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Sucesso nos blocos carnavalescos de antigamente, bonecões somem do carnaval de Curitiba

Bonecões carnavalescos da capital paranaense ainda vivem nas memórias dos mais antigos foliões e surgem para as novas gerações no bloco Garibaldis e Sacis

Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo/Arquivo

Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo/Arquivo

por Stephanie D'Ornelas*

12/02/2018

A folia de pré-carnaval puxada pelo bloco Garibaldis e Sacis foi animada neste ano, como já era de se esperar. Afinal, desde 1999 o bloco alegra os fins de semana que antecedem a festa oficial de carnaval em Curitiba. Mas os mais atentos foliões podem ter notado a falta de dois importantes personagens do bloco: a Anita e o Saci, os dois bonecos gigantes que são mascotes do grupo.

Os organizadores do bloco, que está sem sede oficial, tiveram que deixar os bonecões ao relento desde o ano passado. Com isso, os gigantes sofreram sérios danos, e não houve apoio financeiro ou patrocínio para a manutenção. “A gente achou melhor não colocá-los na rua agora e voltar de um jeito bonito no ano que vem para todo mundo ver”, revela Pedro Solak, um dos fundadores do bloco.

PRE CARNAVAL - 16 FEVEREIRO 2014 - CURITIBA - PARANA - Pre carnaval com Garibaldis e Sacis, na Marechal Deodoro - foto Henry Milleo / Agencia de Noticias Gazeta do Povo

Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo/Arquivo

Mais do que abrilhantar os desfiles, o casal de gigantes retrata o DNA do Garibaldis e Sacis. “A Anita homenageia a Anita Garibaldi. Representa a imigração, a cara da diversidade que forma Curitiba, além do fato dela ser uma mulher guerreira. O Saci é a parte da brincadeira, da pirraça, que tem muito no carnaval”, conta Solak.

Foi em 2013 que os dois bonecões surgiram das mãos precisas da artista paranaense Tadica Veiga. Há mais de três décadas, a produção de bonecos é seu principal ofício. Partindo de sua experiência com os pequenos, a responsável pela Cia dos Ventos se aventurou no mundo dos bonecões pela primeira vez em 1994, quando produziu quatro dragões para o Bloco do Dragão, em um resgate da história do carnaval de Antonina. Anos depois, criou e coordenou, em conjunto com Joelson Cruz, o Carnaval dos Bonecos de São José dos Pinhais, realizado entre 1999 e 2013.

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Foto: Tadica Veiga/Arquivo pessoal

Tadica demorou 15 dias para produzir cada um dos bonecos do Garibaldis e Sacis, esculpidos em isopor. “O boneco tem o poder de unir pessoas de todas as idades, de qualquer escolaridade e religião. Ele é um símbolo da nossa infância, da alegria, da pureza. É impossível ver um boneco gigante sorridente e não se sentir feliz”, expõe a bonequeira. O carnaval de Curitiba não tem uma forte cultura de desfiles com bonecos gigantes como o de Olinda, e, por isso mesmo, eles chamam ainda mais atenção, na opinião de Solak. “Além da gente poder visualizar que o bloco está presente, o boneco não deixa de ser um adereço alegórico que acaba motivando muito mais o bloco. Se a gente pudesse ter mais seria muito legal”, diz.

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Nega e Pereirão, antigos mascotes do grupo Garibaldis e Sacis. Foto: Julio Garrido/Divulgação

Os bonecos de antigamente

A capital paranaense tem seus gigantes marcados no coração dos curitibanos apaixonados por carnaval. Como o boneco Zequinha, que representava o personagem da tradicional bala de mesmo nome, lançada em 1928 pela fábrica curitibana “A Brandina”. “No início dos anos 1990 o tema da Embaixadores da Alegria era a Bala Zequinha. Foram feitos cartazes do Zequinha e o boneco saiu conosco no desfile. A gente também fez várias alegorias para os carros”, recorda Neide Fátima Rezende, de 57 anos, que participa dos festejos da escola de samba desde os 14.

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Cabeças dos bonecos do Oscarito e Carmen Miranda, produzidos por Renato Perré para o carnaval curitibano de 1985. Foto: Arquivo pessoal

Muitos dos bonecões que desfilaram com as tradicionais Embaixadores da Alegria e Mocidade Azul nas décadas de 1980 e 1990 — auge dos desfiles com bonecos nessas escolas — foram criados pelo artista e bonequeiro Renato Perré, com a ajuda da sua trupe da Companhia de Teatro de Bonecos Filhos da Lua. “Os bonecões de carnaval fazem parte de nossa herança cultural dos cortejos e celebrações oriundas de várias culturas ancestrais: gregas, asiáticas, indígenas e africanas”, conta Perré, que garante que a arte encanta todas as gerações. “Os bonecões de carnaval são bonecos mais alegóricos, são produzidos para causar um impacto mais visual e muitas vezes bastante cômico ou caricato. Eles contribuem com a brincadeira em termos de comunicação visual e ao mesmo tempo cênica”, explica.

Para Solak, o motivo do carnaval curitibano estar sem bonecos neste ano vai além da falta de tradição; é necessário incentivo. “O bonecão é muito mais caro que uma fantasia. Ele é bem mais em conta que o carro alegórico, mas, ao mesmo tempo, um carro está ali como obrigatoriedade da escola”, afirma. Tadica também faz críticas à falta de fomento à arte tradicional dos bonequeiros. “É uma pena que se dê tão pouca importância para símbolos que dão alegria para tantas pessoas. Quando os bonecos tem onde ficar, a manutenção é fácil, rápida e barata. No ano passado, ficamos o ano todo sem apoio nenhum. Os artistas são grandes apaixonados: se der só um pouquinho de oportunidade e o mínimo de condições, a gente está na rua”, assegura.

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