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“Esquerdomachos”: quem são eles e por que estão ganhando péssima fama

A expressão tem ganhado espaço no mundo das indiretas nas redes sociais e foi parar na boca de feministas como a famosa youtuber JoutJout, mas as tensões entre a esquerda e o feminismo não são recentes

  • Isabella Mayer de Moura
  • especial para a Gazeta do Povo
Cartaz com a frase “Por todas nós”, confeccionado pelo Movimento Feminista de Curitiba | Hugo Harada/Gazeta do Povo
Cartaz com a frase “Por todas nós”, confeccionado pelo Movimento Feminista de Curitiba Hugo Harada/Gazeta do Povo
 
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No ano em que o movimento contra os casos de abuso e assédio sexuais ganhou voz e derrubou figurões importantes no Ocidente, o radar contra o machismo ficou ainda mais calibrado. Basta fazer uma pesquisa no Google para ver a enorme quantidade de relatos de mulheres denunciando atitudes machistas de seus parceiros (ou ex), colegas de trabalho e amigos. 

Neste cenário ocorreu a popularização do termo “esquerdomacho”, que ganhou amplo espaço no mundo das indiretas nas redes sociais e foi parar na boca de feministas como a famosa youtuber JoutJout. Em um de seus vídeos ela conta como identificar o tipo. 

“O esquerdomacho é aquele cara que ama o feminismo, apoia, acha ótimo, já leu sobre, estudou um pouquinho sobre… ele discute no bar à beça sobre feminismo, desde que o feminismo não incomode ele em algum aspecto”, disse JoutJout no vídeo “Não vai ter confete, amigão”

O termo também foi assunto na Vice Brasil, que em abril de 2017 criou uma lista com os dez maiores esquerdomachos do país, salientando as contradições entre o discurso e as ações das personalidades elencadas. No ranking estão Dado Dolabella, Xico Sá, Gregório Duvivier, Caio Blat, Felipe Neto e Jean Wyllys, entre outros. 

Resumidamente, a expressão “esquerdomacho” refere-se a um homem de ideais progressistas, com inclinações políticas de esquerda e que se diz defensor dos direitos das mulheres, mas que se contradiz em suas atitudes em relação às mulheres com quem convive. 

“São aqueles que muitas vezes querem ser protagonistas no discurso sobre o feminismo, mas que no seu cotidiano oprime a mãe, a namorada, a esposa. É aquele militante de esquerda que diz defender a causa, mas que não paga a pensão dos filhos, para citar um exemplo”, explica a jornalista e militante feminista Paula Guimarães. 

Origem do termo 

Não se sabe exatamente quando e como o “esquerdomacho” surgiu pela primeira vez, mas os primeiros registros de buscas no Google são de 2014, ano em que o feminismo brasileiro passou a ser difundido e amplificado pelas redes sociais com mais intensidade. 

“O termo se popularizou nesse caldo de interações virtuais, onde a crescente visibilidade sobre as pautas feministas também abriu espaço para debates intensos nos campos progressistas, tanto sobre as formas de organização, demandas e táticas dos feminismos, quanto sobre o comportamento, muitas vezes contraditório, de homens engajados com a busca por justiça social”, diz Marcelli Cipriani, mestranda do programa de Ciências Sociais da PUC-RS. 

O surgimento desta expressão também pode estar relacionado aos debates feministas dos Estados Unidos, cuja a influência sobre o feminismo virtual brasileiro foi considerável. Por lá, a noção de “manarchist”, para se referir ao machismo em círculos anarquistas, já existia desde 2008. Poucos anos depois, a versão para o movimento socialista, “brocialist”, também passou a ser utilizada nos debates sobre feminismo na internet. 

Feminismo x Esquerda 

Mesmo que a etiqueta do “esquerdomacho” tenha ganhado destaque há poucos anos, as tensões entre a esquerda e o feminismo não são recentes. Segundo lembrou Cipriani, no final dos anos 60, universitárias estadunidenses que integravam o movimento estudantil para o fortalecimento dos movimentos negro e antiguerra, propuseram organizar um novo braço de luta em torno da libertação das mulheres, mas foram ridicularizadas pelos homens que também faziam parte desses grupos. 

“Os homens que também compunham esses coletivos ridicularizaram sua iniciativa, reagindo a ela com declarações machistas e inferiorizando a capacidade política feminina. Enquanto as feministas faziam reuniões, onde partilhavam experiências e identificavam violências ou impedimentos sociais comuns, seus companheiros na militância política desqualificavam essas iniciativas como ‘terapias’”. 

Com o passar do tempo, os movimentos feministas foram sendo incorporados aos espaços de esquerda, mas ainda existem pontos de tensão entre estes grupos, especialmente pela conduta individual dos homens que os integram — motivo pelo qual a expressão “esquerdomachos” se popularizou. 

“Esta tensão também pode ser exemplificada pela dificuldade de partidos de esquerda para lidarem com denúncias de assédio sexual ou outras formas de violência – como ocorreu com o ‘Socialist Workers Party’ do Reino Unido, que enfrentou uma crise interna e um enfraquecimento relevante quando alegações de estupro feitas por uma filiada dividiram opiniões sobre como a questão deveria ser tratada”, lembrou Cipriani. 

Papel do homem no feminismo 

A crítica por trás da expressão não tem como objetivo afastar os homens da luta pela igualdade de gênero, mas sim apontar para o machismo em sua forma mais velada. Não existe um consenso em relação a qual seria o papel do homem dentro do movimento feminista, mas muitas mulheres defendem que eles precisam começar a questionar os seus privilégios e atuar em prol de uma sociedade mais igualitária e democrática. 

A colaboradora e educadora da Universidade Livre Feminista, Thayz Athayde, acredita que pouco se discute sobre o papel dos homens na sociedade e que existe uma urgência em debater o assunto para a construção de uma nova masculinidade. 

“Falar sobre esquerdomachos não significa dizer que os homens não podem se interessar por feminismo. É muito mais sobre tentar construir uma nova masculinidade em que o homem não seja opressor e que esteja disposto a ouvir muito mais do que falar”, disse ela. 

Na mesma linha, a jornalista Paula Guimarães acrescenta que “é preciso deixar de lado o discurso e começar a repensar e mudar as atitudes, seja convocando uma reunião para discutir os privilégios dos homens ou educando os meninos e meninas numa perspectiva de igualdade de oportunidades”.


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