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Baleia Azul: o que é realidade e ficção em toda essa história?

Quando uma lenda urbana nascida na internet pode ganhar contornos perigosos demais

  • Carlos Orsi especial para a Gazeta do Povo
Baleia Azul: lenda urbana ou realidade? | Robyn BeckAFP
Baleia Azul: lenda urbana ou realidade? Robyn BeckAFP
 
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“Lenda Urbana” é uma expressão popularizada, na década de 80, pelo folclorista americano Jan Harold Brunvand, para se referir a histórias que trazem semelhanças estruturais com fábulas mitológicas e narrativas folclóricas, mas que têm origem recente e em ambientes predominantemente urbanos. Exemplo clássico é o conto do homem que passa a noite com uma linda mulher desconhecida, mas acorda no dia seguinte nu, numa banheira cheia de gelo – e sem um rim.

Baleia azul: saiba identificar se o jovem está no jogo e como denunciar

Esses enredos são transmitidos oralmente ou, nos últimos anos, via internet. E é comum que quem as espalha diga que a história aconteceu com o “amigo de um amigo”, o que acabou até gerando uma sigla em inglês FOAF, “friend of a friend”.

Jogo Baleia Azul: Eu tentei jogar o game de suicídio e o resultado é surpreendente

Agora, se você deu pelo menos uma passada de olhos pela internet brasileira nesta semana, é quase inevitável que tenha encontrado alguma menção a um suposto “jogo da Baleia Azul”, organizado em redes sociais ou websites de difícil acesso, em que adolescentes psicologicamente vulneráveis são induzidos a realizar uma série de tarefas cada vez mais mórbidas, como numa gincana macabra, sendo que a derradeira missão é o suicídio.

Jogo Baleia Azul e seriado do Netflix fazem Curitiba emitir alerta após tentativas de suicídio de adolescentes

Esse parece ser mais um roteiro de lenda urbana. Mas, de acordo com informes divulgados pela grande mídia, há de fato casos concretos de tentativa de suicídio e automutilação de jovens atribuídos à “Baleia Azul” em diversos Estados brasileiros, sendo pelo menos dois no Paraná (informes iniciais davam conta de oito, apenas em Curitiba). O que tira de vez o jogo do mundo das lendas – ou não?

A questão é capciosa porque é um fato bem sabido que mitos estimulam comportamentos. Civilizações antigas sacrificavam seus filhos para apaziguar deuses imaginários, e há quem diga que as civilizações contemporâneas seguem fazendo a mesma coisa, apenas com outra roupagem.

Adolescentes suspeitos de participar do desafio do Baleia Azul são da mesma região de Curitiba

O mito da Baleia Azul, até onde apurações conduzidas pelo site Snopes, que investiga boatos online, e por jornalistas da Europa Oriental e da Ásia Central, onde a lenda parece ter se originado, descreve um grupo secreto de manipuladores psicológicos, os “curadores”, que induz adolescentes ao suicídio e ameaça matá-los ou perseguir seus familiares caso suas ordens não sejam cumpridas.

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Nesses termos, é bem provável que o jogo não seja “verdadeiro”, no sentido de haver mesmo uma central russa de torturadores mentais que, por algum motivo, decidiu abrir uma filial no Brasil. A história toda soa demais como o enredo de “Nerve”, um filme de ficção científica de 2016 em que jovens se inscrevem como “participantes” ou “espectadores” num videogame, sendo que os “participantes” são observados o tempo todo e têm de cumprir desafios propostos pelos “espectadores”, numa espiral paranoica.

Mas a mera ideia do jogo -- e sua disseminação irresponsável – é, sim, perigosa.

Existe o risco de o jogo tornar-se, em certa medida, real: qualquer um pode se fazer passar por um “curador”, aproveitando a aura de mistério e autoridade sobre-humana gerada pelo mito. Reforçar o mito, portanto, só reforça essa tentação. Alguém dotado de um senso de humor doentio pode decidir fazer isso “só pela farra”, para depois descobrir que a brincadeira escapou ao seu controle.

13 motivos para não ver “13 Reasons Why”, a polêmica série sobre suicídio da Netflix

Por isso é essencial que a mídia e as autoridades sejam extremamente cautelosas: antes de reportar uma suposta epidemia de tentativas de suicídio “ligada à Baleia Azul”, seria melhor primeiro checar as estatísticas e, depois, apurar se a ligação é real. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos define um “aglomerado de suicídios” como “um processo pelo qual a exposição ao suicídio ou comportamento suicida de uma pessoa ou pessoas influencia outras” a tentar o mesmo, e destaca a necessidade de uma atuação responsável por parte da mídia. A Baleia Azul ainda parece ser só uma lenda. Vamos tomar cuidado para não a transformar em algo real.

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