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opinião

A juventude de hoje rejeita o capitalismo, mas quer substituí-lo com o quê?

A parte da população em geral que questiona o centro do capitalismo é a maior em pelo menos 80 anos de pesquisas sobre o assunto

  • Joseph Blasi e Douglas L. Kruse The Conversation
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A juventude de hoje está cada vez mais infeliz com a forma como seus antecessores estão lidando com o mundo. 

Sua ira foi recentemente expressa quando milhares de adolescentes e outros ao redor do país marcharam no dia 24 de março exigindo um maior controle de armas. Isso ocorreu pouco mais de um mês depois que parte de seus colegas foi baleada e assassinada em uma escola de Ensino Médio em Parkland, na Flórida

Mas há crescentes evidências de que os jovens de hoje, que possuem entre 18 e 29 anos, estão fortemente insatisfeitos com outros aspectos fundamentais de nosso sistema político e econômico. Especificamente, cada vez mais jovens estão rejeitando o capitalismo. 

Isso nos levou – um sociólogo e um economista – a nos perguntarmos como eles reformulariam o sistema econômico se pudessem. A resposta, baseada em pesquisas recentes, deve fazer qualquer político atual repensar seriamente suas políticas econômicas. 

Rejeitando o capitalismo 

Primeiramente, nós desejávamos entender melhor como os jovens se sentem em relação ao sistema econômico atual. 

Então começamos examinando uma inquietante pesquisa realizada em 2016 pela Universidade de Harvard que descobriu que 51% da juventude americana entre 18 e 29 anos não apóia mais o capitalismo. Apenas 42% disseram apoiar, enquanto somente 19% está disposta a se afirmar como “capitalista”

Embora possa ser real que jovens de qualquer geração tendam a apoiar menos o sistema político e econômico estabelecido e tendam a modificar suas visões conforme envelhecem, pesquisas passadas sobre o assunto sugerem que esse é um fenômeno novo, sentido principalmente pela juventude de hoje.

Uma pesquisa de 2010, feita pela empresa de pesquisa de opinião Gallup, mostrou que apenas 38% dos jovens tinham uma visão negativa do capitalismo – e isso ocorreu logo depois da pior crise financeira e econômica desde a Grande Depressão, que afetou com força particularmente os jovens. 

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O que podemos entender disso? Eles preferem o socialismo, em que o governo regula mais ativamente, intervém na economia e restringe a escolha individual? 

Não está claro. A pesquisa realizada pela Universidade Harvard mostrou que apenas 33% disseram ser a favor do socialismo. Uma outra pesquisa, conduzida em 2015 pelo grupo conservador Reason-Rupe, descobriu que jovens entre 18 e 24 anos têm uma visão um pouco mais favorável do socialismo que do capitalismo. 

Suas visões contrastam significativamente com os mais velhos, que consistentemente dizem aos pesquisadores que preferem o capitalismo com grande margem — mais ainda conforme a idade avança. Ainda assim, a parte da população em geral que questiona o centro do capitalismo é a maior em pelo menos 80 anos de pesquisas sobre o assunto. 

É claro, as perguntas que os pesquisadores fazem aos americanos variam significativamente de pesquisa para pesquisa, e os tamanhos das amostragens não são sempre grandes o suficiente para obter conclusões definitivas. 

Ainda assim, os dados sugerem que os jovens de hoje são parte de uma vanguarda de americanos que estão perdendo a fé no capitalismo e estão prontos para adotar algo novo. 

Mas o que eles querem? 

Então, se os jovens estão cada vez mais rejeitando o capitalismo mas são ambíguos sobre o socialismo, o que eles querem? 

Para responder a esta pergunta, precisamos explorar o que do capitalismo eles acham tão insatisfatório. 

Um grupo focal elaborado subsequentemente ao estudo de Harvard concluiu que muitos desses jovens sentem que “o capitalismo era injusto e deixou pessoas de fora apesar de trabalharem muito”. Uma pesquisa realizada em 2012 pelo Pew Research Center descobriu que 71% daqueles entre 18 e 34 anos de idade percebiam fortes conflitos entre ricos e pobres na sociedade americana. 

A maioria dos jovens disse acreditar que aqueles mais privilegiados são assim porque “eles conhecem as pessoas certas ou nasceram em famílias ricas”. 

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Essas visões sobre a desigualdade inerentes no sistema econômico americano dominam a as maiorias de Republicanos, Democratas, Independentes, conservadores, moderados e liberais. Para nós, isso sugere que a principal razão para que os jovens tenham perdido a fé no capitalismo é que ele perdeu sua capacidade de ser justo. Mas eles não parecem acreditar que um sistema alternativo como o socialismo possa resolver o problema. 

Em vez disso, nós podemos começar a reunir o que pode funcionar, na visão deles, ao examinar uma pesquisa de 2015 feita pelo instituto de pesquisas Public Policy Polling, que perguntou aos participantes a respeito de suas visões sobre empresas que pertencem aos empregados e a intervenção do governo para encorajá-las. 

A pesquisa descobriu que 75% daqueles entre 18 e 29 anos apoiam isso, muito mais do que qualquer outra categoria de idade, enquanto 83% disseram que empresas que pertencem a empregados são tão americanas quanto a torta de maçã, o cachorro-quente e o beisebol. 

Então essas pesquisas, de certa forma, sugerem que os jovens não querem menos capitalismo, mas mais dele. Eles só querem ter certeza de que ele é partilhado de forma mais ampla, como tornando mais fácil para mais de nós nos tornarmos capitalistas e partilharmos na riqueza que criamos coletivamente. 

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Como dois professores que encontram essa geração diariamente em nossas salas de aula, ficamos surpresos com o grande apoio a esses conceitos em nossas disciplinas universitárias sobre economia e governança corporativa. 

Outras pesquisas sugerem que o desejo por uma forma mais inclusiva de capitalismo está se tornando mais amplamente presente. Uma pesquisa da Gallup sobre a situação do ambiente de trabalho americano em 2016 descobriu que 40% de todos os trabalhadores americanos deixariam a empresa que trabalham por uma que que tivesse divisão dos lucros. 

E está se tornando cada vez mais fácil fazer isso conforme mais empresas americanas adotam a participação dos trabalhadores no capital de uma forma ou de outra, alguns atraídos pela habilidade de reduzir a rotatividade e melhorar a performance econômica. Só no ano passado, uma empresa abriu no Vale do Silício oferecendo certificação para negócios pertencentes a empregados “para construir uma economia de negócios pertencentes a empregados”. 

Atacando a economia 

O que os americanos testemunharam em 24 de março foi uma energética, dinâmica e poderosa nova força política nos Estados Unidos. 

Neste momento, ela está focada nas armas. Mas esta força pode muito bem voltar sua atenção para a estrutura de corporações e para um sistema econômico que levou a cada vez maiores níveis de desigualdade. 

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Assim como legisladores podem querer repensar suas visões sobre os direitos armamentistas, eles também devem reexaminar sua compreensão de como o capitalismo deve ser.

Joseph Blasi é Professor e Diretor do Instituto para o Estudo da Propriedade do Empregado e Participação nos Lucros da Escola de Administração e Relações Trabalhistas da Rutgers University  

Douglas L. Kruse é Professor e Reitor Associado para Assuntos Acadêmicos da Rutgers University

©2018 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

Tradução de Maíra Santos
The Conversation

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