puseram lá. Quando criança eu olhava e pensava ‘poxa, as irmãs querem que a gente aprenda os algarismos romanos, mas quem fez isso aqui não sabe fazer’”, diz ele, arrematando a frase com uma gostosa gargalhada.

Sinos da igreja Santo Antônio de Orleans. Os sinos foram uma doação de Dom Pedro ainda no período do Império. Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo

Detalhes sacros de um dos sinos doados por Dom Pedro II. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

Ele também aponta um desenho que representa a unção dos enfermos, perto do altar. Um dos pintores da igreja teria aproveitado a oportunidade para fazer um autorretrato. “Os pintores da igreja residiam na casa dos meus avós, que eram os Rugoski. Minha mãe dizia ‘pois eu lembro bem, pois ele morava junto com a gente. Ele se autorretratou’.”

Ele diz que faz o possível para manter essas e outras histórias vivas, contando-as a seus filhos e netos, mas se entristece porque nem todos têm a mesma preocupação. Agora, padre Fabiano quer retomar esses registros para a posteridade. “Nós vamos tentar repassar essas coisas. A gente tem que resgatar nosso passado. Se ninguém guarda, tudo isso se perde.”

*especial para a Gazeta

Sinos da igreja Santo Antônio de Orleans. Os sinos foram uma doação de Dom Pedro ainda no período do Império. Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo

A igreja de Orleans que guarda as raridades do Brasil Império. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo

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