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Entre planos e polêmicas, a Curitiba vista pela velha guarda do Ippuc

Três expoentes da revolução urbana empreendida em Curitiba a partir de 1970 discutem a cidade que comemora mais um aniversário no próximo dia 29

Haus reuniu alguns dos grandes nomes da velha guarda do Ippuc: Alan Cannell, Abrão Assad e Osvaldo Navaro.Haus reuniu alguns dos grandes nomes da velha guarda do Ippuc: Alan Cannell, Abrão Assad e Osvaldo Navaro.

por Luan Galani

22/03/2016

Quando três mentes brilhantes da heroica geração de 1970 do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) se reúnem, qual o primeiro tema que surge no bate-papo?

a) futebol

b) pássaros

c) arquitetura contemporânea

d) canoagem

e) música.

Quem escolheu a resposta B acertou na mosca. Ao se encontrarem para esta reportagem a convite da Haus, o arquiteto Osvaldo Navaro, 71, que já presidiu o Ippuc e é lembrado, entre outras coisas, por ser o inventor da primeira lombada eletrônica, traz diversas bananas para alimentar os pássaros que vivem no Bosque da Coruja, no Pilarzinho. O gesto faz o engenheiro civil irlandês Alan Cannell, 66, autoridade mundial em trânsito, lembrar-se da vez que cuidou de um tucano com a asa quebrada no Campo Comprido e depois levou bronca do Ibama por “interferir na seleção natural”. Essa já é a deixa para o arquiteto Abrão Assad, 74, conhecido pelo projeto de fechamento da Rua XV, recordar-se dos pássaros guachos e de como eles fazem seus ninhos parecerem sacos suspensos justamente para se proteger dos tucanos. Enquanto trocam experiências, falam da cidade. Leia os melhores trechos da conversa.

Rua das Flores

Fechamento da Rua XV revitalizou a região central e inaugurou por essas bandas o conceito de cidade humana.

Fechamento da Rua XV revitalizou a região central e inaugurou por essas bandas o conceito de cidade humana.

Pouca gente sabe, mas o edifício sede da Petrobras tem dedo do Assad. Todos os desenhos em baixo relevo são dele. “O Paiol toca mais meu coração do que aquele predião. É questão de escala humana. Mas o projeto que marcou a vida da cidade foi a Rua das Flores. Se tivesse dado errado, o Jaime Lerner teria caído e nada mais iria acontecer em Curitiba”, diz o arquiteto. “O Ippuc antes era uma biblioteca de projetos, com estoque de ideias para 20 anos para o futuro. Agora esgotou. Nosso futuro é refém da falta de pauta de planejamento.”

Área Calma

A boa intenção da Área Calma é vista com reticência. Foto: Antônio More / Gazeta do Povo.

A boa intenção da Área Calma é vista com reticência. Foto: Antônio More / Gazeta do Povo.

“Criaram mais um factoide. Falam que a área concentrava o maior número de atropelamentos da cidade e que parece que reduziu 30%. Maravilha! Sou a favor. Salva vidas. Mas e o aumento das multas? Por que o sincronismo dos semáforos da área ainda tá em 60 km/h, induzindo os motoristas a irem mais rápido que o permitido?”, questiona Cannell, adepto da crítica sincera. “Acho que foi feito para aumentar a receita. Mas virei cínico nos últimos 40 anos, talvez seja a água daqui” brinca.

A gente não precisa de metrô

A cidade não precisa de metrô, mas de melhorias no atual sistema BRT. Foto: Creaig Toocheck / Freeimages.

A cidade não precisa de metrô, mas de melhorias no atual sistema BRT. Foto: Creaig Toocheck / Freeimages.

Os três são unânimes: a ideia de metrô para Curitiba é descabida. “Primeiro porque quem faz metrô é o governo federal ou o estadual para grandes capitais, como São Paulo, Londres e Tóquio. Em nenhum lugar do mundo existe metrô subsidiado pelo município. É inviável”, defende Cannell. E Osvaldo complementa: “Se o metrô ficasse pronto hoje, não teríamos dinheiro para manter. Seriam necessários aproximadamente R$ 20 milhões por mês para o funcionamento do sistema”. “Sem falar que a demanda por passageiros cai ano a ano. Não há gente suficiente utilizando o sistema para justificar o metrô. Temos de tornar o sistema mais eficiente e competitivo com o carro”, lembra Assad. A solução, para Cannell, é permitir a ultrapassagem dos ônibus nos horários de pico, investir nas faixas exclusivas e nas canaletas, especialmente na região sul, onde “nada foi feito para não atrapalhar os bilhões do metrô”.

O Barigui estaria canalizado…

Parque Barigui deve sua existência à coragem do Ippuc da época, composto por aproximadamente 15 pessoas. Fotos: Daniel Castellano / Gazeta do Povo.

Parque Barigui deve sua existência à coragem do Ippuc da época, composto por aproximadamente 15 pessoas. Fotos: Daniel Castellano / Gazeta do Povo.

Se não fosse por eles. “Sempre houve muito lobby para construir grandes obras para as empreiteiras. Tinha um projeto, que está nos arquivos da prefeitura, de canalização do rio Barigui. Iam gastar uma fábula de dinheiro. Os empreiteiros vinham e se ofereciam para arrumar dinheiro em vários ministérios”, lembra Osvaldo. “Mas graças ao engenheiro Nicolau Klüppel, que vai direto para o céu, descobriu-se que era melhor deixar os rios como eles estavam e fazer parques, que ajudam na drenagem da água e são um espaço de convivência.” Mesmo depois de 40 anos da experiência, a experiência continua atual. Diversas cidades da Malásia, por exemplo, estão destruindo as canalizações e valorizando seus rios.

Confira a entrevista realizada durante o evento No Sofá da Haus, na última quarta-feira:

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