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OPINIÃO

4 motivos que mostram por que Lula é o maior peemedebista da história

Ex-presidente sempre fez questão de rechaçar qualquer hipótese de governar sem a aliança com o partido de Michel Temer

  • Rodrigo da Silva, do Spotniks, especial para a Gazeta do Povo
Ex-presidente Lula: sem arrependimentos por aliança com PMDB | NELSON ALMEIDA/AFP
Ex-presidente Lula: sem arrependimentos por aliança com PMDB NELSON ALMEIDA/AFP
 
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Poucas histórias de amor são tão intensas na política brasileira quanto a de Lula com o PMDB. 

Ao longo de mais de uma década, contrariando parte da sua própria base e indo na contramão dos caciques peemedebistas que flertavam com seus oposicionistas - seja para manter governabilidade, seja para se distanciar da ala radical de seu partido - Lula sempre fez questão de rechaçar qualquer hipótese de governar sem a aliança com os peemedebistas e de ir para o campo de batalha contra o partido, mesmo quando surfava na maior aprovação presidencial da história e era capaz de eleger como sucessora uma figura até então pouco conhecida da população. 

Incentivando a dobradinha como podia, por uma década - mesmo quando não tinha o apoio do partido - Lula evitou ao máximo um embate que poderia dilacerar o núcleo duro peemedebista e com franco entusiasmo ajudou a reeleger boa parte das principais figuras que estão hoje no poder pelo PMDB, abrindo mão inúmeras vezes de lançar candidatos de seu próprio partido para isso. 

Não sem razão. Poucas figuras foram tão relevantes na história do PMDB quanto Lula. E se você ainda tem qualquer dúvida a respeito disso, aqui trago 4 motivos que explicam o porquê. 

1. Ninguém jamais defendeu tão bem o PMDB como ele. 

Lula sempre foi um entusiasta do PMDB e atuou por mais de uma década - como revelaram grampos da Polícia Federal, com autorização da Justiça, em março de 2016 - como um dos principais interlocutores do partido

Em 2003, logo após assumir a presidência, pediu formalmente a presença do partido em seu governo. Três anos depois, na corrida à reeleição, foi voto vencido na fracassada disputa de substituir José Alencar por um vice do PMDB. Em 2010, costurou a aliança para que o partido finalmente embarcasse na chapa presidencial, afirmando que Temer tinha uma “vida política comprovada e aprovada” e que nenhum nome assumiria a posição sem estar em ampla sintonia com Dilma Rousseff. 

"O correto é o PMDB discutir dentro do PMDB, indicar três nomes para a ministra Dilma para que ela possa escolher porque isso é que nem casamento. Quem vai casar com o vice é a candidata, e você não pode empurrar pra ela alguém que não tem afinidade com ela porque aí será discórdia total." 

Em 2013, ressaltando a "sólida coalizão de governo" formada por PT e PMDB, que segundo ele realizaram no país "uma verdadeira revolução democrática", Lula elogiou Michel Temer - que estava cumprindo “papel particularmente significativo" no governo Dilma - e defendeu que a participação do PMDB fosse ainda mais aprofundada no governo. Mais do que isso: dizia que não havia feito nada sozinho e que cada conquista sua era também uma vitória de seu principal aliado. 

"Juntos, fizemos o país voltar a crescer. Somamos esforços para resgatar a soberania nacional. Preservando a identidade de cada um dos nossos partidos, fomos capazes de construir uma parceria programática e política", disse. “A partir de 2006, constituímos uma sólida coalizão de governo para impulsionar as mudanças econômicas e sociais que o país sempre almejava". 

Segundo ele, o PMDB estava "destinado a muitas outras vitórias". 

E não deveria se contentar apenas com isso. 

Em 2015, antes de estourar o impeachment contra Dilma, num encontro com José Sarney (PMDB-MA), Renan Calheiros (PMDB-AL), Garibaldi Alves (PMDB-RN), Edison Lobão (PMDB-MA) e Roberto Requião (PMDB-PR), Lula defendeu que o PMDB, enfim, assumisse o protagonismo no governo

“O café foi muito bom. O ex-presidente tem preocupação com o quadro da economia, com o quadro político e está disposto a ajudar. Nós também temos esse propósito”, declarou Renan Calheiros. “Ele acha que o PMDB precisa ter um papel de protagonismo e sugeriu até o nome do vice-presidente Michel Temer. Lula lembrou que, quando foi presidente, envolvia o vice-presidente José Alencar em todas as decisões. E acha que o mesmo deve ocorrer agora. É preciso que o governo envolva o vice-presidente Michel Temer em todas as decisões porque ninguém melhor que o Michel interpreta o sentimento do partido como um todo.” 

2. Ninguém jamais defendeu tão bem os caciques do PMDB como ele. 

Lula nunca se contentou em ter apenas o apoio institucional do PMDB e em dividir cargos e dinheiro em moeda forte da máquina pública. Fazia questão de sempre ressaltar a hombridade e competência de seus integrantes, com profundo entusiasmo. 

Ainda em 2005, quando tinha como ministro da Previdência o pernambucano Romero Jucá - o homem que queria “botar o Michel num grande acordo nacional”; um acordo que “protege o Lula, protege todo mundo” - Lula o defendeu das acusações de corrupção dizendo que não podia “tirar ou colocar ministro em função dessa ou daquela manchete de jornal”. Para o ex-presidente, “a missão dele [Jucá], e que está cumprindo muito bem” era a “de tentar ajudar a resolver o problema da Previdência Social, no Brasil”. 

Em 2010, o ex-presidente também não poupou elogios a Geddel Vieira Lima - atualmente preso pela Polícia Federal -, seu então ministro da Integração Nacional. 

“Você foi um cumpridor de tarefa extraordinário. E isso eu tenho ouvido não apenas da minha boca, que viajo com você, mas da companheira Dilma, que conviveu contigo”. 

No mesmo ano, a respeito de Sérgio Cabral, ex-governador preso acusado de liderar o maior assalto aos cofres públicos da história do Rio de Janeiro, foi categórico: 

“Votar no Sérgio Cabral é quase que uma obrigação moral, ética, política, é um compromisso de honra pra quem quer garantir um futuro melhor para os nossos filhos, para os nossos netos, para aqueles que a gente ama. Porque esse homem já provou que é um homem de bem, que é um homem que gosta do Rio, e que é um homem que tem competência para fazer as coisas que outros não fizeram. Por isso, meu companheiro Sérgio, se eu não tivesse que votar em São Paulo, eu iria transferir o meu título para votar em você pra governador do Rio de Janeiro.” 

Em 2013, num discurso no Senado, anos após afirmar que Sarney tinha “história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”, Lula voltou a elogiá-lo com condolências.  

"Eu quero lhe dizer claramente que o senhor merece minha homenagem por seu comportamento digno como presidente, de permitir que nós disséssemos todos os desaforos que pensávamos que tínhamos o direito de dizer ao senhor e o senhor não se sentiu afrontado por isso. (...) em nenhum momento, mesmo quando o senhor era afrontado no Congresso, o senhor não levantou um único dedo para colocar qualquer dificuldade aos trabalhos da Constituinte, e certamente foi o trabalho mais extraordinário que esse Congresso já viveu." 

Nem Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala de Temer, escapou dos elogios de Lula. Candidato a vice-governador na chapa do pedetista Osmar Dias, apoiado pelo PT, no Paraná, Rocha Loures dividiu palanque em alguns momentos com o ex-presidente, que não mediu palavras para elogiá-lo

"A sabedoria de convocar para vice o 'Zé Alencarzinho do Paraná', um menino de caráter, filho de um homem de bem (...). Vocês podem estar trabalhando para construir uma nova geração de políticos no estado." 

3. Mesmo batendo recorde de aprovação, ele jamais realizou reformas que desagradassem o PMDB (mesmo quando isso significava contrariar o seu próprio partido). 

Mesmo com 87% de aprovação popular, capaz de eleger uma sucessora desconhecida da população com uma simples indicação, Lula jamais realizou as grandes reformas estruturais prometidas por pelo menos duas décadas à base petista. 

No poder, manteve o tripé macroeconômico em seu primeiro mandato, com um Ministério da Fazenda aliado ao mercado, realizou um dos mais duros ajustes fiscais da história e atraiu peemedebistas como Edison Lobão, Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Eunício Oliveira e Hélio Costa para chefiar alguns de seus principais ministérios. 

Ocupando o cargo mais importante do país, descartou uma reforma tributária e previdenciária nos moldes que seu partido sonhava, foi o mais conservador possível no pagamento da dívida pública nacional, assentou menos sem-terras que seu sucessor, descartou medidas progressistas como a taxação de grandes fortunas ou a cobrança de tributos de igrejas, adotou o Bolsa Família - um programa de imposto de renda negativo que era duramente criticado por seus apoiadores nos anos noventa, baseado em ideias defendidas desde o anos sessenta por liberais como Milton Friedman - como principal bandeira social, concedeu inúmeros bens públicos à iniciativa privada, permitiu com que os bancos tivessem recorde histórico de lucro, incentivou a fusão de grandes empresas, concedeu crédito subsidiado pelos trabalhadores a barões da indústria. 

Acusado no episódio do Mensalão de comprar sua base política para aprovação de projetos, teve, especialmente no segundo mandato, maioria no Congresso para aprovar as reformas que sempre prometeu. Contentou-se, no entanto, a seguir um planejamento muito mais perto do peemedebismo do que do petismo. 

Em 2007, por exemplo, no auge de seu segundo mandato, mesmo contrariando a base do próprio partido, foi duro crítico da CLT e defendeu uma modernização das leis laborais no país usando os mesmos argumentos da reforma trabalhista atual. 

"Não é possível que algumas coisas feitas em 1943 não precisem de mudanças para 2007, 2008. O mundo do trabalho mudou, houve evolução, a condição de trabalho é outra." 

Citando como exemplo a necessidade de realizar uma reforma à massa de jovens de 15 a 24 anos que não é absorvida pelo mercado, defendeu contratos especiais para a categoria e questionou os críticos à esquerda. 

"Tem companheiro que fala que não que pode ter um contrato especial porque vai precarizar o jovem e torná-lo um trabalhador diferente. Tudo bem, mas trabalhador diferente ele já é sem trabalhar." 

Em outra ocasião, pediu compreensão dos movimentos sindicais em relação a uma reforma trabalhista, até “para que não fiquemos defasados na nossa relação comercial com outros países”. 

“Essa realidade os dirigentes sindicais terão que compreender, o governo terá que compreender e eu acho que todos nós teremos que compreender. Porque, muitas vezes, em defesa de uma igualdade a gente permite que a maioria fique marginalizada." 

Para Lula, a flexibilização era uma pauta necessária. 

“Nosso compromisso é retomar o debate, por meio do diálogo tripartite, a exemplo do que foi feito no primeiro mandato com a Reforma Sindical. Mas para que se avance é preciso encorajar os trabalhadores com o encaminhamento da Reforma Sindical no Congresso, que deverá estimular a negociação coletiva e a solução de conflitos trabalhistas. Quanto ao suposto impacto da reforma trabalhista na geração de emprego, relatórios da OIT e da OCDE mostram que não há evidências empíricas de aumento do desemprego decorrente da flexibilização de direitos.” 

E a defesa da flexibilização das leis trabalhistas não era a única que desagradava a base. Lula contrariava também ao argumentar em defesa de uma reforma da previdência. 

"Acho que a Previdência, de vez em quando, deve ser reformada. Na medida que é provado cientificamente a nossa longevidade, a gente não pode ficar com a mesma lei feita há cinquenta anos." 

Foi exatamente por esse pensamento que logo em seu primeiro ano de mandato, quando ainda não tinha apoio do PMDB, Lula fez questão de realizar uma reforma previdenciária ao funcionalismo público que gerou mágoas irreconciliáveis em seu partido. Como relatou a imprensa na época: 

“O governo está enfrentando resistências de setores radicais do partido, e ainda hoje a bancada de deputados se reúne de novo, às 15 horas, para tomar algumas providências, que, na prática, significarão o isolamento de parlamentares radicais. Uma das propostas é a de afastar o deputado Lindbergh Farias (RJ) da vice-liderança, como punição pelas declarações de que poderia apoiar ação na Justiça contra a campanha publicitária do governo em defesa da reforma da Previdência. Outra decisão que poderá ser tomada na reunião da bancada petista às 15 horas de hoje será a de destituir a deputada Luciana Genro (RS), o deputado João Batista "Babá" (PA) e o próprio Lindberg Farias (RJ) da comissão especial da reforma da Previdência. O PT ocupa seis vagas nessa comissão, metade governista e metade da ala radical petista. (...) Em relação ao deputado Lindbergh Faria, a expectativa é de que ele saia das funções de representação na bancada e se acomode. Mas, em relação à senadora Heloísa Helena, o PT vai agir com rigor. Na visão do presidente do partido, deputado José Genoíno, ela "ultrapassou os limites" ao sugerir ação na Justiça contra a campanha publicitária do governo pró-reforma. Isso irritou profundamente a direção partidária, que já começa a trabalhar com a hipótese de a senadora tomar a iniciativa de sair do PT.” 

Na época, Lula liderou uma reforma que decretava, entre outras coisas, a criação de cobrança previdenciária para os servidores públicos aposentados que recebiam acima de R$ 1.058 mensais, a fixação de teto para os valores das aposentadorias, a criação de teto e subteto para os salários dos servidores (para que não excedesse os salários do presidente da República), o aumento na idade mínima de aposentadoria e a redução dos valores das pensões. 

O PMDB ainda não fazia parte do governo, mas o peemedebismo já era parte intrínseca à natureza política de Lula. 

4. Mesmo depois do impeachment, ele continua ao lado do PMDB. 

 Se você acha que liderar uma insurreição contra o governo Dilma foi motivo suficiente para que petistas e peemebedistas jamais se sentassem à mesa política brasileira outra vez, pense novamente. 

Apesar de todo falatório em palanque, nas eleições municipais de 2016, quando o divórcio já havia sido selado no governo federal, PT e PMDB foram responsáveis pelo maior número de dobradinhas país afora. Ao todo, o PT esteve presente em quase 30% das coligações que apoiavam candidatos do PMDB à prefeitura: apoiou aqueles que chamava de golpistas em exatos 648 municípios

Há poucas semanas, não por acaso, Lula disse não ter se arrependido da aliança com o PMDB, apesar do impeachment. Mais do que isso: saiu em defesa de Temer

“Se o procurador-geral da República tem uma denúncia contra o presidente da República, ele primeiro precisa provar. Tem que ter provas materiais. Falo isso porque já cansei de ser achincalhado sem ninguém apresentar nenhuma prova. E eu sou achincalhado desde 1982 quando criei o PT”, disse. “Quando alguém tem que fazer uma acusação, a pessoa tem que mostrar provas materiais para a sociedade. Não adianta dizer que a pessoa cometeu um erro”. 

De fato, ao manter o apoio país afora a candidatos do PMDB mesmo depois do impeachment, ao lutar pelos interesses do partido mesmo quando isso significava romper com sua própria base, ao rechaçar as reformas históricas que seu partido sempre defendeu e abraçar as ideias de seu aliado que sempre condenou, ao elogiar efusivamente candidatos do PMDB envolvidos em escândalo como representantes fidedignos da ética nacional, auxiliando-os a vencer duras eleições de forma recorrente, ao aproximar e conceder parte da máquina pública aos interesses do PMDB mesmo quando tinha recordes de aprovação para enfrentá-lo, ao colocá-lo como protagonista do poder mesmo quando estava sentado na cadeira mais importante do país, Lula se transformou no maior peemedebista da história

Nesse momento, é difícil julgar que mesmo figuras como Ulysses, Tancredo, Sarney ou Michel Temer tenham, em algum momento, colaborado tanto para o bem estar do próprio partido quanto o líder máximo do PT. 

Há mais de uma década o Brasil vive a grande Era do PMDB. E se há alguém responsável por isso, capaz de sair em defesa de seu traidor mesmo depois de consumado o adultério, esse alguém é definitivamente seu maior cabo eleitoral. 

Seu nome é Luiz Inácio Lula da Silva. 

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