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George Soros: quem é o bilionário que financia a esquerda pelo mundo

Desde a década de 1990, o bilionário húngaro se tornou uma das principais forças influenciadoras de mercados e governos ao redor do mundo. Com tendências à esquerda, o que todos querem saber é: o que ele realmente pretende?

  • Maurício Brum especial para a Gazeta do Povo
George Soros nos escritórios da Open Society, em Nova York | JOSHUA BRIGHT/NYT
George Soros nos escritórios da Open Society, em Nova York JOSHUA BRIGHT/NYT
 
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Com uma fortuna estimada em mais de 25 bilhões de dólares, George Soros é hoje uma das trinta pessoas mais ricas do mundo. Húngaro naturalizado americano, Soros está com 86 anos de idade e tem influenciado governos e mercados desde o início da década de 90, quando ficou conhecido como o “homem que quebrou o Banco da Inglaterra”. Mas o interesse sobre ele aumentou ainda mais nos últimos anos. O ressurgimento de Soros se deve ao seu pesado financiamento a políticos e projetos progressistas ao redor do mundo, uma aparente contradição para alguém que fez fortuna especulando no mercado. As dúvidas sobre suas intenções são grandes: afinal, até onde o bilionário quer chegar em seu projeto global? 

Uma história de cinema 

A história daquele que hoje é um dos homens mais influentes do mundo começa na Hungria, em tempos difíceis – e é também uma história de sobrevivência. Seu pai era advogado e a família vivia com conforto para o padrão de vida húngaro da época, solidamente assentada na classe média de Budapeste, mas a existência estava em constante risco: judeus não praticantes, eram vistos com crescente desconfiança em uma Europa que se tornava cada vez mais antissemita.

Soros nasceu em 1930, em meio à Grande Depressão, e seu sobrenome original era outro: Schwartz. O pai, Teodoro, optou pela mudança em busca de algo que soasse menos judeu e permitisse à família ficar em paz. Não seria a última grande mudança pela qual eles passaram: George Soros tinha treze anos de idade quando os nazistas marcharam sobre Budapeste e começaram a deportar judeus para Auschwitz. Foi após o próprio Teodoro receber uma ordem de deportação que a família decidiu comprar documentos falsos, indicando que na realidade era cristã. 

Os Soros sobreviveram à Segunda Guerra, mas a situação dos judeus na Hungria não melhorou com a ocupação soviética: George emigrou para a Inglaterra, estudou filosofia na London School of Economics, onde foi pupilo de Karl Popper. Em meados dos anos 50, após um curto período trabalhando como caixeiro-viajante, Soros conquistou seu primeiro emprego em um banco de investimentos londrino. Nunca mais saiu do mercado financeiro. Mudou-se para Nova York, tornou-se cidadão americano e, ao longo das duas décadas seguintes, desenvolveu seu pensamento e suas estratégias econômicas. Em 1969, fundou sua própria firma de investimentos e viu o tamanho da fortuna que possuía crescer exponencialmente: nas quatro décadas seguintes, a Soros Fund Management rendeu, em média, 20% ao ano. 

O homem que quebrou o Banco da Inglaterra 

A primeira vez que George Soros conquistou as manchetes do mundo inteiro foi no início da década de 90, quando ficou conhecido como o “homem que quebrou o Banco da Inglaterra”. Considerando a posição britânica insustentável dentro do então chamado “Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio” (ERM, na sigla em inglês), Soros havia comprado libras nos meses anteriores, acreditando que mais cedo ou mais tarde o país acabaria por desvalorizá-la a um valor abaixo do limite definido pelo ERM. Foi o que aconteceu: apostando contra a libra esterlina, Soros lucrou 1 bilhão de dólares em apenas um dia, a chamada “Quarta-Feira Negra”, em 16 de setembro de 1992. 

A boa leitura de mercado, e os efeitos que isso havia tido na política (o Partido Conservador havia vencido as eleições britânicas em abril daquele ano com 42% dos votos, e após a “Black Wednesday” seu apoio popular despencou para 29%), fizeram com que as posições de Soros passassem a ser acompanhadas com interesse redobrado. Nos anos seguintes, sua fortuna continuou a aumentar, e sua influência cresceu na mesma proporção. O bilionário se tornou um destacado filantropo, mas pouco a pouco ficou claro o tipo de ideias que financiava, a partir de suas Open Society Foundations, criadas em 1993: organizações não-governamentais e candidatos com ideias progressistas, de esquerda e antissistema. 

Em seu livro de 1987, A Alquimia das Finanças, Soros havia mostrado o tamanho da ambição que o movia: “Dizendo sem rodeios, eu me imaginava como uma espécie de deus ou um reformista econômico como Keynes, ou, melhor ainda, me imaginava como Einstein. Meu senso de realidade era forte o bastante para me fazer entender que essas expectativas eram excessivas, e eu as mantive escondidas [...] Mas, conforme fui avançando, a realidade se aproximou o bastante da minha fantasia para que eu admitisse esse segredo, pelo menos para mim mesmo. Não é preciso dizer que me sinto muito mais feliz por causa disso”. Cada vez mais, Soros parecia mais determinado a cumprir o destino de grandeza que dizia ter imaginado para si mesmo. 

O “globalismo” 

A verdade é que George Soros já havia utilizado seu poder econômico antes: ainda em 1979, uma versão embrionária da Open Society começou a fornecer bolsas de estudo para negros sul-africanos em meio ao Apartheid. O próprio nome da organização – literalmente “sociedade aberta” – vinha da filosofia de seu mentor na London School of Economics, Karl Popper, e do francês Henri Bergson, e indicava a necessidade de uma abertura em diferentes aspectos: abertura às novas ideias, à crítica das tradições, à tolerância; sempre com o argumento de buscar governos menos autoritários e mais inclinados à defesa da liberdade e dos direitos humanos. 

Nos anos 80, as Open Societies de Soros começaram a financiar, direta ou indiretamente, grupos que lutavam contra o regime socialista no Leste Europeu: primeiro apoiou o Solidariedade de Lech Walesa, na Polônia, e em seguida canalizou recursos para grupos de oposição na Tchecoslováquia, na União Soviética e na sua Hungria natal. Após a queda do muro de Berlim em 1989 e o colapso definitivo da URSS dois anos mais tarde, o dinheiro de Soros continuou a moldar o contexto político desses países, agindo sobre os grupos que se debatiam pelo poder nas novas democracias pós-socialistas. 

A mudança fundamental que a Open Society fundada nos anos 90 trouxe foi uma atuação cada vez maior de Soros também nas grandes nações capitalistas ocidentais – financiando, nelas, grupos que muitas vezes se diziam de esquerda. A aparente contradição de um grande bilionário e especulador financiando grupos progressistas é explicada pelo mesmo tipo de ideias que havia guiado suas ações anteriores: Soros está por trás de grupos que contrariam posturas e valores tradicionais, e aposta alto nas organizações que julga capazes de empurrar a sociedade no rumo dessas mudanças sem, no entanto, ameaçar realmente o sistema capitalista que possibilita sua fortuna e seu poder. 

No contexto atual, isso indica uma interseção com boa parte das esquerdas ao redor do mundo: grupos que lutam pela legalização das drogas, pelo aborto, pelos direitos de homossexuais e pelo feminismo, pela redução do peso da religião sobre a legislação, entre outras medidas. É daí, também, que vem a desconfiança da direita em relação aos interesses de George Soros: por colocar seu dinheiro contra as instituições e tradições, estaria colocando em xeque o que os conservadores consideram ser os valores básicos da sociedade ocidental, e abrindo margem para um perigoso “globalismo” – em que esses valores viriam de cima para baixo, de uma espécie de “governo global” (que não precisa existir na prática, e sim nas ideias), que dita o certo e o errado e não se preocupa com as especificidades de cada país. 

Em um podcast intitulado “Não é você que pensa o que pensa – George Soros pensa por você”, o analista político Flavio Morgenstern dá exemplos atuais de organizações que já colocariam em prática preceitos dessa sociedade “global”: em um plano muito mais prático, a União Europeia, como uma unidade que define políticas além das fronteiras e soberanias nacionais; de forma mais ligada às ideias, a ONU, órgão transnacional máximo, onde a representação de cada país é extremamente indireta, mas cujas resoluções são raramente questionadas apesar disso. 

A extensão do poder 

Em agosto de 2016, uma série de vazamentos, conhecida como “Soros Unleashed” e divulgados pelo site DC Leaks, ajudou a compreender a extensão dos investimentos de Soros em diferentes níveis da política mundial, inclusive em organizações brasileiras, particularmente aquelas ligadas a movimentos de desmilitarização da polícia e descriminalização das drogas. De acordo com o material vazado, a Open Society destina cerca de 37 milhões de dólares a projetos na América Latina. 

A influência de Soros é muito maior nos Estados Unidos, onde seus laços com o Partido Democrata são tão estreitos que o programa humorístico Saturday Night Live já fez piada dizendo que o bilionário era o “dono” do partido. Republicanos acusam Soros de ter indicado a dedo nomes fortes do governo de Bill Clinton, ter dado o pontapé inicial nas doações de campanha de Barack Obama e, mais recentemente, ser o grande financiador de Hillary Clinton – pelo menos 25 milhões de dólares teriam saído dos bolsos de Soros para impulsionar sua candidatura. Michael Vachon, assessor de imprensa de Soros, defendeu o investidor recentemente: “ele está sempre fazendo lobby por um propósito público, nunca por lucro privado”, disse, acrescentando que o bilionário só age a partir de uma visão de longo prazo. 

Nos últimos anos, a ascensão de grupos nacionalistas ao redor do mundo contribuiu para semear ainda mais contrariedade às posturas de Soros no cenário internacional. Na Macedônia, ex-integrante da Iugoslávia, um grupo conhecido como SOS (sigla para “Stop Operation Soros”) acusa ONGs financiadas por Soros de tentar intervir na política do país. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orban é um crítico contumaz de seu rico compatriota, e a maioria parlamentar vem tentando impor legislações a fim de encerrar as atividades da Universidade Centro-Europeia, que Soros fundou em Budapeste em 1991. 

A crítica ao “globalismo”, que também é uma das bandeiras do “Brexit” no Reino Unido, esteve ainda entre os principais argumentos dos apoiadores de Donald Trump nas eleições norte-americanas. O triunfo republicano ajudou a mostrar que, embora a influência de Soros seja muito grande nos rumos da política local e mundial, seu poder não é ilimitado – nem está à prova de surpresas. No caso dos EUA, a vitória de Trump não foi apenas um duro golpe nas ideias defendidas pelo magnata: também pesou no seu bolso. Estimativas recentes indicam que George Soros viu sua fortuna encolher cerca de um bilhão de dólares desde novembro de 2016, quando as urnas confirmaram que Hillary não voltaria à Casa Branca.

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