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Como Londres e Buenos Aires podem inspirar a revitalização do Rebouças

Zona portuária londrina passou por um controverso processo de requalificação urbana, semelhante ao da antiga região industrial curitibana. Consciência sobre patrimônio industrial é fundamental para a preservação

Sobreposição de imagens do antes e depois da London Docklands. Foto: George Davison Reid / Museum of London

Sobreposição de imagens do antes e depois da London Docklands. Foto: George Davison Reid / Museum of London

por André Nunes*

10/10/2017

O que a antiga zona portuária de Londres, marca da Revolução Industrial e da história econômica do antigo Império Britânico, e a região do Rebouças, em Curitiba, têm em comum? Guardadas as devidas proporções, vários elementos. É o que afirma a arquiteta e urbanista Iaskara Florenzano, que defendeu sua tese de especialização em Gestão Técnica do Meio Urbano sobre a temática, pela PUCPR, Université de Technologie de Compiègne (França) e Instituto Internacional de Gestão Técnica do Meio Urbano (GTU).

Em entrevista à HAUS, Iaskara explica que o fator essencial em comum entre o caso London Docklands e o Rebouças é a importância em se entender e preservar da forma adequada o patrimônio industrial das cidades – que não é visto como os demais patrimônios históricos e arquitetônicos, mas tem igual relevância no estudo das origens das metrópoles modernas.

“É fácil convencer as pessoas da importância de se preservar o Paço da Liberdade, por exemplo. É conhecido, bonito, tem uma arquitetura agradável e não fica sem uso. Mas um conjunto de fábricas, não: faltam qualidades arquitetônicas apreciáveis, uma homogeneidade nas construções e até mesmo uma utilidade mais perceptível do que se fazer com aquela edificação”, detalha a arquiteta, enfatizando que a sociedade “só protege aquilo que conhece e entende a importância histórica”. 

Demolição da fábrica Matte Leão em 2011, com antigo painel transmitindo uma simbólica mensagem. Foto: Iaskara Florenzano

Demolição da fábrica Matte Leão em 2011, com antigo painel transmitindo uma “mensagem simbólica” a Curitiba. Foto: Arquivo pessoal / Iaskara Florenzano

Matte Leão

O exemplo mais simbólico do descaso com o patrimônio industrial do Rebouças é a antiga fábrica da Matte Leão. O imóvel que ocupava um quarteirão de 16,3 mil m² na esquina da Avenida Getúlio Vargas com a Rua João Negrão, foi demolido em 2011 mesmo após criticas de profissionais ligados ao patrimônio. No terreno, está em fase final de construção o novo templo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

“Sobraram poucos registros da edificação da Matte Leão. O que temos, basicamente, são fotografias. Um dos símbolos da prosperidade econômica de Curitiba foi abaixo sem qualquer defesa. Causou comoção e controvérsia entre os diferentes órgãos que deveriam proteger o bem, mas nada foi feito para evitar a perda significativa de um pedaço da memória de Curitiba”, critica Iaskara.

London Docklands: revitalização urbana não levou em conta o patrimônio industrial de séculos de história. Foto: Divulgação

London Docklands: revitalização urbana não levou em conta o patrimônio industrial de séculos de história londrina. Foto: Divulgação

As controversas Docklands

Voltando ao exemplo londrino, Iaskara Florenzano enfatiza em sua tese a comparação da London Docklands com a antiga região fabril de Curitiba nos seguintes aspectos: posição estratégica próxima ao centro político e financeiro das cidades; grandes extensões territoriais ocupadas; falta de reconhecimento das áreas como importantes testemunhos históricos e culturais das cidades; e necessidade de se debater as futuras decisões, públicas e privadas, sobre os novos usos daquele espaço.

“No caso London Docklands, a reocupação entre os anos 1980 e 90 foi feita pelo capital privado e as políticas públicas não interferiram neste processo, fato considerado desastroso pelos analistas na época. Como consequência, houve o processo de gentrificação, quando os antigos moradores acabam sendo forçados a mudar daquela região por falta de recursos, já que a especulação imobiliária elevou o custo de vida do local”, contextualiza a urbanista.

Hotel Faena, exemplo de bom aproveitamento do patrimônio industrial do Puerto Madero, em Buenos Aires. Foto: Divulgação

Hotel Faena, exemplo de bom aproveitamento do patrimônio industrial do Puerto Madero, em Buenos Aires. Foto: Divulgação

Puerto Madero

Prestes a participar de um evento em Buenos Aires do Icomos (Conselho Internacional para Monumentos e Sítios), entidade ligada à Unesco, com enfoque no patrimônio industrial latino-americano do século 20, Iaskara Florenzano recorda que a região do Puerto Madero – hoje polo gastronômico e cultural da capital argentina – também vem passando por um processo de reurbanização parecido com os casos citados.

“Meu estudo sobre o Puerto Madero é mais recente, mas podemos destacar que tanto a ocupação quanto a desocupação territorial foi parecida (com Londres e Curitiba). As áreas acabaram degradas e abandonadas, passando por um novo modal de utilização. Muito patrimônio industrial foi perdido, mas há exemplos de bom aproveitamento, como o Hotel Faena”, destaca.

*Especial para a Gazeta do Povo

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