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Pontos de ônibus matam a essência das praças de Curitiba e contribuem para insegurança

Curitiba é a única metrópole brasileira que utiliza as praças centrais como pontos de ônibus ou terminais

Praças da região central, como a Santos Andrade, têm característica de passagem e não retém as pessoas para permanência. Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

por André Nunes*

04/01/2018

Se nas cidades interioranas elas ocupam lugar privilegiado – tanto como ponto de encontro, por serem a “praça da Matriz”, quanto como “coração urbano”, ao lado da rua principal -, as praças centrais muitas vezes ganham funções diversas nas grandes metrópoles. Ou perdem características básicas, como espaços de convivência e descanso em meio ao agito das ruas e avenidas. Em Curitiba, há ainda uma característica peculiar nesse cenário: as praças se tornaram grandes terminais ou pontos de ônibus.

“Fiz uma pesquisa in loco nas oito metrópoles de segunda ordem brasileiras, da mesma classificação de Curitiba, e em nenhuma delas as praças são usadas com essa finalidade ligada ao transporte. Isso tanto pode refletir a vocação urbanista curitibana, enraizada fortemente desde a década de 1970, quanto o uso de um espaço ‘sem uso’ para se colocar pontos e terminais, ao invés de fazer essa instalação na rua e precisar lidar com comerciantes e outros interesses”, analisa Alessandro Filla Rosaneli, professor do programa de pós-graduação em Planejamento Urbano e Geografia da UFPR e coordenador do Observatório do Espaço Público, laboratório dedicado ao estudo de ruas, praças e parques.

Caráter de terminal de transporte dificilmente será revertido em praças como a Rui Barbosa. Foto: Divulgação / URBS

Caráter de terminal de transporte dificilmente será revertido em praças como a Rui Barbosa. Foto: Divulgação/URBS

Segundo Rosaneli, o maior erro que a sociedade e o poder público incorrem é, justamente, não reconhecer o papel das praças e considerá-las “espaço sem uso”. “No nosso entendimento, a praça tem várias funções, entre elas circulação de pessoas, a função de permanência, de compartilhamento, um local que possa ser aproveitado com mais tranquilidade. Com esse movimento, Curitiba tem matado sua essência, já que algumas praças são descaradamente terminais, como a Rui Barbosa, em processos que dificilmente serão revertidos”.

Segregação de pessoas

Além da Praça Rui Barbosa, basta fazer uma lista rápida e praticamente todas as principais praças da região central e arredores se enquadram na descrição de uso pelo transporte, seja em seu interior ou nas laterais: Tiradentes, Osório, Carlos Gomes, Santos Andrade, Oswaldo Cruz e Eufrásio Correia, por exemplo.

Outro questionamento que envolve o uso das praças como pontos de ônibus é se a aglomeração de passageiros esperando uma condução não favorece sua ocupação e estímulo ao comércio, mesmo que momentânea. “Estamos conduzindo um estudo sobre isso, analisando o nível de comprometimento ou favorecimento que a presença de um ponto de ônibus traz para uma praça. Mas os primeiros resultados não são animadores: há uma segregação, e não há uma contribuição ao uso da praça pelos usuários de transporte”, sentencia Rosaneli.

Praça Eufrásio Correia. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Praça Eufrásio Correia: antigo eixo cívico municipal e estadual. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Movimento histórico

O especialista aponta ainda a importância do uso das praças pela sociedade como definidor do seu caráter urbano. “As praças sempre foram muito usadas quando tinham correspondência com a sociedade. Quando não se tem esse uso, elas se esvaziam. Isso é um movimento histórico. Outros tipos de uso, mais dinâmico, precisam ser elaborados, numa evolução constante. Da mesma forma, as praças tombadas como patrimônio histórico são preservadas como registros de um momento”, afirma.

Nesse contexto, Rosaneli destaca a Praça Eufrásio Correia, que perdeu seu caráter central, ao lado da antiga estação ferroviária, quando da sua desativação e mudança do eixo do poder municipal e estadual para o Centro Cívico. “As praças são joias raras dentro das cidades e precisam voltar a ser pensadas como espaços públicos de convivência. Ainda tenho esperanças de que esse fenômeno volte a acontecer nos planejamentos urbanos daqui pra frente”, acredita.

*Especial para a Gazeta do Povo.

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